O Bolsonaro canta bem sim, você é que é homofóbico

Artigo de Opinião

por Leandro Altheman

Vão me perdoando aê, por estar tratando de assunto tão pouco carnavalesco nesta segunda de Carnaval: o tal Bolsonaro e sua PERFORMANCE para um grupo de empresários em que ameaça metralhar a favela da Rocinha do Rio de Janeiro, como resposta à crescente onda de criminalidade no país.

Ou não, talvez seja justamente esse o caráter de sua afirmação: uma pantomima de carnaval, como aliás, quase tudo que sai de sua boca. Tem valor meramente performático.

O primeiro problema não é portanto a sua encenação grotesca, mas os aplausos da plateia a que se dirigia: um grupo de grandes empresários.

A segunda, e é essa que interessa mais no objeto desse texto, é que vejo contra-producente a divulgação gratuita que os indignados fazem de sua pantomima.

É o que aqui no Norte chamamos de ‘MUNGANGO’: caretas que servem para impressionar, obter atenção. Nada mais.

E aí teremos que entrar na complicada seara da segurança pública. É duro admitir, mas a ‘foba’ (outra palavra nortista, designa ‘bravata’) de Bolsonaro só faz sentido por que de fato, há uma crise de segurança pública, e basicamente, os setores que o criticam mais duramente, são os que menos tem apresentados propostas concretas para o tema.

Metralhar a Rocinha é um delírio, mas o velho discurso de que o problema de segurança pública pode ser solucionado com ações sociais é uma fantasia ainda mais velha que já foi borrada e levada pelas chuvas de outros carnavais. Tanto que na esquerda mesmo há quase uma vergonha em proferir tal discurso (Veja bem, não se trata de afirmar que as ações sociais não sejam NECESSÁRIAS na questão de segurança pública. Trata-se apenas de constatar que não são SUFICIENTES). Delírios como esse de metralhar a rocinha surgem justamente no vácuo deixado pela falta de propostas concretas.

E aí, que ao invés de ficarmos reproduzindo, indignados os delírios momescos de Bolsonaro, é que deveríamos estar apresentando propostas reais, concretas, realizáveis e efetivas de enfrentamento à violência urbana que se instalou no país. Deveríamos antes, estar ‘disputando a audiência’ com algo mais realista, ao invés de ‘dar audiência’ e divulgação gratuita para as fantasias de Bolsonaro.

Agora, explico o título nada ortodoxo desse artigo: primeiro, disputar a audiência com o rude e surreal. O título é também, um MUNGANGO. Não podem afinal me condenar. Apenas estou tentando jogar de acordo com as regras que valem nesse jogo.

Segundo, uma referência ao modo como se dá a propaganda nas redes sociais: a regra de ouro é:  quem fala mal, dá audiência. Fenômenos como da cantora Pablo Vittar se explicam em grande parte a esse efeito divulgador de seus detratores. Bolsonaro também. Não obstante que um de seus maiores divulgadores foi inadvertidamente seu arquirrival Jean Willys.

O absurdo tem essa característica: por chocar, obtém palco e plateia em um mundo de pessoas cansadas e sem esperança. O mungango funciona. Um perigo, não no caso de Vittar, mas de Bolsonaro.

Pablo Vittar pode cantar mal (ou não, segundo o gosto de alguns) assim como as ideias de Bolsonaro são terrivelmente ruins (ou não, segundo o gosto de alguns), mas um a coisa é certa: ambos são excelentes performáticos e se beneficiam do choque que causam no público. As semelhanças param por aí: Pablo Vittar é alegre e diverte, e quem não gosta pode simplesmente trocar de canal ou desligar. Bolsonaro é danoso em múltiplos sentidos, e por isso mesmo exige, de imediato uma resposta à altura. E certamente não é assim que é lida pela população essa indignação impotente e perplexa que temos apresentado.

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