Rio Branco, Acre, 28 de outubro de 2020

‘É um projeto criminoso’ diz Cacique Biraci Yawanawá sobre créditos-carbono

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Abril Indígena – Entrevista com Biraci Brasil, liderança do povo yawanawá

Aos 52 anos, o cacique Biraci Brasil Yawanawá é uma das mais expressivas lideranças indígenas do país. Nixiwaká, como é chamado entre seu povo, participou de lutas que culminaram com a demarcação da T.I. Yawanawá e na expulsão dos missionários evangélicos na década de 80.

Desde então, o povo Yawanawá tem experimentado diferentes modelos de organização e de produção dentro das comunidades, passando pelo fornecimento de urucum para a multinacional de cosméticos Aveda, pelo aproveitamento de árvores caídas para confecção de móveis com design próprio, pelo artesanato que já foi apresentado até mesmo na feira de design de Milão, além do crescente etnoturismo que traz um afluxo considerável de visitantes todos os anos.

Tantas experiências, com diferentes graus de sucesso, tem ajudado a manter o equilíbrio entre as atividades tradicionais de caça, pesca e artesanato ao mesmo tempo em que permite o acesso a itens que depois de cem anos de contato são considerados imprescindíveis para o dia-a-dia.

Talvez um dos resultados mais evidentes deste modelo de gestão é um povo que ao mesmo tempo em que está presente em desfiles e eventos internacionais de moda, conecta-se cada vez mais com as raízes de sua ancestralidade, cultuando uma espiritualidade renovada na floresta através de suas plantas sagradas e de uma ritualística bastante híbrida onde desponta musicalidade, ritmo e cores que ultrapassam as fronteiras da aldeia.

Neste Abril Indígena o Jornal Juruá Em Tempo entrevistou Nixiwaká que falou sobre suas reflexões a cerca de temas como educação, produção, política e sobre sua preocupação com o avanço dos chamados serviços de proteção ambiental e de créditos-carbono (REDD) nas terras indígenas.

Biraci Brasil. Despreocupado em atender às expectativas do branco sobre o que é 'ser índio', Nixiwaká permitiu ser fotografado com o chapéu de palha que usa para se proteger do sol na longa viagem pelo rio Gregório

Biraci Brasil. Despreocupado em atender às expectativas do branco sobre o que é ‘ser índio’, Nixiwaká permitiu ser fotografado com o chapéu de palha que usa para se proteger do sol na longa viagem pelo rio Gregório

Juruá em Tempo – Você acaba de retornar de uma viagem onde teve contato com diferentes modelos alternativos de produção e de educação. Você acha que estas experiências podem ser aproveitadas na aldeia?

Biraci Brasil – Nós estávamos estudando a ideia de implantar um grande projeto de produção de açaí em nossa terra, com o objetivo de comercialização. Mas nessa viagem tivermos contato com a experiência de Sistemas Agroflorestais (SAF) que vem sendo conduzida por Ernst Gostch* e achamos esse modelo mais interessante, porque é o que mais se aproxima do modelo tradicional, já feito pelos nossos antepassados, só que com mais estudo, com mais pesquisa. Desse jeito poderemos ter não apenas o açaí, mas tirar alimento o ano inteiro da mesma floresta, sem desmatar. Entendemos que esse sistema pode envolver nossas famílias a voltar a trabalhar todos juntos na terra, como nossos antigos. Mas para isso é preciso muito estudo, muita observação. A ideia é começar com intercâmbios para formação de agentes que possam aos poucos trazer essa experiência para cá. Nosso sonho é com isso poder levantar uma economia coletiva.

Juruá em Tempo – A educação também parece ser uma preocupação muito presente, fazer com que a escola não reproduza um modelo do branco, mas que ajude no fortalecimento da cultura do povo yawanawá. Você também teve contato com modelos diferentes de educação?

Biraci Brasil – Fizemos uma visita à Escola Ciranda em Paraty (RJ) e ao Instituto Ouro Verde, em Belo Horizonte** que são escolas que seguem uma pedagogia diferente do MEC, uma pedagogia onde está inserida na formação dos alunos, trabalhar com a terra, fazer um trabalho coletivo que reúne diferentes idades.

Nossa escola tem virado um vizinho que não fala nossa língua. Queremos uma escola nossa, com a nossa característica. Uma escola que compreenda a minha língua, que fortaleça a minha cultura, e sobretudo a nossa espiritualidade. Queremos uma escola onde se possa ensinar os nossos cantos, nossas histórias.

Juruá em Tempo – Você participou de algumas discussões sobre pagamentos por serviços ambientais e de créditos-carbono no Fórum Social Mundial na Tunísia e na COP 20 em Lima. Depois de participar destes debates, já tem uma posição definida sobre esse tema?

Biraci Brasil – No começo eu estava tentando entender. É algo novo no Brasil. Em algum momento eu achei que era um caso de dar atenção. Mas agora, compreendendo mais um pouco esse projeto, percebi que é um projeto que bate de frente com a nossa cultura a nossa espiritualidade. É um projeto que não respeita e não valoriza e nem fortalece a nossa tradição. Hoje mesmo dentro da terra indígena a gente já percebe o efeito desse projeto.  Eu tenho uma preocupação muito grande e não concordo e vou manifestar minha opinião publica dizendo o meu ponto de vista. Não quero compactuar, e quero que as empresas parceiras desse projeto, o Governo do Estado e Funai saibam que na nossa terra, a aldeia nova esperança na minha liderança e representado juridicamente pela Copyawa não compactuamos com esse projeto.

Juruá em Tempo – Porque?

Biraci Brasil – Esse projeto estimula a divisão do nosso povo. Esse projeto traz um acordo, um pacto de não derrubar a floresta para fazer nossos roçados e vamos criar um compromisso com nossos financiadores. E quem são os financiadores? São grandes empresas multinacionais que poluíram, que destruíram a floresta e agora querem encobrir esse processo criminoso que essas empresas cometeram contra o meio ambiente no nosso território que nós protegemos a duras penas e ainda causando grandes divisões políticas e sociais no meio de nossa casa. Grandes empresas multinacionais estão aos poucos adentrando os territórios com promessas de fortalecer a cultura. São promessas mentirosas e vão colocar em risco uma cultura milenar dos povos indígenas. Precisamos refletir e estar atentos quando recebermos promessas de apoio milionário. Eles se aproveitam da nossa fragilidade de não termos como comprar as coisas de que necessitamos e trazem para a comunidade projetos criminosos.

Juruá em Tempo – Trazendo um pouco para a questão política, por que razão, em sua opinião, o movimento indígena tem tanta dificuldade em conquistar representatividade no campo político, mesmo com um número de eleitores já suficientes para vencer eleições proporcionais?

Biraci Brasil – Primeiro porque este é um mundo que não nos pertence. Por mais que os políticos das situações sejam nossos amigos, a essas pessoas não interessa eleger representantes indígenas. São convidados pelos partidos somente para dizer para a sociedade que estamos juntos nesse projeto que interessa aos partidos políticos, o que é outro jogo complicado. Os partidos são como se fossem outra aldeia, outro povo. Tem seus próprios interesses.

Juruá em Tempo – Vivemos um momento de grande polarização política entre os que querem o impeachment da presidente Dilma, e aqueles que defendem sua permanência. Qual sua posição como liderança indígena sobre esse momento?

Biraci Brasil – É muita confusão. Primeiro porque a imprensa confunde a sociedade. Nas redes sociais e na imprensa cada um defende seus interesses. A gente não sabe da verdade.

Para mim, a presidente Dilma tem deixado muito a desejar. Mas como a primeira presidente mulher, vejo que além da questão política, tem também muito preconceito. Não vejo necessidade de impeachment para um mandato que tem um tempo para terminar.

O congresso tem agido de maneira irresponsável. Não está cuidando do país e está deixando um clima de insegurança que afeta todo país, inclusive nós, aqui na floresta.

Por outro lado, em uma visão do que venho estudando através da espiritualidade, vejo que todo esse acontecimento é para reformular a consciência do povo brasileiro, para a gestação desse novo ciclo que a humanidade está entrando.

Todos esses balanços na economia mundial e conflitos é para dizer que esse sistema que está aí não é o que necessitamos como seres humanos e nem para a natureza. Ou mudamos esse sistema ou vamos ter um balanço ainda maior, mundialmente.

Juruá em Tempo – Temos assistido ao avanço de grandes projetos na Amazônia, como por exemplo as hidrelétricas de Belo Monte e agora, no Tapajós. No Acre já se chegou a discutir sobre a questão do petróleo. Qual sua visão sobre isso?

Biraci Brasil – Qualquer projeto que destrói a natureza não se explica mais. Esta fora do sistema de equilíbrio ambiental e por isso vem sempre causar muitos danos ao homem e à natureza.

Juruá em Tempo – Na nossa sociedade há uma necessidade grande de energia. Mesmo os yawanawá, por exemplo, dependem de gasolina para seus barcos e geradores. De onde viria a alternativa?

Biraci Brasil – O homem branco é tão inteligente, avançou muito com a ciência. Existem outras formas de criar energia sustentável . Mas o que eu percebo é que são os interesses das multinacionais que predominam na economia mundial e dificultam o avanço dessas alternativas para manterem o domínio sem se importar com homem ou natureza.

Juruá em Tempo – A ciência pode trazer avanços na questão energética por exemplo, e os povos indígenas? Eles tem algo a contribuir com a construção desse novo mundo?

Biraci Brasil – Precisamos fazer um grande debate com a participação de toda a sociedade, incluindo nós, povos indígenas para que a gente possa encontrar a melhor forma de desenvolvimento, que inclua esses povos, respeitando conhecimentos e tradições e valorizando esses conhecimentos.

*Ernst Gostch – Engenheiro agrônomo vem difundindo o conceito de agricultura sintrópica, sistemas agroflorestais que independem de adubação química ou defensivos.

** Instituto Educacional Ouro Verde em BH, adota a pedagogia Waldorf, uma pedagogia que tem como proposta o desenvolvimento integral do ser humano ou seja, não apenas no aspecto intelectual, mas também físico, artístico e espiritual. A Escola Ciranda em Paraty-RJ adota parcialmente a pedagogia Waldorf, mas também a pedagogia da Escola da Ponte (Portugal) e Paulo Freire.

Por Leandro Altheman

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