Rio Branco, Acre, 28 de outubro de 2020

Opinião: A Onça e o Fogo

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A morte da Onça Juma, mascote do Batalhão de Selva de Manaus, durante a passagem do Fogo Olímpico é mais um fato que vem se somar à cada vez mais extensa lista de fatos vergonhosos em relação às Olimpíadas no país.

Se já não bastassem as remoções forçadas, as obras superfaturadas e atrasadas, a Baía de Guanabara poluída, a desfaçatez de uma classe política ilegítima e sem representatividade, agora temos também para a vergonha geral da nação, um animal símbolo abatido minutos depois de posar como ‘figurante’ da passagem da tocha.

Alguém já disse que ‘somos todos onças’: figurantes em uma celebração cuja ‘presença’ do povo brasileiro é meramente ilustrativa de um ‘povo cordial e feliz’ que somente permanece vivo na memória de marchinhas de carnaval.

Somos o povo cordial e feliz que mais avidamente destrói e mata no mundo. Segundo relatório da Global Witness, o Brasil foi no ano de 2015, o país em que mais se mataram ambientalistas. Cinquenta segundo o relatório. Somos seguidos pelas Filipinas e Colômbia, com 33 e 26 respectivamente.

Nicinha

Acreana, filha de seringueiros, Nicinha denunciou violação de direitos cometidos pelo consórcio da Hidrelétrica de Jirau. Foto: MST

Nesta terça-feira (21), foi encontrado no lago da barragem da Usina Hidrelétrica Jirau, em Porto Velho (RO), o corpo de Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida como Nicinha. A liderança do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) havia sido assassinada no início do ano e seu corpo estava desaparecido desde o dia 7 de janeiro. Nicinha denunciou as violações de direitos humanos cometidas pelo consórcio responsável pela UHE de Jirau, chamado de Energia Sustentável do Brasil (ESBR). Nicinha é provavelmente mais uma morte por questões ambientais e conflitos de terra, causadas sobretudo, por um modelo de desenvolvimento que insiste em crescer às custas das vidas de onças e gentes.

Global Witness

Em 2015 o Brasil liderou o ranking de mortes em questões ambientais.

A Onça Juma já estava morta antes de morrer.

Este aliás tem sido o principal argumento daqueles que se propõe a minimizar e relativizar o fato. O Exército recebe dezenas de animais capturados pelo IBAMA de traficantes ilegais, ou quando por acaso algum destes animais ‘invade’ uma propriedade.

A Onça Juma morreu sua primeira morte quando teve seu habitat natural destruído para dar espaço a alguma fazenda, barragem ou garimpo. Uma segunda morte na mão de traficantes. Uma terceira morte, simbólica, quando, ela, a senhora absoluta da floresta foi acorrentada para tornar-se figurante involuntária da pantomima olímpica. E finalmente o tiro de misericórdia, quando um esturro e um movimento ‘suspeito’ trouxe a tona sua verdadeira natureza: uma Onça viva em carne, osso, garras, dentes e pintas sempre será mais do que apenas o símbolo de bravura a que se pretende usá-la.

Mas, para muito além da comoção pública da morte de um animal que não escolheu estar ali, e para muito além de mais essa vergonha nacional, há outros ‘símbolos em movimento’ que merecem ser recordados, para que não se tornem apenas gestos ensaiados e repetidos, vazios de significado.

O primeiro deles trata-se da própria Tocha Olímpica. A tocha simbolizava para os antigos gregos que instituíram as Olimpíadas, o Fogo roubado de Zeus por Prometeu.

Contam os mitos que Zeus teria proibido os demais deuses a dar ao homem o fogo, já que com ele, poderíamos nos igualar aos deuses.

Gregos Antigos

Celebração contemporânea aos deuses antigos. A tocha olímpica tem origem no mito de Prometeu. Foto: Sputnik

A ordem de Zeus foi desafiada por Prometeu que após roubar-lhe o Fogo, presenteou-o a humanidade.

É bastante evidente que, para os gregos antigos, o Fogo é o que diferencia o Homem das demais espécies, colocando-o mais próximo da Divindade.

Esse tema reaparece nos mitos ameríndios. Com a diferença que os povos nativos da América, é justamente a Onça, a Dona do Fogo.

Leia mais sobre a Onça e o Fogo Onça

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