Rio Branco, Acre, 26 de setembro de 2020

Petecão, Gladson e Flaviano Melo prestam solidariedade a Temer mesmo sabendo que ele pode perder o cargo e ser preso por crimes de obstrução à Justiça e cumplicidade com Eduardo Cunha

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POR TIÃO MAIA

 

“Ele nos recebeu muito bem, se comprometeu no empenho das nossas demandas para o estado e perguntou como estavam as obras do governo federal. A única coisa que o presidente comentou sobre a polêmica foi que estava muito tranquilo, que vai aguardar os áudios que dizem que tem (sic) e que vai se posicionar perante a (sic) nação pública”, disse o senador.

O senador, no caso, é Gladson Cameli, do PP do Acre, citado pelo portal G1, da Rede Globo, na manhã da última quarta-feira, 17 de maio, ao se referir à audiência com o presidente Michel Temer, no Palácio do Planalto, na manhã seguinte à divulgação do maior escândalo político de que se tem notícia no país: Temer fora gravado pelo executivo Joesley Batista, do Frigorífico JBS, concordando e incentivando a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, que está encarcerado em Curitiba e condenado a 15 anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro por corrupção em contratos com Petrobrás em ações comprovadas pela operação Lava Jato.

– Tem que manter isso aí – diz Temer, o presidente da República, no áudio de 39 minutos entregue pelo executivo ao Ministério Público Federal (MPF) como parte de sua colaboração premiada no qual o dono do JBS diz que está pagando R$ 500 mil semanais a Eduardo Cunha e que havia “zerado tudo” para garantir o silêncio do ex-deputado preso. De acordo com o áudio, o presidente da República não só manifesta consentimento à prática como insiste na sua manutenção. Em denúncia encaminhada ao STF (Supremo Tribunal Federal) e aceita pelo ministro Edson Fachin, o procurador Geral da República, Rodrigo Janot, enxergou ali, entre o crime de obstrução à Justiça e outros, crimes de prevaricação, que ocorre quando funcionário público pratica ou se omite quando tem conhecimento de crimes praticados contra o interesse público.

O crime está previsto no artigo 319 do Código Penal, que qualifica a prevaricação como um crime funcional, praticado por funcionário público contra a administração pública e que consiste em “retardar, deixar de praticar ou praticar indevidamente ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal”. A pena é de detenção de três meses a um ano, mais pagamento de multa. É a primeira vez na história do país que o STF autoriza a abertura de inquérito por crime comum contra um presidente da República no exercício do mandato.

O acreano Gladson Cameli, que se jacta por ser o mais novo senador do país e autodeclarado candidato a governador do Estado pelos partidos de oposição à Frente Popular do Acre (FPA), não viu nada disso. Na sua ingenuidade, cegueira ou cumplicidade com o mais escandaloso fato político da história do país, Cameli não estava sozinho no encontro com Temer. Fazia-se acompanhar de ninguém menos que o também senador Sérgio Petecão (PSD-AC) e do deputado federal Flaviano Melo (PMDB-AC). Os três entraram para a história como os únicos políticos recebidos por Temer – depois de seus ministros e aliados mais próximos – após a divulgação do escândalo que deve apeá-lo do cargo e levá-lo até mesmo à prisão.

Chamou a atenção o fato de a segunda deputada federal do PMDB pelo Acre, Jéssica Sales, não ter participado do encontro. Na véspera da divulgação do escândalo envolvendo o presidente Temer, a filha do ex-prefeito de Cruzeiro do Sul Vagner Sales, cujo pai sempre se jactou da amizade pessoal com o atual presidente desde os tempos em que ele era deputado e presidente do PMDB, veio a público dizer que até poderia a ser expulsa do partido mas não votaria a favor da reforma da Previdência proposta pelo governo. Para Temer, todo poderoso antes de começar a sangrar por conta do escândalo, quem votasse contra suas reformas, ainda que fosse de deu partido, seria punido com a expulsão, ameaçava o próprio. Ao não participar do encontro, Jessica Sales por certo se salvou do constrangimento de ter que prestar solidariedade, como fizeram os dois senadores e o deputado, a um presidente que vem sendo execrado de norte a sul do país e que, além do processo criminal do STF, já responde a pelo menos oito pedidos de impeachment no Congresso Nacional. Temer agoniza em praça púbica como um moribundo político.

Ao que tudo indica, o único a sair do encontro com algum pudor em função das circunstâncias foi o experiente Flaviano Melo, atual deputado federal, ex-prefeito, ex-governador e ex-senador. Ele entrou calado e saiu mudo do encontro. Já seu colega de hostes oposicionistas, Sérgio Petecão, assim como havia feito Gladson Cameli, manteve sua fama de boquirroto e saiu do Palácio do Planalto sem qualquer constrangimento e falando sobre o estado emocional do presidente. Na saída, Petecão disse que o presidente demonstrou tranquilidade durante o encontro, e que falou por diversas vezes em “conspiração”. “Essa foi a palavra que ele mais usou”, disse o senador.

“Não vou cair, vou ficar firme…”, diz Temer no relato de Petecão

Em declarações reproduzidas pelo portal G1, Petecão veio ao gargarejo do palco mambembe em que chafurda a política nacional para declarar o que se segue: “Ele falou várias vezes: ‘não vou cair, vou ficar firme, estou firme’. Pediu as fitas, os áudios, falou também que vai fazer pronunciamento em rede nacional. Falou que vai ver os vídeos e os áudios. Acredita que é uma conspiração. Nesse momento que o governo começa a dar sinais. Esse fato [as denúncias] prejudica o país. Todo mundo está preocupado”, acrescentou o senador.

Foi Petecão que anunciou ao país que na quinta-feira, 17, Michel Temer falaria à nação, como de fato o presidente falou e, entre outras coisas, negou, naturalmente, envolvimento na compra do silêncio de Eduardo Cunha e anunciou que não vai renunciar ao cargo – como, aliás, vêm propondo inclusive alguns de seus aliados. Reclamou de gravações feitas na clandestinidade como se não fosse clandestino o próprio encontro do presidente da República num palácio público – o do Jaburu, onde mora o presidente e sua família- na calada da noite e fora da agenda institucional. O diálogo entre os dois foi gravado, com autorização da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da Justiça, no dia 7 de março no Palácio do Jaburu, residência oficial do presidente. Michel Temer não sabia que estava sendo gravado.

Ainda de acordo com Petecão, a reunião de parte da bancada do Acre com o presidente havia sido solicitada há pelo menos 30 dias antes da divulgação do escândalo. O objetivo era tratar de emendas de bancada que se referem à melhoria de ramais e questão da segurança pública no Acre. Com o país abalado com a notícia de que seu presidente havia se comportado, diante do executivo da JBS, como um marginal que concorda com um comparsa que relata seus crimes, a reunião com a bancada acreana, naquela manhã pós-escândalo, começou por volta das 8h (horário de Brasília) e durou de 20 a 30 minutos, segundo o senador Cameli.

Ao chegar ao Palácio do Planalto, por volta das 8h05, o presidente tinha 18 encontros previstos na agenda. Os encontros estavam marcados para ocorrer a cada meia hora, sem intervalos nem para almoço. Logo após a reunião com os parlamentares do Acre, porém, os outros 17 compromissos que constavam na agenda foram cancelados. Entre os compromissos, estavam encontros com deputados federais, estaduais, senadores, presidentes de partidos. No site do Planalto, a agenda foi substituída para “despachos internos”.

Como Romildo fez com Collor, os três se solidarizam com a bandidagem política

Aquela que deveria ser uma audiência para tratar de interesses do Acre, acabou por se transformar em manifestações de apoio e solidariedade de parte dos parlamentares do Estado ao presidente que pode deixar o Palácio do Planalto para fazer companhia a Eduardo Cunha numa cela de Curitiba por crimes que incluem também obstrução à Justiça, como ficou provado nas gravações com o executivo da JBS. Sem autorização do povo acreano, que não compactua com ilícitos, os parlamentares Petecão, Gladson Cameli e Flaviano, ao emprestarem solidariedade ao presidente, venderam a Temer, aquilo que não podem entregar.

Neste sentido, os três não estão sozinhos. Na triste memória política do Acre, em 1992, às vésperas de sua expulsão do Palácio do Planalto por corrupção e associação criminosa com seu ex-tesoureiro Paulo César Farias, o então presidente Fernando Collor recebeu a solidariedade o então governador Romildo Magalhães, o único governador estadual do país na época a manifestar solidariedade a Collor e a se colocar na contra mão da história, como o fazem agora Sérgio Petecão, Gladson Cameli e Flaviano Melo. O Acre e seu povo não merecem isso.

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