Rio Branco, Acre, 3 de agosto de 2021

Artigo: Uma cidade para poucos

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por Leandro Altheman

Um episódio recente envolvendo um hambúrguer e uma barata tem servido para expor um avançado e putrefato estado de coisas em Cruzeiro do Sul.

Como a maioria deve ter conhecimento, uma jovem cliente de uma conceituada lanchonete de nossa cidade foi surpreendida com uma barata no meio de seu lanche. O caso, obviamente obteve a notoriedade que qualquer episódio dessa natureza teria ganho.

A manifestação oficial, em nota, do proprietário da lanchonete, também foi exatamente o que se espera de um empresário minimamente responsável: um veemente pedido de desculpas, a promessa de investigar as causas do incidente para evitar que se repita no futuro.

Até aí, não há nada de estranho. Incidentes dessa natureza acontecem mesmo em grandes redes de alimentos, o que mostra que a busca por padrões de qualidade e higiene é incansável nesse setor.

O que surpreendeu, foi que enquanto o proprietário manifestava-se oficialmente com um pedido de desculpas, extra-oficialmente, nas redes sociais, conjugou-se uma onda de ataques à cliente, colocada sob suspeita, inclusive de sabotagem.

Sendo a cliente, ela própria, uma jovem empresária, viu-se enredada em uma série de acusações de pessoas que passaram a fazer jus à máxima ‘mais realista que o rei’.

Quem já tem algumas décadas de janela em Cruzeiro do Sul, facilmente identifica a motivação no talento natural que algumas pessoas parecem ter ao puxa-saquismo puro e aplicado. Nada de novo no front.

Contudo, nas mesmas redes sociais, houve quem percebeu o efeito perverso de um processo que leva Cruzeiro do Sul a se fechar sobre si mesma. A cada dia mais nos parecemos com um ‘clube seleto’, onde uma minoria tem direito a voz e vez. Nos lembram os contos medievais onde para ‘ter voz’, era necessário pertencer a alguma família da nobreza. Caso contrário, o postulante à justiça ficava sujeito a ter sua demanda defendida por algum nobre apiedado. Sem o sobrenome certo, a moça que mordeu hambúrguer com barata seria uma dessas ‘sem voz’, cuja ‘ousadia’ seria punida com a difamação por aqueles que ‘tem voz’.

O que já era evidente, tem ficado cada vez mais escancarado: Cruzeiro do Sul tem ‘donos’. Não por acaso são os mesmos donos da maioria dos terrenos urbanos desocupados, dos comércios varejistas mais importantes da cidade, do transporte de combustível, das empreiteiras, dos meios de comunicação. Sendo donos da maioria dos meios de produção, são também é claro, os donos da verdade. Não faltará um séquito de puxa-sacos a dizer que sim.

Com tantos recursos à disposição, seria de se esperar que estes também, fossem capazes de promover o desenvolvimento da cidade.

Isso não ocorre devido a mentalidade retrógrada que pauta os interesses e ações deste grupo. Estão cada vez mais fechados sobre si mesmo, e a maneira zelosa como contam os grãos de sua avareza nos fazem lembrar o conto do flautista de Hamelin. Mesmo que o flautista mágico fosse capaz de que nos livrar da praga das baratas (no conto original eram ratos), como punição à avareza dos cidadãos, bem capaz que levasse também as crianças da cidade todas embora.

Cruzeiro do sul parece estar fadado a esse destino. Incapaz de gerar uma perspectiva de futuro, quem pode dá um jeito de mandar seus filhos ‘para fora’. Isso sempre foi assim, dirão alguns, mas a questão é: ‘tem que continuar sendo assim?’

Não há como descolar a realidade de Cruzeiro do Sul do que acontece no restante do país. O Brasil passa por entropia. Somos um país que se apequena mais a cada dia. No cenário internacional, somos hoje uma pálida sombra do que já fomos um dia. Internamente, o ‘país da tolerância’, como já foi chamado, se esfacela em ódios múltiplos.

Nesse sentido, Cruzeiro do Sul é só ‘mais do mesmo’. Mas de todo modo entristece quem viu uma cidade pequena, mas de grande coração, se transformar em cenário de guerra das facções. E as facções não são um fenômeno somente ‘de fora’. Foram engedradas aqui mesmo, com décadas de cumplicidade de setores da sociedade com o tráfico de drogas.

Entristece ver também que tivemos um momento de apogeu econômico, cultural, simbólico e deixamos a oportunidade escapar entre os dedos. E digam o que quiserem mas foi o ESTADO, sim, ele mesmo, que dinamizou a economia e a sociedade cruzeirense. Diminuída a presença do ESTADO, voltamos à baila de uma classe econômica de pensamento colonial, incapaz sequer de pensar DESENVOLVIMENTO, para além, é claro de seus interesses mais imediatos.

Não podemos ser inocentes a ponto de não perceber o quanto o ESTADO também se dobra a estes interesses. Mas é preciso reconhecer que, havendo um projeto capaz de agregar as potencialidades econômicas, sociais e culturais da população, o ‘crescimento do bolo’ poderá ser melhor aproveitado por todos segmentos.  Caso contrário teremos o presente cenário: uma cidade abandonada, isolada, fechada sobre si mesmo, incapaz de gerar oportunidades, mas com carrões desfilando em suas ruas e avenidas sujas e esburacadas.

A essa altura do texto, é bastante evidente que um dos ‘projetos políticos’ que disputarão as eleições no próximo ano, é exatamente a materialização de uma visão de mundo

Uma cidade para poucos poderá tornar-se-á um estado para poucos.        

Em Tempo: A decisão do prefeito Ilderlei Cordeiro de entrar na justiça para NÃO CUMPRIR COM A OBRIGAÇÃO DE CRIAR UM PROCON na cidade somente confirma a tendência o conteúdo do texto. Não é preciso ser gênio nem cientista político para saber a quem interessa que não exista um PROCON na cidade.

 

 

ALEAC

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