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Artigo: Diferenças são fonte da verdadeira riqueza humana

Por Redação Juruá em Tempo.21 de outubro de 2017Updated:21 de outubro de 20174 Minutos de Leitura
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Conservadorismo e bullyng: algumas impressões

Jozafá Batista (*)

Bullyng é um daqueles termos do senso comum usados genericamente para todo tipo de peraltices infanto-juvenis. Embora sua condição de estrangeirismo reforce essa característica, a realidade é outra. A realidade, essa dama bem-vestida e misteriosa, é que a “educação para a diferença” que tantos filósofos defendem desde a Escola de Frankfurt até Deleuze, será algo de dificílima construção nas sociedades submetidas ao tacão do colonialismo.

O garoto de 14 anos que mata colegas a tiros, o aluno contrariado que esmurra a professora diante dos colegas, o traficante que “em nome de Jesus” destrói templos de cultos afro-brasileiros levam a mesma marca: a marca de uma sociedade avessa à diferença. O culto à normalidade, à uniformidade e imutabilidade mal se esconde por detrás de tais práticas aparentemente insanas. Quando outros indivíduos são vistos como ameaças pelo simples fato de serem diferentes, está pavimentado o caminho do horror.

Vejamos. O atirador juvenil era vítima do tal “bullyng” no colégio. A discriminação típica de atos desse tipo permaneceu intocada até que ele, emocionalmente ferido, desabasse sobre seus iguais com a fúria típica do ego destroçado. O agressor da professora não aceitava a correção própria do aprendizado escolar, ou seja, faltava-lhe mesmo a elementar noção da aprendizagem como aquele processo naturalmente desconfortável em que o senso comum cede lugar para a ciência. Os casos dos centros de candomblé do Rio são altissonantes. É a velha intolerância ao “paganismo”, uma figura macabra da teologia cristã que volta e meia reaparece.

Embora os espasmos de ódio de todos esses casos sejam comuns e até mesmo cultuados em filmes norte-americanos (cf. “Um dia de fúria”, com Michael Douglas), é preciso perguntar sobre a vantagem social dessas práticas. Eu cito: nenhuma e ouso ir além. A defesa, consciente ou inconsciente (geralmente inconsciente), de uma ordem social fundada nos costumes herdados e na tradição, e que serve de fundamento psicológico para essas práticas, é baseada numa mentira: a mentira da imutabilidade da cultura.

Ideia predominante no início do século XX, quando iniciaram as primeiras pesquisas sobre os padrões culturais, a imutabilidade da cultura é algo sedutor. A ideia de que os nossos ancestrais tinham a fórmula da sabedoria social e que é preciso resgatá-la daqueles que tentam causar a decadência da moral e dos costumes, foi rapidamente denunciada pelos antropólogos assim que serviu de suporte à ascensão do nazismo alemão, do fascismo italiano e do integralismo brasileiro, entre outras experiências políticas destrutivas.

Como professor de Ciências Sociais (leciono Sociologia, Antropologia e Ciência Política para o Ensino Médio) tento todos os dias mostrar a meus alunos que é a diferença, e não a igualdade entre os sujeitos, a fonte da verdadeira riqueza humana. Diferenças de cor, de sexo, de comportamento, de hábitos, de religião etc é que perfazem a nossa riqueza existencial. Infelizmente essa percepção é contrariada, também todos os dias, por forças muito maiores que as minhas e que insistem em tentar controlar as novas gerações, transformando-as em soldados de uma “originalidade cultural” inexistente. Os mais resistentes cedem, vítimas do “bullyng” dos próprios colegas ou daqueles que os deveriam proteger de tais práticas.

Uma percepção senso comum diria que estamos no meio de uma encruzilhada histórica entre desenvolvimento e atraso, conservadorismo e progresso. É uma percepção enganosa. No Brasil, o lugar da reflexão sociológica sempre foi esse. Levando-se em consideração que dos 500 anos de história recente, 400 foram de monarquia e os 100 anos que sobraram houve intermitência entre democracia e ditaduras, o paradoxo de lutar contra algo profundamente enraizado nas práticas sociais e cotidianas do nosso povo é até compreensível (embora não aceitável, se pensarmos nas crianças mortas dessa escola em Goiânia).

(*) Professor de Ciências Sociais no Instituto Federal do Amazonas (Campus Eirunepé).

Imagem em destaque: Trabalhadores, Tarsila do Amaral

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