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Cultura, política, ciência e espiritualidade são tema de debate na Primeira Conferência Indígena da Ayahuasca

Por Redação Juruá em Tempo. 18/12/2017 00:33 Atualizado em 18/12/2017 00:50
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Na mesa de debates, a ayahuasca está literalmente presente, na forma de dois filtros. O vidro translúcido permite ver o seu interior. Na ponta esquerda da mesa está o líquido cor de terra, o Nixi Pãe trazido pela comitiva Huni Kuin. Na ponta direita está um de tom mais escuro: é o Hêu servido pelos anfitriões do encontro, o povo puyanawa.

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José Luís Puwe serve o hêu (ayahuasca) para Biraci Jr Iskukuá durante a mesa que debateu os intercâmbios entre indígenas e não-indígenas através da ayahuasca

“Essa reflexão é para saber o que queremos deixar de herança e futuro para um povo”, resume José Luís Puwe, uma das lideranças espirituais do povo Puyanawa.

O encontro trouxe lideranças políticas e espirituais dos povos do Acre. Huni Kuin, Ashaninka, Yawanawá, Nuke Koi (katukina), Shawadawá, Kuntanawa, Jaminawa e Shanenawa, além dos anfitriões Puyanawa, debateram durante dois dias sobre o uso da ayahuasca.

Camarampi para os ashaninka, nixi pãe para os huni kuin e uni para os Yawanawá – e mais uma dezena de nomes tão diversos quanto os povos que habitam a floresta amazônica – são usados para designar a mesma bebida, universalmente conhecida pelo seu nome Kíchwa: a ayahuasca. É ainda o Daime e o Vegetal ou Hoasca para as religiões ayahuasqueiras brasileiras.

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A ideia de promover um encontro indígena da ayahuasca ganhou força ao final da Segunda Conferência Mundial da Ayahuasca – a Aya, realizada em Rio Branco-AC em 2016. A primeira edição da Aya aconteceu em Ibiza, na Espanha, em 2014.

Longe da sua origem amazônica, do outro lado do Oceano Atlântico e separada por milênios de conhecimento dos povos originários, não foi difícil que a ayahuasca debatida por pesquisadores na antiga metrópole da América soasse como mais uma etapa do secular colonialismo.

Talvez por essa razão seus organizadores tenham decidido trazê-la, em 2016 para Rio Branco, berço das chamadas religiões ayahuasqueiras, um fenômeno típico da Amazônia brasileira que urbanizou o uso da bebida nas grandes cidades e facilitou a sua entrada nos EUA e Europa.

Mesmo no seio da floresta, a participação indígena na Aya Conference foi exígua. “Nos deram cinco minutos para falar sobre a importância da ayahuasca para nosso povo”, disse – já na conferência indígena da ayahuasca – Biraci Jr Iskukuá – jovem aprendiz das tradições espirituais do povo Yawanawá. A insatisfação dos indígenas com relação à sua pequena participação e decisão nos caminhos tomados pela internacionalização da bebida ancestral, foi materializada na forma de uma carta*, amplamente divulgada pelos meios de comunicação.

Os debates, até então conduzido por pesquisadores e cientistas, foi preenchido pelas vozes de pajés e aprendizes de diferentes povos e gerações. A ayahuasca na mesa é sobretudo um recado: para falar da ayahuasca é preciso comungá-la: uma clara recusa ao paradigma do saber científico ocidental, e uma reafirmação dos valores dos saberes tradicionais dos povos originários. A ayahuasca aqui não é objeto de estudo e sim, sujeito de saberes; uma professora.

Para ler mais sobre o que foi debatido nas mesas durante o encontro, clique aqui

 

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