O Juruá Em Tempo

“Quem apoia o Temer está contra o desenvolvimento e o povo brasileiro”

Jorge Viana anuncia candidatura à reeleição, cobra coerência dos aliados do presidente e diz que eles não estão preparados para governar o Acre

Tião Maia – As prisões de ex-ministros e de ex-deputados, inclusive de ex-presidentes da Câmara Federal, gente do entorno do presidente Michel Temer, deveriam chocar o Brasil. O encontro de malas em Salvador, na Bahia, num apartamento em cujas chaves foram encontradas as digitais do ex-ministro Gedel Viera Lima, com mais de R$ 51 milhões escondidos, razão pela qual o homem de confiança do presidente foi parar na cadeia com a cabeça raspada, como um criminoso comum, também deveria chocar mais o Brasil. No entanto, “não choca porque é no governo Temer”.

A opinião acima é extraída de uma entrevista com o senador Jorge Viana (PT) durante uma visita que ele fez à redação do Página 20, esta semana. Ficar frente a frente com o parlamentar que há sete anos é escolhido um dos cem homens mais importantes do Congresso Nacional, os chamados “cabeças do Congresso”, e não inquiri-lo sobre esses e outros assuntos da política nacional e local seria no mínimo omissão. E Jorge Viana, como se sabe, não é de se furtar a falar.

Mesmo sem citar nomes, ele diz que os membros da oposição não se entendem porque “ali ninguém confia em ninguém” e lembrou que entre eles há demonstrações à sociedade de que no grupo não existe personagem com condições e equilíbrio para governar o Acre. É neste sentido, segundo o senador, que a candidatura do prefeito Marcus Alexandre ao governo do Estado em 2018 será o grande diferencial da eleição porque, na sua avaliação, ele se revelou um grande gestor e com uma enorme capacidade de trabalho, com humildade e dedicação à população.

Jorge Viana também cobra coerência dos que, em Brasília, apoiam o governo Temer e o desmonte que o presidente está fazendo em relação ao país e que aqui no Acre dizem que estão a favor da população. Na mesma entrevista, Jorge reafirma sua confiança na inocência do ex-presidente Lula e diz que ele, ainda que seja condenado no próximo dia 24, em Porto alegre, vai, sim, poder apresentar sua candidatura à presidência em agosto de 2018. “Uma candidatura só pode ser impugnada depois de ela ser apresentada”, resumiu. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O senhor vive a política por dentro no país. Está, portanto, apto a fazer uma análise aprofundada deste momento no país. Qual é a sua análise?

Jorge Viana – Nós temos atualmente o governo mais impopular do país desde a redemocratização. Nunca tivemos um governo tão impopular como este. Há quem diga que ele tem cinco por cento da opinião pública a favor, quando a regra seria uma leitura de que há 95% contra. Nunca tivemos uma crise que afetasse tanto a representação política, incluindo o parlamento, como agora, ferindo gravemente a democracia representativa, com baixíssima respeitabilidade junto à sociedade. Isso tudo aliado a uma crise econômica. Uma crise que começou ferindo de morte a democracia com o impeachment de uma presidente da República sem crime de responsabilidade, que levou para o Palácio do Planalto, para o centro do poder do país, figuras como o Gedel Viera Lima, como o Eduardo Cunha e mais outros que o presidente, por força das prisões, teve que demitir.

Então, na sua avaliação, qual seria a saída?

Num ambiente desses, sinceramente, eu não vejo melhoras. Vejo muitas incertezas. Vemos, também, essa verdadeira caçada contra o único líder que pode de algum jeito pacificar o país, que é o Lula. Setores do Judiciário – e é bom que a gente não generalize, porque é bom que respeitemos o Judiciário, a Polícia Federal, o Ministério Público – participam desta caçada e têm uma certa conivência pelo menos em uma tese fantasiosa de que o Lula é um criminoso.

Então, que caminho a seguir?

Eu acho que qualquer melhora para o país só depois das eleições. Só com a retomada da participação da sociedade de novo, que foi desrespeitada no caso da presidente Dilma. É uma oportunidade que nós temos de enfrentar esse ódio e essa intolerância não com menos democracia, mas sempre com mais democracia.

O senhor acha que Lula será condenado ou não dia 24 em Porto Alegre?

Vivemos um jogo de cartas marcadas, que começou lá atrás quando a Dilma não pôde nomear o Lula como seu ministro, que começou com a condução absolutamente ilegal do presidente Lula, que se materializou no impeachment e se materializa ainda mais agora no governo Temer. E o Lula, que querem vender como um problema, é a única solução para todos esses problemas que o Brasil tem. E a população brasileira, que é inteligente, sabe disso e o coloca em primeiro lugar em qualquer pesquisa. Por que então estão tentando impedir a candidatura dele? Eu defendo que, caso ele venha seguir com a candidatura – que é o que a gente espera – e venha a ser aleito, ele adote o espírito do Mandela, na África do Sul, que é de pacificação do país. Ele é o único que pode de fato pacificar o país.

O senhor acha que, mesmo condenado, ele poderia ser candidato?

Legalmente, eles podem condenar o Lula em tudo que é instância, mas ele poderá apresentar a candidatura dele até 15 de agosto, que o calendário eleitoral permite. A lógica é que só se pode impugnar uma candidatura depois que ela é apresentada. A partir daí, tem impugnação, mas tem recursos também. E aí o Lula pode viver uma situação esdrúxula: um presidente eleito e setores do Judiciário e do Ministério Público querendo cassá-lo…

O senhor acha que a Frente Popular chegará ao sexto mandato consecutivo com a candidatura ao governo do prefeito Marcus Alexandre?

O governador Tião Viana viveu, em seus dois mandatos, algo muito inusitado. Eu apontaria no mínimo uns oito ou nove elementos gravíssimos que seu governo enfrentou, alguns aqui ou outros de repercussão nacional. Vamos lá: o processo de impeachment da presidente, uma crise econômica sem precedentes com o desemprego; o governo Temer tirando dinheiro com a PEC do limite dos gastos públicos; desmontando todos os programas federais que havia. Em nível local, tivemos aquele problema dos haitianos, das enchentes do rio Madeira e da interdição da estrada de acesso ao Acre, as alagações locais e também essa situação da violência que explodiu no Brasil e com sérios reflexos no Acre. Então, veja a dificuldade do governador. Eu digo que ainda bem que é ele que está à frente do Executivo acreano, porque sabemos que estados ricos estão falidos. Quando analisamos a liquidez, a saúde financeira dos estados, vemos que estão falidos o Rio Grande do Sul, um dos mais tradicionais estados do Brasil, Goiás, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Estados do Brasil que não conseguem, ao contrário do Acre, pagar minimamente seu pessoal e honrar seus compromissos. E o prefeito Marcus Alexandre, graças à parceria com o governador Tião Viana, conseguiu fazer um excelente trabalho que o permitiu ser reeleito e graças a seu trabalho se qualificou como pré-candidato ao governo.

O senhor tem sido um ferrenho opositor da proposta de reforma da Previdência do governo Temer. Por quê?

O governo Temer estabeleceu como propósito – e ele tem feito, com seus apoiadores, desdém da população – o seguinte: aproveita a sua impopularidade para fazer o mal que tem que ser feito. Parece que este é um governo do mal. E assim eles se prestam a fazer a má política e a má política não faz nada de bom, só destrói tudo. O que constrói – e eu cito como exemplo as mudanças que fizemos aqui no Acre, e no Brasil, com os governos Lula e Dilma – só é possível com a boa política. Eu acho que a ideologia que está por trás deste governo é de um modelo de estado terrível. Nem os Estados Unidos fazem isso. Qual é hoje o país que mais cresce e que virou referência no mundo? É o que representa um Estado fraco ou o estado forte? É o que representa o Estado forte. É a China, que é excessivamente forte, que até abusa da força do Estado. Enquanto isso, o governo faz o Brasil ficar absolutamente fragilizado, que não tem responsabilidade social, que não tem patrimônio, que vende e dilapida tudo o que temos, que desmonta a estrutura do Estado num país que ainda está longe de ter justiça social. As reformas que eles estão propondo e fazendo não é para o bem da sociedade. É para atender os interesses da elite. O que eles estão fazendo na Petrobrás é um ato criminoso. Estão dando uma isenção de R$ 1 trilhão para cinco grandes petrolíferas, entregando o pré-sal. Há quem nem acredita que no Brasil haja pré-esal. E foi o Lula que descobriu e implantou o pré-sal e hoje nós estamos quebrando recorde de produção: 2,2 milhões de barris por dia! 1,2 milhões vem do pré-sal, que é resultado do governo do presidente Lula e da presidente Dilma.

Qual o real motivo desta desmoralização do Congresso Nacional?

O Congresso está desmoralizado hoje porque é conivente com o governo Temer. Ele não perde uma dentro do Congresso. Eu não sei como é que determinados políticos daqui, que são obedientes ao governo Temer, vão conseguir se explicar diante da população. Lá em Brasília, eles votam tudo com o Temer, para prejudicar o país e o nosso povo, e aqui dizem que defendem a população. Aliás, há um político aí – e eu não quero ficar citando nomes – que veio a público dizendo que foi eleito o melhor parlamentar numa pesquisa. O pessoal que trabalha comigo foi olhar a pesquisa sobre quem foi eleito o melhor parlamentar do Acre e lá o critério de escolha da pesquisa perguntava quem era – Estado por Estado – o político mais conivente e mais colaborador com as políticas do governo Temer. O critério de avaliação que mais projetava o parlamentar do Acre era esse. Aí, é claro que eu não estarei no topo desta pesquisa. Com um critério desses, eu faço questão de estar fora, porque quem apoia o Temer está contra o povo, contra as pessoas, contra o que é direito, está contra o Brasil, está contra o desenvolvimento.

O senhor é candidato à reeleição?

Vivo uma situação em que legalmente eu só posso disputar a reeleição para o Senado. Eu procurei me dedicar muito – quando fui prefeito e governador – a tudo o que fazia. No Senado não está sendo diferente. Eu tenho me dedicado muito às atividades de parlamentar no Senado. Vou lançar inclusive uma revista prestando contas do meu trabalho, de tudo o que fizemos porque é necessário termos que prestar contas das nossas atividades neste esforço de representar bem o Acre e de ajudar o Brasil. Como estamos vivendo uma crise política e econômica sem precedentes no país e que tem reflexos no Acre, eu acho que não posso me negar a ajudar. Então essa minha candidatura tem o sentido de tentar ajudar na eleição do Marcus Alexandre, na sucessão do Tião. Eu tenho muita esperança de que com o Marcus Alexandre no governo nós comecemos uma nova fase do nosso projeto, onde eu possa ter um jeito – não de mando – de colaborar mais com ideias. Eu quero ajudar mais e também ajudar o Brasil a sair desse atoleiro e dessa crise que a gente está vivendo. Essa candidatura ao Senado tem o propósito de, baseado em tudo aquilo que a gente já fez, fazermos muito mais ainda porque agora o Brasil está exigindo de cada um de nós aquilo que nós temos de melhor e eu não posso me negar a ajudar numa hora dessas o meu país e o meu Estado.

Estamos caminhando, ao que parece, para uma eleição ao governo absolutamente polarizada entre a Frente Popular e os partidos de oposição, que, aliás, em sua absoluta maioria, já foram também da Frente Popular.

O senhor acha que daria para navegar bem com a candidatura Marcus Alexandre dentro deste quadro?

Eu vou fazer minha campanha conversando com as pessoas e entendendo que o modelo político-partidário ele fracassou e está com sua validade vencida, o que exige a construção de um outro. Mas, se tivermos atitudes, a gente pode ser diferente: eu vou tentar fazer a campanha mais barata do Brasil e a campanha mais participativa do país, andando e com calma conversando com as pessoas tentando enfrentar essa onda de intolerância e do ódio com pacificação, tentando unir as pessoas. Aqui no Acre nós temos que também tentar pacificar. Já a oposição não se entende, não confia nela mesmo e seus membros vivem um ambiente de enfrentamento uns com os outros. Ora, se eles não conseguem se entender antes de estarem no governo, no poder então o prejuízo seria enorme para o Acre e todos nós. Mas eu não sou especialista em oposição. Aliás, penso que ninguém seria especialista neles porque não consegue nem entender esse pessoal. Lá tem gente qualificada? Tem! Tem gente honesta e boa na oposição? Tem! Mas tem também muita gente que dá todos os sinais de que não está nem um pouco preparada para governar o Acre.

O mundo da política vai obrigar a que se faça uma campanha diferente, o senhor concorda?

O Marcus Alexandre se revelou um grande gestor, fez um grande trabalho e eu estou animado, renovando minha fé e esperança de que ele chegando ao governo, a gente possa fazer pode fazer renascer aquele sonho de um Acre unido, coletivo, do trabalho e da simplicidade, acumulando assim aquilo que um dia já fomos. Na minha visão, acho que teríamos que dar um passo para trás, para trazermos de volta tudo funcionando, organizado e, ao mesmo tempo, darmos um passo no presente para vermos o esforço do governador Tião Viana em manter e avançar em tudo o que nós fizemos. Isso é buscar dar um passo para o futuro, para fazer coisas novas na economia, na sociedade de um Acre de uma população de 800 mil pessoas, para sermos o primeiro estado do país a sairmos desta crise. Quando eu olho, por exemplo, para a Rede de Supermercados Araújo, fico muito orgulhoso. Primeiro, pelo trabalho deles. São pessoas muito trabalhadoras, que vieram lá de Manuel Urbano, pobres, e que venceram. Mas venceram em que período? Venceram com o trabalho deles, num momento em que houve crescimento econômico no Brasil, que teve melhoria de renda para as pessoas aqui no Acre. O Araújo está lá em Rondônia, competindo, disputando mercado e orgulhando a gente aqui do Acre. Isso é o que eu quero que volte para o Acre e que surjam outros grupos econômicos no Acre. Nós temos que ter fé nisso. Agora, a política, da maneira que ela está sendo conduzida no país, com a materialidade daquilo que eu chamo de política má, que não faz as coisas para o coletivo e é uma coisa individual, com tanta gente sendo presa – imagine, um dos chefes do Palácio do Planalto sendo preso porque tinha 52 milhões de reais em malas trancadas num apartamento. Isso parece normal porque é no governo Temer e o pessoal daqui que apoia o Temer lá em Brasília não diz nada sobre isso e fica tentando colocar para o Lula como crime um apartamento que ele não tem. Aliás, uma juíza de Brasília penhorou o apartamento para pagar dívidas da OAS, a empresa que é dona do imóvel. Então, essa contradição que o Brasil está vivendo é terrível. Nós temos que superar isso.

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