Por Leandro Altheman
O povo começou a chegar mesmo antes das cinco horas da tarde, horário marcado para o evento, na Praça Santos Andrade, local do prédio histórico da UFPR. Bandeiras multicoloridas representando os diversos segmentos, movimentos sociais, partidos e centrais sindicais se agitavam ao som de tambores do movimento negro. O rosa das feministas se juntou ao amarelo dos sindicatos, ao arco-íris LGBT e ao quase onipresente vermelho dos partidos de esquerda. Grupos de rap se revezaram no ‘esquenta’ entre os presentes, um público em verdade bastante heterogêneo. Jovens que irão votar pela primeira vez estavam ao lado de homens e mulheres que viveram sob o peso da ditadura. A estimativa dos organizadores é de que o público tenha alcançado cerca de 20 mil presentes.
O centro de Curitiba já havia amanhecido agitado. Um forte aparato policial foi mobilizado para evitar um possível confronto dos manifestantes pró-Bolsonaro, que discursou na mesma noite na capital paranaense. O risco era alto se levado em conta o histórico de ataques sofridos pela caravana: ovos, pedras e tiros. O contingente, contudo, foi suficiente para manter os bolsonaristas afastados do evento de Lula. No fim, as provocações foram mínimas: alguns rojões, e uma panela solitária batendo ao fundo.
Uma chuva fria e insistente testou os presentes ao limite por horas a fio. Diversos apoiadores se revezaram no microfone aguardando a chegada de Lula. Em sua maioria, políticos da esquerda, PT, PCdoB, PSB e PSOL, além é claro, de Roberto Requião do MDB, mas também representantes dos movimentos sindicais, petroleiros e metalúrgicos.
Uma apresentação de crianças do MST trouxe a bandeira do Brasil ao palco, preparando a entrada de Lula.
Manuela D’Ávila, pré-candidata do PCdoB, foi aplaudida com bastante entusiasmo. Manuela reforçou a ideia de que existem divergências entres as posições do PT e do PCdoB, mas que estas, não são maiores do que a necessidade de uma aliança maior contra o crescimento do fascismo no país.
“Somos aqui três pré-candidatos. Mas não podemos jamais nos dividir naquilo que é central. Defender o direito de Lula ser candidato e a soberania de que o povo escolha o próximo presidente não é tarefa apenas para petistas ou lulistas, mas é tarefa para aqueles que defendem a democracia. Assistimos nos últimos dias, agressões que começaram com relho, depois ovos, pedras e agora tiros. É dessa forma que eles querem buscar saída para a crise no Brasil. Mas nossas ideias são a prova das balas. Juntos venceremos o fascismo e o ódio. Temos a verdadeira bandeira do Brasil conosco e devolveremos o Brasil ao seu grande destino.”
Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL, nomeou Jair Bolsonaro como responsável pelas agressões e pela escalada de violência que culminou com os disparos efetuados contra um ônibus da caravana. “Não sabemos quem apertou o gatilho, mas sabemos quem de fato apertou. É quem está semeando esse ódio. Temos que responsabilizar o sr. Jair Bolsonaro por isso. Ele é quem tem semeado essa onda fascista no país”.
Boulos também lembrou do assassinato de Marielle Franco, até o momento sem elucidação.
Já com a palavra, Lula chamou ao palco a líder quilombola Isabela da Cruz. Ainda que desconhecida do grande público, Isabela teve seu discurso fortemente ovacionado ao pedir que Lula se lembre dos indígenas, quilombolas, ribeirinhos. “A gente também erra e também acerta, a gente também faz acordo em nome do nosso povo, então quando tiver que negociar ‘com aqueles lá’ que não nos representam, lembra do povo que te defende’.
Lula lembrou os principais atos de agressão contra a caravana, que teve início com bloqueio às estradas, chuvas de ovos, pedradas e tiros contra ônibus. Pelo menos quatro militantes foram agredidos gravemente, sendo necessário hospitalizações. Foi bastante aplaudido ao citar o episódio de atentado à autonomia universitária cometido pelo MP gaúcho contra a UNIPampa que expediu medida contra a realização do evento.
As universidades visitadas pela caravana, Unipampa e Unasul foram criadas durante o seu governo. Lula responsabilizou a imprensa, com destaque à Rede Globo, pela onda de ódio no país.
“Não tenho nada contra a Lava Jato, eu tenho contra a mentira”
O ex-presidente reafirmou sua inocência no caso do Triplex, o que qualificou como uma condenação sem provas. Para Lula, a raiz do golpe parlamentar e da perseguição jurídica à sua candidatura está no desmonte das conquistas que o país obteve no cenário internacional, seu papel aglutinador na América Latina, e o pré-sal, mas também a ascensão social das classes menos favorecidas e grupos minoritários. “Eu não sei que político roubou, só sei que se eles estão acostumados a lidar com esse tipo de gente, eles encontraram alguém que tem caráter. Eles que mostrem o crime.”
Lula fez ao menos duas promessas: a de realizar um referendo revogatório às medidas do governo Temer e de federalizar o Ensino Médio e encerrou seu discurso com a ideia de que mesmo sua prisão, não o eliminaria de cena: “eu não sou o problema desse país. Lula é apenas um ser humano de carne e osso. O que eles não sabem é que já tem milhões e milhões de brasileiros que pensam como o Lula. Somos uma ideia. Não conseguirão prender as ideias e os sonhos”
Fotos: Página de divulgação oficial da caravana – Ricardo Stucker

