Talvez seja difícil colocar em poucas palavras, o extenso significado do anúncio pomposo de uma faculdade particular de medicina em Cruzeiro do Sul.
Primeiro, é preciso que se diga, o que há de farsa em dar um caráter pretensamente oficial ao anúncio através da vinda de um ministro de estado. Ou seja, o governo federal pleiteia para si mesmo parte do dividendo político de uma mérito que caberá totalmente à iniciativa privada.
Mas, infelizmente para todos nós, não se trata apenas de, como diria o adágio popular: ‘fazer mesura com o chapéu alheio’. É um pouco pior do que isso.
Carente de legitimidade política, Temer repete agora mesma lógica que já vem aplicando em outros setores. Trata-se sobretudo de uma ‘auto sabotagem’ com vistas e favorecer a penetração da iniciativa privada em setores da vida pública.
Como no caso recente da Eletrobrás, em que o governo pagou publicidade contra si mesmo para tornar palatável a sua privatização. Neste episódio, é a UFAC que recebe o golpe.
Desde 2011 um grupo de profissionais da UFAC estuda a viabilização para a implantação de uma faculdade de medicina no Campus Floresta em Cruzeiro do Sul.
O professor Marcelo Siqueira fez parte dessa comissão e conhece bem os detalhes do esforço mútuo de professores da UFAC, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Acre e do Governo do Estado para atender às exigências técnicas para a implantação do curso, que, diferente da proposta privada, seria gratuito.
As negociações das parcerias, entre UFAC, Fundação de Amparo à Pesquisa e Governo do estado foram lideradas pelo Prof. Dr. Pascoal Torres Muniz e a participação política do governador Tião Viana e dos, à época, senador Aníbal Diniz e deputado federal Henrique Afonso.
O mesmo MEC representado hoje pelo ministro Rosselli que vem a Cruzeiro do Sul anunciar uma faculdade privada, fez exigências à época, de formação em nível de mestrado e doutorado para médicos e demais profissionais da saúde na região.
A fim de atender a tais exigências foi estabelecida uma parceria com a Faculdade de Medicina do ABC na formação de professores para o corpo docente do curso de medicina na UFAC.
Nesse sentido, cumpre destacar o empenho pessoal do governador, não por acaso médico, Tião Viana na viabilização das parcerias para formação do corpo docente. Se o curso de medicina da UFAC em Rio Branco é hoje uma realidade, isso deve-se ao esforço conjugado de governador Tião Viana, desde quando ainda era senador, e da própria instituição UFAC.
A gestão da UFAC também vem cumprindo o seu papel na viabilização do curso. Através do seu reitor Minoru Kinpara e da professora Guida Aquino ampliou substancialmente os programas de pós-graduação, criando as condições para o avanço protocolar da solicitação do curso.
Fato é que, a proposta do curso de medicina da UFAC já dispõe de parecer técnico de viabilidade. Significa dizer que não há nenhum impedimento para a implantação do curso, exceto a falta de vontade política do governo federal. O anúncio de liberação para o setor privado, traz apenas a confirmação de que não há, ao menos no atual governo, tal interesse.
É preciso que se diga a diferença fundamental entre um curso de medicina de uma universidade federal e um particular. O mais gritante deles é o preço da mensalidade, que já seleciona, através da renda, quem pode e quem não poderá cursá-lo. A estimativa é que um curso dessa natureza fique entre R$10 e 12 mil/ mês. É preciso lembrar que o mesmo governo federal extinguiu também os programas de financiamento educacional.
Como já falado do início do texto, o anuncio não é um ‘ponto fora da curva’ sobre a orientação política do atual governo federal: trata-se de manter uma precária governabilidade através da venda e concessão, baratas por sinal, de espaços duramente conquistados no setor público. O outro dado é que o loteamento, não beneficia, assim, como querem os liberais, a um ‘setor privado’ impessoal e regido pela livre concorrência. Mormente o que se tem são grupos políticos-familiares, representantes das mais diversas oligarquias que obtém as vantagens nas transações.
Talvez por isso, não por acaso que nos bastidores a suspeita seja de que um pré-candidato ao governo teria interesse em tornar-se sócio no empreendimento. Basta fazer os cálculos de quem teria dinheiro, e interesse em investir em um curso de medicina no Juruá.
É essa a lógica do atual governo federal.

