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EDITORIAL: Rede Globo faz jornalismo canalha contra o povo do Acre

Na sua mais recente ação de desserviço ao bom e ético jornalismo, a Rede Globo, através do programa “Fantástico”, voltou à carga em relação ao Acre, no último domingo à noite. Numa segunda reportagem longa, maldosa, maledicente, que não presta serviço algum à sociedade, com imagens fortes, mas pobre em dados e informações corretas, o jornalismo da emissora voltou a enfocar o Acre e a guerra entre facções, que de fato já resultou em muitas mortes, principalmente de jovens das periferias das cidades acreanas, tanto na capital como no interior, como é o caso de Cruzeiro do Sul.

O maior destaque da reportagem, além dos gráficos mostrando o aumento dos crimes de homicídio, foi a revelação de que, dentro da penitenciária “Francisco D Oliveira Conde”, a principal do Estado, instalada na Capital, os membros das principais facções em atuação no Acre, “O Comando Vermelho”, originária do Rio de Janeiro, e a versão local do PCC (Primeiro Comando da Capital), de São Paulo, só se suportam porque vivem divididos por um muro de cimento armado com mais de dez metros de altura. A matéria não situou o Acre no contexto real do problema, que é originário, sobretudo, da falta de responsabilidade da União – governo federal – no cumprimento de suas obrigações, que é o policiamento das nossas fronteiras, por onde o tráfico literalmente passeia sem sofrer grandes incômodos num negócio cada vez mais lucrativo e que funciona como chamariz para a juventude pobre e desocupada que é recrutada por esse sistema brutal sob a falsa promessa de dinheiro e vida fáceis.

O jornalismo da principal emissora de TV do país efetivamente prestaria um bom serviço aos seus telespectadores se não escondesse isso e o que de fato está por trás de seu insistente noticiário sobre o tema. A propósito, o governo do Estado nunca escondeu de ninguém, muito menos da Globo, suas dificuldades para combater uma onda de violência e de crimes cada vez mais crescentes. É com base nos dados do próprio Governo que a Globo alardeia que o Acre lidera o “ranking” da violência no país, sem mostrar que o “Comando Vermelho” e o PCC foram gestados e nasceram sob suas vistas, tanto no Rio como em São Paulo, no chamado sul maravilha, onde a Rede Globo exerce forte influência sobre a sociedade e em estados onde o PSDB e o PMDB mandam há décadas. Trata-se, portanto, de um problema nascido nesses estados e que hoje atinge o Brasil inteiro como um câncer e que se espalhou como metástase por praticamente todos os estados e chegou a regiões como a Amazônia, graças às fronteiras abertas e sem o policiamento adequado, já que a responsabilidade disso, de acordo com a Constituição Federal, é do Governo Federal, através do Exército e de outras estruturas das Forças Armadas. Colocar sobre os ombros do Governo de estados pobres como é o caso do Acre a responsabilidade constitucional de policiar fronteiras é um crime do governo federal tão brutal quanto a guerra de facções.

Facções e execuções sumárias a mando dos chamados tribunais do crime, que funcionam dentro e fora das cadeias, não são, portanto, primazias do Acre, e sim uma espécie de câncer que se espalhou pelo país inteiro, com o recrutamento de jovens pobres e desajustados que se tornam soldados-bandidos do que a sociedade brasileira produziu de pior nas últimas décadas. Mas isso a Globo não mostra.

Como não mostra também que, por trás do noticiário, há uma clara tentativa de vincular o candidato ao Governo da Frente Popular, Marcus Alexandre, a essa brutalidade. É que os estrategistas da emissora já perceberam que é no Acre onde o PT detém a experiência administrativa mais longeva da história da agremiação no país e onde tem amplas chances de vir a conquistar mais um mandato. O Acre é o local no qual seus analistas devem quebrar a cara ao anunciarem, como cavaleiros do apocalipse, que o petismo acabou. Marcus Alexandre, que representa um PT novo e refundado, sinaliza, dentro e fora do Acre, que é um gestor público que tem coragem de debater o problema e enfrentá-lo – tanto é que seu provável companheiro de chapa, Emylson Farias, é um delegado de polícia que foi secretário de Segurança do Estado e que implantou um sistema que é o que mais prende no país e que também é o que apresenta o maior índice de resolução de crimes, principalmente aqueles contra a vida.

Mas isso a Globo também não mostra. Não mostrou também que, apesar de todas as dificuldades vivenciadas pelo Governo do Estado, inclusive com a não-liberação de recursos para a área da segurança pública, houve, ao longo do surgimento do fenômeno das facções, uma reação dura, eficaz e competente do sistema de segurança pública acreano. Num primeiro momento, a partir de 2015, o sistema de segurança local, com alguma ajuda de forças de segurança federal, sufocou os primeiros ataques dos soldados do crime e em seguida passou a atuar de forma ainda mais forte para a redução dos índices de criminalidade.

A “reportagem” também omitiu tudo o que o governo acreano fez até aqui em relação ao problema. Até mesmo a informação de que os bandidos que aparecem nas primeiras imagens anunciando a “reportagem” na grade de programação da emissora foram praticamente todos identificados e presos assim que o primeiro programa foi ao ar. A emissora também escondeu dos seus telespectadores que o governo acreano age todos os dias, dentro dos presídios e também nas ruas, para combater o problema e que essas ações vêm dando resultados e que, a despeito do pouco caso que faz o governo de Michel Temer em relação ao problema, os índices deste tipo de crime estão em curva descendente.

Enfim, a emissora da família Marinho, que viu este tipo de crime florescer sob seu nariz e que nunca se preocupou com o que acontecia a sua porta, no Rio de Janeiro e em São Paulo, agora quer usar o Acre como referência da sua flagrante falta de respeito à inteligência dos seus próprios telespectadores. O Acre, que tantas dificuldades soube enfrentar ao longo de sua história, saberá vencer mais uma vez. Oxalá.

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