Senador denunciou que seu avião sofreu “atentado” em Tarauacá por parte de petistas mas não apresentou provas de que o caso não passou de mais um factóide
Acabou em BO (Boletim de Ocorrência) na Delegacia de Polícia Civil em Tarauacá a denúncia do senador Gladson Cameli (PP-AC) e de sua assessoria de que o avião em que ele viajava, na semana passada, teria sofrido um “atentado terrorista” enquanto esteve taxiado no aeroporto do município. Na denúncia que fez nos sites de notícias e outros veículos simpáticos a sua pré-candidatura ao Governo do Estado, além de mostrar fotografias com marcas de solado de sapato na fuselagem do avião, o senador disse que o “atentado” havia sido perpetrado por militantes do PT (Partido dos Trabalhadores) contrários a ele. Com a entrada da polícia no caso, o senador vai ter que provar que suas denúncias não foram apenas mais uma de suas estratégias para aparecer na mídia como vítima.

Na queixa apresentada ao delegado José Obetânio dos Santos, da Delegacia Geral de Polícia de Tarauacá, o presidente do PT no município, José Tadeu Viana Moreira, além de denunciar o senador por injúria, difamação e calúnia ao Partido e a seus militantes de Tarauacá, o dirigente pediu uma rigorosa investigação, inclusive com a participação do Ministério Público, para que sejam identificadas e punidas as pessoas que teriam subido na fuselagem do avião do parlamentar. O avião seria um bimotor do tipo “Baron”, de propriedade particular do senador, avaliado em pelo menos R$ 2 milhões.
O dirigente petista disse suspeitar de que a denúncia do senador está relacionada à falta de propostas com as quais ele deve se contrapor ao plano de governo de seu principal opositor, o pré-candidato da Frente Popular do Acre (FPA) ao Governo Marcus Alexandre, que vem construindo suas propostas a partir de andanças por todo o Estado. “Como não consegue se contrapor às propostas do Marcus Alexandre, o senador e sua assessoria apelam para essas baixarias. Esse negócio do atentado foi mais um factóide do senador”, disse o dirigente petista em Tarauacá. “Eu tenho certeza de que isso não passou de armação”, acrescentou.
José Francisco da Costa, funcionário do Deracre (Departamento de Estradas e Rodagens do Acre), autarquia estadual responsável pelo aeródromo de Tarauacá e de outros municípios do interior, disse ter visto o senador e sua comitiva desembarcar e, no dia seguinte, embarcar de volta a Rio Branco. Segundo ele, Gladson Cameli e seu séquito de assessores chegaram ao aeroporto para reembarcarem no avião e, a princípio, não fizeram qualquer referência ao “atentado”.
“Só vim saber das denúncias do senador depois que eles levantaram vôo”, disse José Francisco. Para ele, o que deve ter ocorrido, na noite em que o avião permaneceu no aeroporto, é que jovens do município, aproveitando da fragilidade da segurança do local (que é apenas cercado por uma cerca de arames quase caindo) tenham se aproximado do avião “para fazer sexo”. Os jovens, segundo Francisco, por falta de motéis na cidade ou mesmo por pura fantasia sexual, usam a pista do aeroporto e até mesmo os aviões para as suas relações.
As fanfarronices do menino senador lembra o personagem “Pinóquio”
Políticos de Tarauacá, ao saberem das denúncias de atentado ao avião, vieram a público para observarem que, se houve o fato, inclusive com o apedrejamento da aeronave, isso se relaciona a questões como o desgaste que sofre o senador junto à população do município. Isso vem desde a época em que Gladson Cameli era deputado federal, quando ele estabeleceu uma relação de profundo desgaste com a população taracauense. Ele apoiou e foi apoiado por Vando Torquato, um dos prefeitos mais impopulares e corruptos da história do município, segundo os órgãos de controle.
É neste período que surge, na figura do senador, a materialização de uma das suas mais antipáticas facetas – a fama de mentiroso. Em Tarauacá, as pessoas dizem que o senador é tão mentiroso que não sustenta em pé o que disse sentado e por isso a população local já lhe pespegou o apelido de “Pinóquio”, referência ao personagem clássico da literatura infantil conhecido em todo o mundo a partir do livro com suas histórias. O livro foi escrito pelo autor italiano Carlo Lorenzini, que viveu entre 1826 a 890. Na concepção do autor “Pinóquio” – que em italiano quer dizer “pinhão”, aquele que veio do pinho – é um boneco de madeira feito por um marceneiro chamado Gepeto, que fala, pensa e age como uma criança, como parece ser o caso do senador. E toda vez que inventa uma mentira, seu nariz cresce. “Pinóquio”, o personagem, erra o tempo inteiro durante sua trajetória, mas luta em seu interior para se endireitar e assim poder virar um menino de verdade.
Também é em Tarauacá que surge informações sobre as travessuras do menino senador. Rico, dono de seu próprio avião, ele difundiu informações de que, embora não tenha o Brevê ou brevete (do francês brevet), o documento que dá ao seu titular a permissão para pilotar aviões, tenha – por sua condição de senador – autorização para voar. Nesta condição, numa noite qualquer, ele teria feito uma série de vôo rasantes sobre Tarauacá, que viveu naquela noite um pandemônio. Como é sabido que a pista local não dispõe de iluminação para pousos e decolagens noturnas, muitos motoristas da cidade correram ao aeroporto para iluminar a pista com os faróis de seus carros. Quando descobriram que os vôos rasantes sobre a cidade não passaram de mais uma das brincadeiras sem graça do menino senador, muito motoristas ficaram com raiva e passaram a hostilizá-lo, inclusive nas redes sociais.
Durante as denúncias do “atentado” que disse ter sofrido, o senador – que se fazia acompanhar de assessores e jornalistas, sequer se permitiu fazer um registro fotográfico das marcas do caso. E o mais intrigante é que, diante de tão bárbara agressão, os passageiros do avião – o senador e seus assessores – não se permitiram sequer registrar um boletim de ocorrência na delegacia de Polícia da cidade ou na Polícia Federal, já que o senador, por esta condição, tem esse tipo de prerrogativa.
A notícia sobre o “atentado” teve apenas um lado e foi dada em primeira mão pelo site Contilnet, cujas proprietárias são as irmãs Wâmia e Silvânia Pinheiro, a primeira, assessora do pré-candidato ao Senado do MDB Márcio Bittar, aliado de Gladson, e a segunda a chefe de gabinete do senador. O que ficou patente no episódio é que o senador, para chamar a atenção para sua pré-campanha, passou a posar de vítima e por isso relacionou militantes do PT entre aqueles que teriam atentado contra seu avião, tentando tirar dividendos eleitorais sobre seu principal opositor, Marcus Alexandre, que está preocupado em montar seu plano de Governo a partir de contatos diretos com a população e a aceitação em relação ao nome do ex-prefeito de Rio Branco tem incomodado ao senador e a todos os que o cercam. A preocupação dos aliados de Alexandre é que, quando a campanha de fato começar, novos factóides e novas mentiras possam vir a ser criados.
Por Tião Maia – O Juruá em Tempo

