Ícone do site O Juruá Em Tempo

Não tem graça, feminicídio é coisa séria: ele não!

Há momentos em que não sei se os candidatos estão disputando as eleições ou se apresentando em um show de stand up comedy. Engraçado? Nenhum pouco! É trágico. Especialmente porque nesse de jogo gritos e blefes as políticas afirmativas estão indo para o ralo.

Na noite desta terça-feira, 2, os candidatos ao governo do Acre participaram de mais um debate. A proposta da sabatina é apresentar à população o plano de governo de cada concorrente, auxiliando os eleitores a tomar uma decisão consciente, afinal os próximos quatro anos de nossas vidas serão decididos no domingo. Mas o que vimos, infelizmente, foi uma arena de desinformação, ataques e piadas.

Eu poderia pontuar vários momentos, contudo, resolvi me ater ao tema que assombra as mulheres brasileiras: feminicídio. Apesar de possuir uma das legislações mais completas, o Brasil encontra-se entre os dez países com maior taxa de violência contra a mulher, ocupando a quinta posição no ranking do Mapa da Violência. Em média, doze mulheres são assassinadas diariamente.

Questionado sobre suas propostas para reverter a situação que também afeta o Acre, o candidato do PP, GladsonCameli afirmou que “é necessário criar a Central da Mulher empreendedora com cursos profissionalizantes”. Completou destacando que nós, mulheres, precisamos de oportunidades e que a Delegacia Especializada da Mulher (Deam) deve funcionar 24 horas.

É verdade, precisamos de mais oportunidades, mas para que possamos desfrutar delas, primeiro temos que nos manter vivas. E eu me pergunto como isso é possível se o presidente da República, Michel Temer, ao qual GladsonCameli compõe a base de governo, extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e Direitos Humanos?

Aproveito para informar o candidato que o que nos mata é o machismo, embutido numa cultura arcaica de que somos propriedade deles. Portanto, precisamos romper esse ciclo com educação, proteção e enfrentamento à violência doméstica. Somos assassinadas dentro dos nossos próprios lares, por aqueles que chamamos de amor.

Em Rio Branco, a Deam já funciona 24 horas, Gladson!Aliás, foi o presidente Lula que sancionou a Lei Maria da Penha – instrumento jurídico de proteção às mulheres, combate e prevenção à violência. Já a Lei do Feminicídio(crime de ódio baseado no gênero, amplamente definido como o assassinato de mulheres) foi Dilma Rousseff quem implementou no país, aquela presidente deposta pelo governo golpista que você apoia, lembra?

A total inexistência de mulheres nos Ministérios do governo transitório e de uma única mulher em uma pequena secretaria evidencia a divisão sexual do trabalho. E mesmo tendo impulsionado esse retrocesso, o candidato do PP no Acre promete criar “oportunidades”.

Quem não lembra da cena deprimente do então senador Gladson Cameli coagindo a senadora Gleisi Hoffmann em sessão no plenário?

A luz da verdade, nós acreanas também somos vítimas da cultura do machismo. Também entramos para as estatísticas, somos assassinadas, estupradas e subjugadas. Há muito o que avançar. Mas vale lembrar que foi no governo da Frente Popular, do PT, que ganhamos a Secretaria de Estado de Políticas para as Mulheres (SEPMulheres) com orçamento próprio. Foi na gestão de Marcus Alexandre que a Prefeitura de Rio Branco instituiu a Secretaria Adjunta de Mulheres, bem como a de Igualdade Racial, Esporte e Juventude.

Eleitora, domingo é só você e a urna. Mas as consequências de seu voto vão recair sobre a vida de todas as acreanas e acreanos. Um cara que vota a favor de congelamento de investimentos na educação (principal via de transformação da sociedade) não me representa! Que extingue direitos trabalhistas, não me representa! Que ojeriza mulheres em plena sessão do Senado, não me representa! Que não tem propostas consistes e não dialoga com o movimento de mulheres para criar políticas públicas, não me representa! Que não tem ideia do que se trata e como fará para reduzir a mortalidade infantil, não me representa! Que defende candidato com discurso de ódio e exclusão, não me representa. Que compõe um partido anti-indígena, não me representa!

Definitivamente, Gladson Cameli não me representa! Ele não! Gladson também não!

Maria Meirelles é jornalista e feminista

Sair da versão mobile