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Sobrevivente que perdeu marido em explosão no Hospital do Juruá diz que sonhou com acidente

“Deus me deu uma chance de viver e quero pensar que aquele momento era hora do Marcelo ir”. Assim que Maria Santos, de 41 anos, recebeu alta do Hospital do Juruá, nesta quinta-feira (17), ela relembrou o acidente, no último dia 4, que acabou matando o marido dela, Marcelo Silva, de 44 anos, e a deixou ferida.

Erisson Pinheiro Guedes, de 18 anos, também morreu. Ele e Silva faziam a manutenção em um compressor de ar-condicionado, quando houve uma explosão que matou os dois servidores do hospital e os estilhaços também atingiram Maria, que passou por cirurgia para a retirada dos estilhaços da clavícula, perna e para raspagem de queimaduras no braço e rosto.

Maria, que também trabalha na unidade como chefe do setor de Manutenção, estava no momento do acidente ao lado de Silva e lembra como tudo aconteceu. Ela revela que dias antes da tragédia chegou a ter um sonho em que os dois sofriam um acidente.

“Antes do Natal, tive um sonho em que Marcelo e eu sofríamos um acidente, mas quem morria era eu. Acordei chorando e não comentei com ele, mas passei dois dias impressionada com esse sonho, porque fiquei muito assustada. Os dias foram passando e fiquei despreocupada”, relembra, emocionada.

Erisson e Marcelo morreram após explosão em hospital no interior do Acre — Foto: Arquivo pessoal

O acidente

Ela foi ouvida pela polícia ainda no hospital enquanto esteve internada por 12 dias. Sobre o dia do acidente, Maria diz que lembra de tudo. Marcelo, segundo ela, manuseava um maçarico e teria ficado pouco tempo no depósito onde a explosão aconteceu. Ele e Erisson estavam lado a lado, já a funcionária estava a dois metros de distância.

“Só deu tempo dele chegar e montar o cenário do trabalho. Ficou um do lado do outro, não se passaram nem cinco minutos e a explosão aconteceu. O Marcelo caiu em cima da minha sapatilha e já vi que ele estava bastante ferido e agonizando”, recorda.

Em seguida, a chefe do setor diz que não sentiu que estava com queimaduras, mas percebia que o corpo havia esquentado bastante e começou a sentir que talvez suas pernas estivessem feridas.

“Era como se eu sentisse duas facas nas minhas pernas mas, na verdade, já eram os estilhaços. Minha preocupação era o Marcelo, consegui levantar e tirei os pés dele de cima de mim, e coloquei no lado. Naquele momento, entreguei ele a Deus e pedi que fizesse a sua vontade”, conta, entre lágrimas.

Mesmo na sala de cirurgia, Maria manteve os pensamentos no marido. Ela disse que chegou a ter esperanças de que ele conseguisse sobreviver. “Eu não esquecia dele um só momento. Achava que os médicos pudessem fazer alguma coisa, mesmo tendo visto que ele ficou muito machucado”, diz.

Maria fala ainda que Marcelo era experiente e que não é possível afirmar que ele errou ao manusear o maçarico. “Vai que esse compressor tinha algum furo ou substância que ele não viu e que acabou contribuindo para essa explosão. Não entendi o que houve, só posso falar do que vi”, destaca.

Recomeço

Ainda nos corredores do hospital, minutos após ter recebido alta, Maria tentava achar forças para recomeçar e continuar agora não mais ao lado do marido.

“Eu, fisicamente, estou bem, mas não sei como vai ficar meuo emocional quando chegar em casa. Mas, eu já venci, se fosse para eu ter ido ali, Deus tinha me levado. Vou tentar manter tudo que a gente construiu durante esses anos todos”, finaliza.

Por Mazinho Rogério e Tácita Muniz

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