As florestas, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), representam apenas 31,6% da área terrestre do mundo e apesar de essenciais à manutenção de diversos ecossistemas fundamentais para a sobrevivência de milhares de espécies (incluindo a humana), estas vêm apresentando uma diminuição progressiva e perigosa em razão das atividades de desmatamento e queimadas para fins de exploração comercial.
A destruição de extensas áreas florestais sustentada na promessa de desenvolvimento econômico e humano se mostrou desastrosa, por exemplo, na África, onde a exploração transformou o continente – berço da humanidade – numa vasta área árida e semiárida com indicadores sociais e humanos que quase sempre são sinônimos da palavra miséria. Recentemente países que já sofrem com a pobreza histórica resultante da exploração colonial como Mali, Niger, Chade e Sudão, estão assistindo o agravamento de sua situação social em razão do assoreamento dos mananciais (rios, lagoas e lagos) provocado pela destruição das áreas vegetais adjacentes.
Apesar de parecer óbvia a necessidade de desenvolvimento de mecanismos cada vez mais eficazes para impedir o avanço da destruição das áreas florestais no planeta, no Brasil, na contramão da realidade, vigora na base parlamentar do atual governo um esforço contrário a preservação e que, novamente pautado no velho discurso do “desenvolvimento econômico”, vislumbra retirar do Código Florestal o capítulo que trata da reserva legal obrigatória em propriedades rurais, o que acentuaria o desmatamento no território nacional, principalmente na Floresta Amazônica.
A promessa de desenvolvimento econômico é uma falácia conhecida, já que as áreas exploradas são utilizadas para atividade pastoril ou produção de commodities, ou seja, exploração de produtos que detém classificação de matéria-prima e que significativamente não geram empregos, pois são atividades geralmente mecanizadas e não aumentam arrecadação e investimento público local, já que por classificação comercial estão isentas de uma série de tributos.
O desejo de desmatar para lucrar em detrimento da realidade social vem sendo alertado pela ONU, que afirma que “o desflorestamento, causado principalmente pela conversão de florestas para agricultura e áreas de pecuária, ameaça não apenas a subsistência de silvicultores, comunidades florestais e povos indígenas, mas também a variedade da vida no nosso planeta. Mudanças no uso da terra resultam em perda de habitats valiosos, degradação do solo, erosão, diminuição da água limpa e liberação de carbono na atmosfera”.
A alteração na legislação brasileira representa a possibilidade de ocorrência de uma situação desastrosa para o Brasil e para o mundo. Essa visão pessimista de futuro se sustenta nos dados do relatório Bayer que indica que haverá aumento na demanda por água doce para uso agrícola, industrial e doméstico em até 50% em todo o mundo entre 2000 e 2030. Esse dado é alarmante, pois “apenas 3% da água disponível no mundo é doce, e a maioria está congelada em geleiras e nas calotas de gelo.” Apenas 0,5% do suprimento de água existente no mundo está disponível para uso, sendo que o desmatamento e a atividade mineral contribuem de modo avassalador para a ampliação da escassez.
Não bastasse o desejo de desmatar, o governo brasileiro vem cortando radicalmente os investimentos em ciência e tecnologia, cuja produção no país está centrada nas universidades públicas, algo que pode resultar na inexistência de soluções eficazes para conter os danos que a destruição ambiental já provocou no território nacional.
Desta forma, o Brasil vive o dilema de optar pelo desenvolvimento científico e tecnológico como forma de superar as dificuldades contemporâneas ao invés de seguir pelo caminho da exploração inconsequente dos recursos naturais que, além de destruir biomas, acabará por sua vez acentuando a concentração de renda e aumentando drasticamente a pobreza.
Prof. Marcelo Siqueira

