O Juruá Em Tempo

Osmir Neto completa 6 anos de prisão por acusações de estupros e exploração sexual

Apesar de uma pesada pena de 42 anos de cadeia, cruzeirense reafirma inocência, se diz vítima de uma trama da alta sociedade e espera conquistar a liberdade em breve com recursos junto ao STJ, em Brasília

O cruzeirense Osmir D’Albuquerque Lima Neto, aos 55 anos de idade, membro de tradicional família de políticos com origem no Vale do Juruá, está completando o sexto ano de prisão nas cadeias públicas do Acre, na Capital e no interior, por condenações por estupro de vulneráveis, exploração sexual para prostituição e corrupção de menores. Ao todo, 54 anos e de dez meses de prisão – pena aplicada pelo juiz da Vara da Infância e da Adolescência da Comarca de Rio Branco, Romário Divino de Farias, reduzida pelo Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Acre para 42 anos, mas, ainda assim, o condenado sonha com o sol da liberdade para breve.

Isso porque espera resultados favoráveis às apelações ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, através do advogado Jerônimo Barreiros, em pedidos de habeas corpus ou mesmo da anulação da sentença com base em pelo menos um dos três votos da Câmara Criminal, do desembargador Francisco Djalma, atual presidente do Tribunal de Justiça do Acre, onde o apelante perdeu de 2 a 1. Em seu voto, que acatou, em parte, o pedido mas foi vencido – Samuel Evangelista e Pedro Ranzi votaram totalmente contra os pedidos, Francisco Djalma questiona o peso da pena do juiz Romário Divino baseado em preceitos do próprio STJ em relação à contagem do tempo de condenação. Para cinco crimes com atos da mesma natureza, a pena é majorada para um terço e não dois terços, como estabeleceu o juiz, escreve o desembargador.

O produtor de moda e editor de revista da área, Osmir Neto, exibe um exemplar de sua pub licação

Mas a esperança do condenado de vir a ser solto em breve não estão relacionadas às filigranas do processo. “Eu sou totalmente inocente”, diz o ex-colunista social, fotógrafo, produtor cultural, cantor, compositor e empresário de moda – definitivamente um homem bem articulado, que sabe usar as palavras – inclusive latim, alemão, inglês e francês – como poucos, quando tenta defender-se. Atualmente preso na UP-4 (Unidade Prisional 4), a chamada “Papudinha”, em Rio Branco, cabelos quase todos embranquecidos, mais magro e queixando-se de diabetes, ele passa a maior parte do tempo na prisão, agarrado ao violão, ensinando acordes aos demais presos, ou escrevendo, principalmente, novas canções. “Estou cheio de músicas novas”, disse, esperançoso de que possa se apresentar, como fazia até ser preso, na próxima Expoacre, numa atividade lúdica e cultural do Iapen (Instituto de Administração Penitenciária), com presos de bom comportamento e que tenham ligações com cultura. “Vai ser bom o reencontro com a música e com os palcos. Fiquei muito triste porque, desde que fui preso, as rádios deixaram de tocar minhas músicas. Até a Rádio Aldeia, que é do governo, não toca mais minhas músicas, só para que os locutores não tenham que falar meu nome. Nem mesmo em Cruzeiro do Sul, onde nasci e fiz uma música em homenagem à cidade, não tocam mais o que gravei, por puro preconceito”, disse Osmir Neto, numa conversa com o repórter no dia em que completava exatos seis anos de cadeia, dia 3 de julho (quarta-feira).

A direção da UP-4, onde o músico está preso depois de ter vindo da Unidade Penitenciária do Quinari, em Senador Guiomard, permitiu o acesso do jornalista a ele mas não liberou gravações ou fotografias com o condenado. No entanto, Neto entregou uma vasta correspondência ao repórter na qual não só reafirma a esperança de vir a ter seu processo anulado como reafirma a inocência e aponta as razões pelas quais foi perseguido, preso e condenado. “Este imbróglio todo iniciou-se por ação persecutória da polícia – obviamente movida por ordem superior, a qual congemino pela torpeza do caráter, tramada pela inveja usando como lastro covarde o evento pretérito do Rio, o fato de eu já ter sido preso, desconsiderando minha absolvição dada pelo STJ sobre as duas menores”, escreve. “A quem ou a que interessava esse afã tiere (zelo animal) da polícia em me prender? Talvez tenha sido um erro eu ter voltado ao Acre, terra de muros baixos, pois aqui sofri preconceitos explícitos do higt society (do inglês, alta sociedade) acreano, de novos-ricos, parvenus (expressão em francês que define pessoa que atingiu súbita ou recentemente riqueza e/ou posição social de proeminência, sem no entanto ter adquirido os modos convencionais adequados), rastaqueras e quejandos de narizes empinados que acham que ser é chique é se ornar de pechisbeques (do inglês, substantivo masculino que define liga metálica – cobre e zinco – que se assemelha ao ouro, coisa de pouco ou nenhum valor) da Rommanel ou Gold Skill, mas ignoram uma Harry Winstonb ou uma Tifannys”, escreve.

O Acre, por isso mesmo, segundo o que o condenado escreve, é um lugar de gente proterva (descarada, desavergonhada) “que acha que reloginhos doirados do Michael Kors é o denier cri (do francês, moda mais recente, último lançamento) ou ter na adega três ou quatro marcas de vinho chileno é sinal de refinamento, quando não sabem diferenciá-lo nem de um vermute”, diz.

Foi esta mesma sociedade que, segundo Neto, tanto o condenou. “Sofri também preconceitos nefastos, velados, tão covardes como aqueles de pé de orelha, murmurados, ou aqueles em que o desdenhoso olhar entrega”, disse. Ou casos velados em que um então secretário de Estado se recusou a sentar-se à mesa em que o então colunista social estava sob alegação de que não juntar-se-ia a um ex-presidiário, numa clara referência à prisão do então cantor de sucessos em Belém (PA), por acusações de crimes de natureza sexual ocorridos no Rio de Janeiro, na década de 1990. Por esta acusação, envolvendo estupro de duas menores, Osmir Neto cumpriu oito anos de prisão e foi colocado em liberdade por ter sido considerado inocente no caso dos estupros das menores e foi posteriormente acusado de um terceiro estupro, de uma mulher adulta, mas a acusação não prosperou porque ela fez a acusação após quatro anos dos fatos, ao saber que o acusado houvera ter sido preso no Pará e transferido para o Rio de Janeiro.

 

Uma vida de luxo, luzes, câmera, ação, bebedeiras, sexo, belas mulheres e…. cadeia

 

O caso do Rio de Janeiro guarda semelhanças com o que ocorreu no Acre. Como sempre, tudo relacionado à belas mulheres e fotografias. De volta ao Acre, após ser inocentado pelo caso no Rio de Janeiro e cumprido uma pena de oito anos, Osmir Neto, filho do então deputado federal Osmir Lima e membro de influente família acreana que entre seus membros detém advogados, procuradores de Justiça, promotores, engenheiros, jornalistas e colunistas sociais, todas pessoas de vulto na sociedade local, logo reencontrou-se com o sucesso. Passou a assinar uma coluna social no tradicional e mais antigo jornal impresso do Acre, o “O Rio Branco”, cujo proprietário, Narciso Mendes de Assis, é amigo e sócio de seu pai na TV Rio Branco. Em seguida, montou uma agência de modelos e uma revista de moda, que atendia pelo sugestivo nome de “Chique”, sempre com fotos de belas mulheres estampadas na capa e em páginas coloridas em que quase sempre faltava roupas e sobrava luxo e glamour nas personagens ali retratadas.

Era o começo do fim de uma vida luxuosa e glamourização. A agência de modelos Orion funcionava no edifício “Centro Empresarial Rio Branco”, no coração da Capital, onde o então produtor cultural e empresário de moda também vivia. Era ali que aconteciam orgias sexuais e até sexo com menores, vai acusar a polícia e o Ministério Público, o que o acusado desmente com veemência. Disse, quando depôs, que de fato manteve relações sexuais com algumas das modelos – chegou a falar que por sua agência passaram mais de mil mulheres e pelo menos 20 rapazes -, mas jamais de forma forçosa ou à base de promessas ou chantagens. Também negou sexo com menores, embora admitisse que algumas delas trabalharam como modelos em sua agência, “mas com autorização por escrito dos pais”, e apontou relatórios do Ministério Público do Trabalho revelando que não havia irregularidades funcionais na Agência Orion. “É oportuno salientar que na agência Orion tínhamos modelos virgens, solteiras e casadas, que não eram condicionadas ou coagidas a nada. Todavia, tive várias namoradas, ficantes e amantes, afinal sou um homem solteiro e ter enleios com belas mulheres são os percalços da profissão de produtor ou fotografo de moda’, escreve.

Sobre a acusação de prostituição, de acordo com o relato de Osmir Neto, isso decorreu de ter feito algumas viagens a Cobija, na Bolívia, acompanhado de suas modelos. “Eu as levava apenas para estarem disponíveis somente para aos trabalhos de modelo fotográfico ou para comerciais, nunca para fazer book rosa”, acrescenta – “Book Rosa” é a prática da prostituição disfarçada de trabalhos de modelos ou de moda.

O fato é que, das acusações de estupros à menores, pelo menos em três casos, o acusado foi inocentado na própria sentença, mas pelo menos um perdura e deu azo à prisão e condenação. É o caso da modelo cruzeirense Ana Carolina de Almeida Santos, então com 19 anos, que disse ter sido estuprada em Cruzeiro do Sul, num hotel da cidade, onde teria inclusive perdido a virgindade.

“É mentira. Ela não era mais virgem e tivemos relações sexuais de forma consensual. À noite, chegamos a ir a uma festa na Boate Ibisa, onde ela dançou, bebeu, riu e até desfilou. Como é que alguém que é estuprada vai à festa com seu agressor?”, indagou Osmir Neto. Segundo ele, acusação da mulher contra ele foi em retaliação ao fato de ela saber que, mesmo mantendo relação sexual com o editor da revista de modas, não seria a capa da próxima edição. “Além disso, ela ficou com raiva de mim porque, quando estávamos na boate, e ela já meio bêbada, eu não a deixei sair de lá com um rapaz que ela conhecera ali. Minha secretária é testemunha de que eu dei o dinheiro para que ela fosse colocada num taxi e levada para casa”, disse.

Seis anos depois das pesadas acusações e da condenação, Osmir Neto não se mostra arrependido. Muito pelo contrário. “Eu sou homem e assumo tudo o que fiz. E não tenho do que me arrepender porque sei que não cometi crime algum e que estou preso como forma de as instituições darem satisfações à sociedade e dizerem que cumprem suas funções quando alguns de seus membros é que praticam aquilo de que me acusam”, disse, sem citar nomes.

 

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