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Família de idosa morta por Covid-19 diz ter tido dificuldade para conseguir funerária no Acre

Abalados com a morte da advogada aposentada Maria Lúcia Pismel de Paula, de 75 anos, nessa terça-feira (7), familiares relataram dificuldades para conseguir funerária e cemitério que aceitassem o corpo. A idosa foi a segunda vítima fatal causada pela Covid-19 no Acre.

A advogada estava na UTI do Pronto-Socorro de Rio Branco desde o dia 4 de abril. Ela é mulher do ex-prefeito de Senador Guiomard, José Leite.

Ao G1, a neta de Maria, Juliana Regina de Paula, de 32 anos, contou que algumas funerárias chegaram a se negar justificando não ter condições de atender o tipo de situação. Além disso, o cemitério São João Batista, onde a família já tinha um espaço, não aceitou fazer o enterro.

O enterro de Maria ocorreu nesta quarta-feira (8) às 9h no cemitério Morada da Paz e durou cerca de cinco minutos. Segundo a neta, somente cinco pessoas estiveram no enterro e estavam usando máscaras, luvas e não se aproximaram do caixão.

“Tivemos problema com funerária, porque não queriam aceitar devido ter o vírus. Tivemos problema com relação ao cemitério, onde já tínhamos jazigo da família, não aceitaram. Além da gente estar passando por esse momento de perda, teve toda essa questão, um despreparo mesmo”, reclamou a neta.

A reportagem tentou contato com a administração do Cemitério São João Batista, mas até última atualização desta matéria não obteve sucesso.

Falta de assistência

Juliana disse que a família sentiu falta do apoio e assistência por parte do governo e da Vigilância Municipal com orientações e informações sobre como proceder diante da situação.

“No mínimo, orientar qual funerária que está trabalhando e qual cemitério. Nada disso aconteceu. Falta de assistência do estado e da própria Vigilância Municipal, que não apareceu lá. Eles simplesmente embalaram o corpo, colocaram na pedra e a gente que se virasse. Se fosse uma morte comum, mas do jeito que estão pedindo para ter todo cuidado, eles mesmo não tiveram cuidado algum”, relatou.

A gerente da Vigilância Sanitária Municipal de Rio Branco, Deane Fernandes, afirmou que a atribuição do órgão é a partir do momento em que o corpo é entregue à funerária, quando é feito o acompanhamento dos procedimentos.

Segundo ela, como o corpo da idosa foi levado para outro município, no caso para uma funerária de Senador Guiomard, saiu da jurisdição do órgão e, portanto, não prestaram os atendimentos.

“Depois que o corpo está com a funerária, a vigilância verifica se foram tomados todos os cuidados, se foram realizados os procedimentos corretos. Enquanto o corpo está no hospital é com a Vigilância Sanitária Estadual. Até ficamos sabendo desse caso, tentamos entrar em contato, porém o corpo foi para outro município, então saiu da nossa competência”, afirmou a gerente.

Deane também comentou sobre a reclamação de que muitas funerárias estão rejeitando atendimento. “A informação que temos é que as funerárias estão trabalhando em forma de plantão, ficando uma em cada hospital por dia. Entramos em contato com as funerárias e elas falaram que não houve essa negativa”.

O gerente da Vigilância Sanitária Estadual, José Ribamar de Souza, negou a falta de atendimento por parte do órgão no hospital. Segundo ele, existe uma equipe que fica na unidade de saúde acompanhando os casos.

“Nós temos uma equipe dentro do hospital para fazer isso. Mas, sabemos que isso é um fato novo para o mundo inteiro, estamos vivenciando uma coisa diferenciado e a cada dia que passa, a gente vai se familiarizando com a situação. Mas, a gente não deixou de dar assistência. O estado está preparado, está todo mundo preparado com treinamento, estamos nos adequando cada dia mais”, disse Souza.

‘Não tiveram atenção alguma’

Mesmo com as afirmações da gerência das duas vigilâncias, a neta da idosa insistiu que a família não teve nenhuma atenção durante o procedimento.

“Nós passamos mais de duas horas lá de cara para cima e ninguém apareceu. Fomos em uma funerária próxima e eles não aceitaram o corpo, então contratamos a funerária que aceitou. Mas, a vigilância deveria estar lá no hospital nos dando assistência e não em outro local, já que não teria velório. Não tiveram cuidado e nem atenção alguma conosco”, ressaltou.

Juliana relatou ainda que o local onde a avó estava foi, inclusive, filmado por uma pessoa. “La estava tão bagunçado, que agora passou no jornal imagens de minha vó lá na pedra enrolada em um lençol. Será que o município e o estado deram assistência? Deixaram lá aberto para filmarem e, além disso, deixaram as pessoas expostas ao vírus”.

Família não fez exames

A família não sabe como que a idosa contraiu a doença. Ela estava acamada em decorrência de sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) e só tinha contato com as filhas que cuidavam dela.

A idosa tinha sintomas, como desconforto ao respirar, febre e taquicardia. Ela foi encaminhada ao PS dois dias depois de ter dado entrada em um hospital particular de Rio Branco. O exame que atestou a doença na idosa saiu ainda no dia 2, mesmo dia em que foi internada.

A neta conta que nenhum familiar apresentou sintomas da doença e que, por enquanto, ninguém fez o exame para saber se está contaminado.

“Minha avó era cuidada por uma filha, mas ela não sentiu nada até agora. Na verdade, a gente não sabe de onde que surgiu. Meu avô também não apresentou nenhum sintoma. Eles estavam vivendo em isolamento, como minha avó já era debilitada, então desde que iniciou essa situação, minha mãe já teve esse cuidado, não estava mais nem aceitando visitas”, afirmou Juliana.

Fonte: G1.
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