Interiorização do COVID-19 pode gerar ‘efeito cascata’ de sobrecarga sobre sistema de saúde no Acre, afirma cientista

O biólogo Rafael Galdini avaliou os dados sobre o avanço do COVID 19 na capital e nas cidades do interior do Estado do Acre. Ele vê movimento semelhante aos estados do nordeste e alerta para ‘efeito cascata’ que pode colapsar o Sistema de Saúde no Estado.

Rafael integra o subcomitê de coordenação estratégica do Comitê Científico do Nordeste que acompanha detalhadamente o avanço da doença na região para apontar aos gestores públicos, as melhores estratégias de enfrentamento. O comitê produziu uma série de programas e aplicativos que permitem olhar o problema sob diferentes pontos de vista.

Rafael viveu entre 2006 e 2009 em Cruzeiro do Sul-AC, quando foi gerente do CEFLORA – Centro de Educação da Floresta. Em razão de sua ligação com a cidade e o estado do Acre, Rafael produziu a partir dos critérios e programas do Comitê Científico do Nordeste, um material sobre o avanço da doença no estado. Atualmente vivendo em Joao Pessoa- PB, ele concedeu entrevista por whats app, interpretando os dados sore o Acre.

JT- Qual a avaliação que pode ser feita a partir destes dados?

RG- O que se vê claramente é o mesmo padrão de expansão da doença no interior que ocorreu no nordeste. Aqui na Paraíba temos algumas das maiores cidades do interior já entrando num estado mais avançado de contágio. No Acre claramente são dois núcleos de expansão da doença: vale do Acre e vale do Juruá.

JT – Qual o efeito prático disso?

RG – O que nosso modelo está prevendo é que deve ocorrer um efeito cascata em função desse fator de interiorização da doença. Os municípios menores têm uma capacidade de atendimento muito reduzida do ponto de vista de leitos para pacientes graves, o que acabam sobrecarregando o polo regional (como Cruzeiro do Sul, por exemplo) que por sua vez tende a sobrecarregar e colapsar a capital. Gera um dominó de sobrecarga. Esse é o problema da interiorização. Acaba resultando em epidemias dentro da epidemia, uma rede de epidemias. Interior tende a colapsar primeiro e gerar fluxo de pacientes para os polos regionais e capital. Isso é o principal problema.

JT – A partir desses dados (ate 01/06), e utilizando os mesmos critérios do Comitê Científico do Nordeste é caso de se pensar em lockdown ou em reabertura programada das atividades no Acre?

RG – Essa avaliação toma por base a taxa de ocupação dos leitos. O lockdown é recomendável quando a taxa de ocupação dos leitos de UTI está acima de 80%. Em Rio Branco as informações é de que já chegou a 100%, o que em tese, já justificaria uma decretação de lockdown.

JT – Em Cruzeiro do Sul essa taxa de ocupação está (02.06) com todos os 44 leitos da enfermaria covid 19 ocupados, 10 pacientes internados no pronto atendimento da covid e 4 pacientes na UTI, sendo 2 entubados diretor clinico diz que está no limite mas o total de leitos de UTI é 10 só que tem 42 profissionais afastados por Covid 19.


RG – A curva de óbitos em Cruzeiro do Sul é ascendente, e está no início dessa curva. Com casos e óbitos ascendentes e pouquíssimos leitos, não parece nada sensato pensar em relaxamento.

JT – Que outras conclusões podemos chegar com estes dados?

RG – Na análise do gráfico de casos acumulados em comparação de novos casos diários apontam uma incongruência. Enquanto os casos acumulados mostram claramente uma exponencial, o que é esperado, o gráfico de novos casos desaba pelo dia 60. É muito pouco provável que isso indique queda real, e sim, dificuldade em realização de testagem. Segundo informações da capital: foi de fato isso que ocorreu: falta de material. E aí se cria uma narrativa de que a epidemia esteja cedendo em Rio Branco, com pressão para retorno das atividades. Aí você tem essa disputa de narrativas. Mas a análise de dados não sugere que esteja cedendo em Rio Branco ou Cruzeiro do Sul.

– Rafael Galdini é professor do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da UFPB

 

Por Leandro Altheman – Juruá em Tempo