Rio Branco, Acre, 28 de outubro de 2020

Governo homenageia história das parteiras do Juruá

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Quem disse que arte e saúde não andam juntas? Para comprovar essa possibilidade, a segunda maior cidade do Acre, Cruzeiro do Sul, há algumas semanas anda ganhando cores e rostos. As paredes e muros do Hospital da Mulher e da Criança do Juruá serviram de tela para homenagear e registrar a história de uma cidade cujos filhos vieram ao mundo pelas mãos das conhecidas parteiras.

A figura da mulher confortando um bebê de colo é de Giosete Mariano, a dona Zizi, já falecida, uma das parteiras mais antigas da região. O artista, grafiteiro Matias Souza, estampou-a logo no muro de entrada, o que faz com que as pessoas que trafegam por ali reconheçam o rosto daquela que trouxe milhares de juruaenses ao mundo, mesmo porque a unidade atende a população dos sete municípios do entorno.

“Quando colocamos o rosto, as pessoas que ela ajudou a nascer a reconhecem como ‘a senhora que fez o parto da minha mãe’, e essa identificação foi muito bacana pra gente”, destaca Matias.

Resgate de memórias

Dona Terezinha Soares tem 68 anos, começou a trabalhar na unidade em 1971, que na época era o Hospital do Juruá. Amiga de dona Zizi, ela conta que a parteira era uma profissional dedicada: “Ela não deixava as mulheres que iam ter bebê, sofrerem. Tratava todo mundo com carinho e era uma pessoa linda”, recorda.

Ainda, de acordo com o relato da dona Terezinha, naquele tempo a luz da cidade era encerrada à meia noite: “Não tinha luz na cidade, nós trabalhávamos com a luz das velas”, relatou.

Essas personagens, em sua maioria, já saíram do plano terreno, mas as trajetórias ficam. Os bebês, que agora já são mulheres e homens adultos, contam algumas histórias. Uma delas é a do Jhonatan Lima, nascido em 1992, que foi “pego”, a expressão popularmente conhecida para esse momento, pela dona Carmélia Santiago, que inclusive era vizinha da família do rapaz.

“Minha mãe achava que estava com cinco meses de gravidez, mas aí começou a sentir umas dores e teve que ir correndo para a parteira que, no caso, era a nossa vizinha, a dona Carmélia”, relatou Jhonatan.

A maioria dos antigos moradores de Cruzeiro do Sul vieram dos seringais, localidades criadas para extração da borracha. Lá, por ser possível chegar apenas de barco, faz com que a viagem dure dias e até semanas. Assim, a assistência médica era mais difícil e quase inexistente à época. As parteiras, então, foram nascendo aos poucos, moldadas pela realidade, sendo um dom passado de geração à geração.

Com a expansão da ciência e tecnologia as parteiras foram deixando de serem procuradas, sendo pouco comum até em lugares interioranos, entretanto, fazem parte da história e, agora, resgatadas pela arte.

Parceria histórica

A parceria entre a arte de Matias e o governo do Acre não pára por aí. Também o hospital de campanha, a unidade de pronto atendimento e o Hospital Regional do Juruá ganharam a grafitagem do artista. A iniciativa leva vida aos lugares e às pessoas que ali circulam cotidianamente.

Para Matias, é importante que a população conheça alguns dos rostos que salvam vidas, por isso a homenagem: “A gente teve essa ideia junto com o governo, ainda mais neste momento que estamos vivendo, pois as pessoas não sabem quem está por trás das máscaras. Muitas vezes eles dão a própria vida e abdicam do seu tempo com a família para servir ao próximo”, observa.

E é assim, por meio da arte do grafiti que a história se desenha. A geração de agora que resgata a memória afetiva sobre as parteiras, e as gerações futuras que saberão sobre a “época do coronavírus” não apenas pelos livros e registros digitais: “Eu só tenho a agradecer a oportunidade ao governador Gladson Cameli, de acreditar no nosso trabalho, de acreditar no graffiti como forma de interação e intervenção social e principalmente de informação, pois a arte aproxima o público da questão histórica”, enfatizou Matias.

Quem fez a arte?

O grafiteiro Matias Souza nasceu no Acre, mudou-se muito pequeno para Brasília e foi lá o seu primeiro contato com o grafite: “Os meus amigos pintavam na rua e sempre sobrava um pouco de spray nas latas; eu pegava aquele pouquinho e ia pintar nos muros”, conta.

Autodidata e curioso, ele aprendeu sozinho e precisou de apenas um curso básico de desenho para ganhar técnica. Assim, aos 12 anos, Matias começou a sua carreira e já se vão 20 anos colorindo ambientes. Atualmente mora em Cruzeiro do Sul.

Fonte: Agência de Notícias do Acre.

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