Rio Branco, Acre, 23 de outubro de 2020

Marido cuida de esposa que ficou em estado vegetativo: “Eu preciso dela”

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Desde 2018, o motorista de aplicativo David Alexandre, 27, se dedica à esposa Bruna, 26, que ficou em estado vegetativo aos 24 anos. Após sofrer duas paradas cardiorrespiratórias, Bruna ficou com graves sequelas devido à falta de oxigenação: não anda, não fala e precisa de cuidados 24 horas por dia. A seguir, David conta a história do casal.

“Eu e a Bruna nos conhecemos desde criança. Aos 14 anos, nos comprometemos um com o outro, mas só começamos a namorar oficialmente aos 18 e nos casamos com 21. Decidimos assumir o relacionamento só quando tivéssemos mais estrutura emocional e financeira. Somos testemunhas de Jeová e seguimos uma série de princípios.

Éramos um casal jovem, cheios de planos e sonhos, entre eles, o de ter um filho em 2020. Nossa rotina era como a de qualquer casal, durante o dia nós trabalhávamos. Eu era assistente administrativo em uma empresa e a Bruna era auxiliar de professora —ela fazia a inclusão de crianças com síndrome de Down em sala de aula. À noite, nós ficávamos juntos, íamos para a igreja e aos finais de semana, passeávamos e visitávamos a família.

Bruna passou mal enquanto assistíamos a um filme

Em uma dessas visitas, no dia 28 de janeiro de 2018, eu e minha esposa fomos almoçar com a minha mãe na casa dela. À tarde, deitamos no sofá para assistir a um filme quando a Bruna começou a passar mal e teve uma convulsão, seguida de uma parada cardiorrespiratória. Ela estava bem de saúde, não tinha se queixado de dor nem nada do tipo, foi algo fulminante.

“Saí correndo pela rua pedindo que algum vizinho me emprestasse um carro para levá-la a UPA. Ao chegar lá, os médicos demoraram cerca de 25 minutos para conseguir reanimá-la e intubá-la. Ela ficou entre a vida e a morte.”

Bruna foi transferida para um hospital e teve mais uma parada cardiorrespiratória. Após uma série de exames e avaliações durante dias, os médicos disseram que, devido à falta de oxigênio, minha esposa tinha ficado com várias sequelas, entre elas uma lesão encefálica e alienação mental, além do quadro de arritmia cardíaca. Em resumo, eles me falaram que ela ficaria em estado vegetativo permanente e que se ela conseguisse abrir os olhos já seria lucro.

Ao total, a Bruna ficou internada 1 ano e 6 meses, sendo 1 mês e 22 dias na UTI. O primeiro mês foi o mais difícil para mim, não conseguia lidar com a situação e fiquei muito mal. Segundo o diagnóstico da psiquiatra, eu entrei em uma depressão profunda. A vida tinha perdido o sentido para mim, só enxergava dificuldades, incerteza e sofrimento para o futuro. Chorava e tinha crises de ansiedade.

O apoio dos amigos e familiares foi fundamental para eu melhorar. Nós tínhamos um grupo de 200 voluntários que se revezavam comigo no hospital. Eles levavam a comida, ajudavam as enfermeiras, davam apoio emocional e financeiro. Ao ver toda essa mobilização, percebi que eu não estava sozinho e que precisava ficar bem para cuidar da minha esposa.

Após mais de um ano e meio no hospital, entre altos e baixos, a Bruna apresentou uma boa evolução, surpreendendo os próprios médicos. Ela passou a respirar sozinha, a movimentar alguns membros do corpo e a demonstrar pequenas emoções, como semblante de riso e de choro.

Em agosto de 2019, ela recebeu alta e veio para casa. Montei um quarto hospitalar para ela com cama, aparelho de oxigênio e de aspiração. O convênio oferece uma assistência em domicílio, que inclui a visita do médico uma vez por mês, fisioterapia e fonoaudiologia duas vezes na semana, e diariamente uma técnica de enfermagem para auxiliar no banho.

Durante o dia, cuido da minha esposa e à noite, trabalho

Durante o dia, cuido da minha esposa, ajudo no banho, troco fralda, dou comida, acompanho as terapias, limpo a casa e resolvo as questões burocráticas. Quando a Bruna estava internada, fui demitido da empresa que trabalhava como assistente administrativo porque não estava rendendo o esperado.

“Quando ela voltou para casa, comecei a trabalhar como motorista de aplicativo. Geralmente trabalho quando aparece alguma corrida ou depois que ela dorme, das 20h às 3h da madrugada. Minha mãe e minha sogra ficam com ela nesse período e sempre que preciso sair para resolver alguma coisa. Elas e uma amiga me ajudam muito.”

Atualmente, as despesas com a Bruna estão em torno de R$ 7.000 por mês, o auxílio-doença foi rejeitado duas vezes. Vivemos com a minha renda e com as doações de amigos, familiares e desconhecidos. Os dados para quem quiser nos ajudar estão no meu Instagram (@brunaedavidamor). Estou tentando arrecadar fundos com as vaquinhas para comprar uma medicação do Canadá que age como um suplemento para recuperação neurológica associado à fisioterapia. O custo do tratamento para três anos é cerca de R$ 100 mil.

Mesmo em estado vegetativo, converso bastante com a Bruna e sigo uma das orientações médicas que é estimular a memória dela com detalhes. Relembro os momentos que ela viveu, conto como foi o dia do nosso casamento, um passeio legal que fizemos ou uma comida gostosa que comemos.

Além disso, conto da nossa rotina e estudo a Bíblia com ela. Nas nossas conversas, sempre preço para ela ter fé, paciência e paz, que o tratamento é longo, mas está dando resultado.

Desistir da Bruna seria uma covardia

Diariamente declaro meu amor por ela e digo que sempre estarei ao lado dela. Tem dias em que fico triste e desanimado, mas nunca pensei em desistir, seria uma covardia. Renovo as forças em Deus Jeová e quando vejo o semblante dela sereno e tranquilo.

Na questão da intimidade, os médicos disseram que não haveria problema em ter relações sexuais com a Bruna. Eles comentaram que para alguns pacientes no mesmo estado que ela a experiência foi boa. Por mais que eu sinta falta de fazer sexo com minha esposa, acho que não é o momento para isso. O amor e o respeito prevalecem sobre esse desejo.

“Alguns seguidores no Instagram já sugeriram de me casar com outra mulher, colocar a Bruna em uma casa de repouso e viver a minha vida. Muitas pessoas acham que ela que precisa de mim, por todas limitações na saúde dela, mas a verdade é que eu que preciso dela. Não acredito que tudo o que estamos passando seja um propósito de Deus ou destino, infelizmente acho que aconteceu por causa da imperfeição humana. O cérebro é misterioso e complexo. Já vi a Bruna superar a medicina e, creio que, com o tratamento vamos reverter o quadro dela. Quando ela se recuperar, vamos retomar os nossos sonhos, ter filhos e constituir a nossa família”.

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

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