Rio Branco, Acre, 7 de março de 2021

“Não fosse enfermeiro, teria morrido”, diz infectado por variante britânica

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Redação Juruá em Tempo
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

O enfermeiro Altair Nonato da Silva, 45 anos, é o primeiro caso confirmado no litoral paulista de contágio pela nova variante britânica da covid-19, a B.1.17. A nova cepa é considerada 60% mais contagiosa e letal.

Pós-graduado em Enfermagem em UTI (Unidades de Terapia Intensiva) e especializado em Saúde Pública, ele trabalha em um hospital na cidade de São Paulo, mas reside com a esposa e dois filhos em Peruíbe, na Baixada Santista (SP).

Altair não acredita que o contágio tenha se dado no hospital, especializado em doenças crônicas de baixa e média complexidade. O local seria, segundo ele, praticamente “à prova de covid-19”, devido aos cuidados sanitários e protocolos exigidos. 

Para ele, o contágio se deu através de sua esposa, que teria sido contaminada ao ir às compras no centro de Peruíbe na antevéspera do Ano Novo. Confira a seguir seu depoimento:

Sou o primeiro caso confirmado de muitos que ainda virão. E isso é preocupante. Essa cepa é muito agressiva, se eu não fosse enfermeiro e não tivesse conhecimento de fisiologia, além de mais de 15 anos de experiência no atendimento de atenção básica na rede pública de São Paulo, eu acho que teria morrido. Eu vi a morte de perto.

Eu e minha família estamos numa quarentena rígida desde janeiro do ano passado. Tudo o que fazemos segue rigorosos protocolos. Meus filhos também. Quando vou e volto do hospital, os cuidados são redobrados. Máscara, higienização das mãos o tempo todo, uso de EPI?

Nunca peguei nada. E nunca iria imaginar que uma confraternização de Réveillon pudesse se transformar quase numa tragédia. 

A gente só chamou pessoas que tinham se protegido, que estavam em isolamento como nós. Não convidamos quem estava se expondo. No dia 30, minha esposa foi com uma das irmãs fazer compras no centro de Peruíbe. Todo mundo estava feliz, era a primeira vez que a gente se reunia desde o início da pandemia. 

Notei que a minha esposa estava com uma tosse leve, que foi piorando à noite; 24 horas depois disso, já no dia 1º, eu não conseguia levantar da cama. Fadiga, lombalgia, ausência de apetite. No dia 2, liguei para todos que tinham estado em nossa casa para que ficassem em isolamento.

Em dois, três dias, todos os meus parentes que vieram para o Réveillon começaram a apresentar os sintomas. Menos a minha sogra, que foi poupada por Deus, ela que é a mais idosa e do grupo de risco.

No dia 3, procurei com a minha esposa a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do meu bairro. Como ela estava com tosse há mais de três dias, fizeram nela o exame. Mas em mim, que só estava há dois, não fizeram, seguindo o protocolo.

No dia 4, já estava na estrada em direção à capital para voltar às minhas funções quando recebi uma ligação do médico do trabalho do hospital onde eu trabalho. Disse para eu voltar para casa e fazer o exame no dia seguinte. Foi o que fiz o dia seguinte.

Só que meus sintomas pioraram até que, no dia 9, comecei a ter uma dispneia (falta de ar) forte. Como sou enfermeiro, comecei a monitorar meus sinais vitais, pressão, temperatura e a temida saturação de oxigênio. Estava baixa. Depois recebi o resultado da tomografia do meu pulmão. Pneumonia.

Mesmo tomando os antibióticos receitados pelo médico da UPA, a febre não baixava. Não tinha vontade de comer nem de beber. Me forcei. Eu tinha que manter o corpo alimentado e hidratado. Graças a Deus os sintomas da minha esposa e dos meus filhos foram passando. Dos meus parentes também. Menos os meus, que só pioravam.

No dia 12, voltei à UPA e fiz o PCR (exame para covid-19). Deu negativo. Voltei para casa e passei o dia seguinte com tremedeira, sudorese noturna, dores de cabeça muito fortes. A essa altura, minha família passou a orar a Deus pela minha melhora. Somos evangélicos, a comunidade toda passou a orar por mim. 

Fui mais uma vez à UPA dois dias depois e viram que minha saturação de oxigênio estava baixa. Foi quando fui internado e depois encaminhado para o Hospital Regional de Itanhaém.

No dia 15, foi mais uma surpresa. O laboratório que o hospital onde eu trabalho tem convênio estava fazendo o mapeamento genético e descobriu que eu tinha a variante britânica do vírus, mais contagiosa e letal. Isso foi como uma ironia, porque eu morei em Londres em 2019. Voltei para me trancafiar em 2020 inteiro e ainda pegar a variante britânica aqui, no Brasil? E pegar da minha esposa?

Foi a fé em Deus e a confiança na Ciência que me salvaram. Graças a Deus não precisei ser intubado e fui melhorando aos poucos. 

Quem pensa que covid é uma gripezinha corre um sério risco. Ela é uma roleta russa. Se eu não fosse enfermeiro e não conhecesse bem o funcionamento do corpo humano, eu ou alguém da minha família teriam morrido. Pensem nisso. Não existe tratamento, o kit covid é uma mentira. Só existe profilaxia, que é a vacina. Nessa, sim, a gente tem que confiar”.

*Altair Nonato da Silva, 45, morador de Peruíbe, em depoimento a Maurício Businari.

UOL

Leia também

Receba nossas novidades

Av. Getúlio Vargas n. 22 – Salas 7 e 8 – Centro – Cruzeiro do Sul AC.