Rio Branco, Acre, 22 de abril de 2021

Impedidos de deixar Brasil, imigrantes vivem angústia na fronteira do Acre com Peru: ‘Deus nunca deixa um filho sozinho’

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Redação Juruá em Tempo.
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Longe de casa e da família, enfrentando o desemprego por causa da pandemia da Covid-19, os imigrantes que estão impedidos de atravessar a fronteira do Brasil com o Peru, na cidade de Assis Brasil, no interior do Acre, vivem a angústia de tentar sair do país e não saber quando as coisas podem melhorar.

Os imigrantes, na maioria haitianos, estão no interior do Acre na tentativa de deixar o país, mas, foram impedidos de entrar na cidade peruana de Iñapari. No dia 14 de fevereiro eles ocuparam a Ponte da Integração. Na mesma semana, chegaram a forçar a entrada no país vizinho, mas foram mandados de volta.

Foi quase um mês com a ponte fechada. No local, chegaram a ter mais de 300 estrangeiros. Após serem impedidos de entra no país vizinho, um grupo continuou acampado e impedia o transporte de cargas entre os dois países. O fluxo só foi liberado na tarde de segunda (9), de forma pacífica, após uma ordem de reintegração de posse da Justiça Federal que atendia a um pedido de liminar da União.

A ponte foi liberada, e a passagem dos veículos também. Porém, o drama dos imigrantes ainda parece estar longe do fim.

Guyto Viellot conta saiu do Haiti em 2015 e ficou pouco mais de um ano no Brasil. Depois, foi para o Chile porque tinha um filho que estava lá e ficou pelo menos um ano, mas retornou ao Brasil novamente por não ser o que ele esperava. Em Assis Brasil, ele está com um grupo de mais 13 pessoas entre familiares e amigos.

“Deixei meu país, porque é bem perigoso politicamente. Deus abençoa o povo brasileiro. Eles ajudam muito os imigrantes, somos bem vindos aqui. O maior problema é a incerteza. Eles [Peru] falam que vão abrir em setembro, mas eles não querem deixar a gente passar por causa da Covid-19. Se eles quisessem ajudar os imigrantes deixavam o ônibus passar, higienizava todo mundo. A gente só passar, se eles não querem que a gente desça no país deles a gente passa direto”, desabafa.

O haitiano fala que o objetivo é chegar em países como EUA, Canadá, Chile, locais onde a maioria tem familiares. Ele lamenta pelo fato de estarem impedidos de passar pela fronteira e ainda ressalta que os gastos para a viagem são altos e se quiserem voltar ao país de origem precisam gastar em torno de R$ 6 mil a R$ 7 mil.

“É difícil, mas, com fé em Deus, tudo vai dar certo. Deus nunca deixa um filho sozinho, Ele vai abrir um caminho para todo mundo passar, eu acredito nisso”, torce.

Hector Julio Villalba Castro com a esposa e filho — Foto: Jefson Dourado/Rede Amazônica Acre

O colombiano Hector Júlio Villalba Castro, de 56 anos, está acompanhado da esposa e filho, ele conta que estava na Venezuela, onde morou por pelo menos 11 anos, está na fronteira e tenta seguir para o Rio Grande do Sul.

“Na Venezuela nós conhecemos alguns pastores que nos falaram para irmos ao Brasil, aí decidimos vir para o Brasil e, agora, estamos querendo ir para o Rio Grande do Sul, em Caxias do Sul. A gente veio, mas não sabíamos que estava fechado e que não tinha saída. A gente está esperando, não temos documentação. O Brasil tem um pouco mais de trabalho e um pouco mais de oportunidade, tem mais saídas. Eu sou professor”, diz.

 Imigrantes chegaram a ocupar a Ponte da Integração até a segunda-feira (8), em Assis Brasil  — Foto: Raylanderson Frota/Arquivo pessoal

Retorno

O prefeito de Assis Brasil, Jerry Correia, diz que a cidade deve receber um valor de R$ 1,2 milhão do governo federal e está recebendo assistência técnica do governo do estado do Acre.

“O valor dever ser para custear o que já foi gasto até aqui nessa crise humanitária e também levando em conta que temos muitos imigrantes no município e devemos custear com esse aporte financeiro”, contou.

Correia fala que agora está sendo elaborado um plano para que os imigrantes possam retornar para as cidades de onde saíram no Brasil.

“Está sendo elaborado um plano para aqueles que querem voltar para o estado ou a cidade que estavam antes de seguir aqui para o Acre. Estamos conversando, cadastrando todos aqueles que querem voltar para a cidade de onde eles saíram. Mas, continuamos os atendimentos, nossa equipe está mobilizada, continuamos com dois abrigos com alimentação e também com testagem para a Covid”, diz.

Desde a ocupação da ponte em fevereiro, a cidade chegou a ter mais de 400 imigrantes, mas o prefeito afirma que o número já diminuiu bastante. “A verdade é que o número de imigrantes diminuiu e a tendência é que continue diminuindo, mas estamos com a equipe aqui para continuar atendendo eles”, acrescenta.

De acordo com a prefeitura, até esta terça (9), a cidade tinha em dois abrigos, cerca de 160 imigrantes. A informação foi confirmada pelo secretário de Assistência Social, Marissandro Rodrigues Moreno

“Começou a ter um fluxo menor pessoas. Começaram a se dispersar e conseguimos, de alguma forma extraordinária, em conjunto com o Ministério da Cidadania, do governo federal, lá na ponte tirá-los da ponte para o abrigo. Muitos voltaram para Rio Branco, alguns procuram outras rotas para passar, estamos tentando fazer o possível e o impossível para ajudá-los”, disse.

A cidade, que sofre há pelo menos um ano com a concentração de imigrantes, conta com duas escolas que servem de abrigos. O secretário disse que com o número reduzido de pessoas a ideia é juntar e deixar todos em um único abrigo. “Fica mais fácil a assistência.”

Cidade de Assis Brasil abriga mais de 150 imigrantes — Foto: Arquivo/Prefeitura de Assis Brasil

  • Por Alcinete Gadelha e Janine Brasil, G1 AC.

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