“Como disse em outros momentos, o mesmo igarapé que eles lavavam a máquina com o veneno que colocavam na floresta para dedetizar era o mesmo que tomavam banho, que tomavam a água. Acompanhei a morte de muitos trabalhadores da extinta Sucam no Acre e inclusive a morte de muitas esposas deles, que lavavam as roupas”, disse a deputada ao iniciar a discussão sobre a PEC na reunião da CCJ.
Uma pesquisa feita pelo professor do Instituto Federal do Acre (IFAC) Luis Pedro de Melo Plese mostrou que o DDT foi encontrado no solo de 16 municípios do Acre. O estudo avaliou o solo de 17 municípios do estado e durou dois anos.
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Dívida impagável
Ainda segundo Perpétua, o Brasil tem uma dívida “impagável” com esses trabalhadores contaminados pelo DDT. “Quando o mundo extinguiu o uso do DDT, o Brasil demorou 10 anos para fazer o mesmo, então, há que se ter uma responsabilidade com seus servidores, com a vida dos seus trabalhadores.”
A deputada disse que agora a PEC deve ir para a Comissão Especial para seguir com as discussões sobre o tema.
Conforme o documento, a proposta deve beneficiar os servidores dos cargos de agente de saúde pública, guarda de endemias, motorista e condutor de lanchas da extinta Sucam que tenham sido admitidos até 31 de dezembro de 1988.
O benefício é para aqueles que operacionalizaram ou tiveram qualquer contato com o DDT e outros inseticidas na execução de políticas de estratégia de saúde pública para o combate e controle da malária, chagas e outras endemias.
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PEC da indenização arquivada
Ainda em 2014, a PEC 17/2014, de autoria do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), propôs uma indenização no valor de R$ 100 mil aos ex-servidores da extinta Sucam. Esse valor se estendia aos familiares dos “guardas mata-mosquitos” que já morreram em decorrência da intoxicação pelo DDT.
Além da indenização, a proposta determinava a isenção do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza para o valor recebido e estabelecia o prazo de 180 dias para que a União elaborasse um programa para submeter a tratamento médico e psicológico todos os ex-servidores e seus familiares.
Essa proposta foi arquivada em dezembro de 2018. Segundo a deputada Perpétua, a ideia da nova PEC é, ao menos, garantir um atendimento de saúde adequado a esses ex-servidores, que estão acometidos de diversas doenças.
“Na verdade, os governos não querem. Veja a dificuldade que está sendo garantir algo que é o mínimo, que é garantir um atendimento melhor na área da saúde, imagine uma indenização. Então, achei melhor priorizar essa da área da saúde, porque ajuda a salvar vidas. E aí, depois que ganharmos essa, voltamos para outra discussão. Tem que haver um processo de investigação da intoxicação. É uma luta antiga”, afirmou Perpétua.
Em matéria publicada em 2015, a associação estimava que o uso do veneno tinha provocado a morte de mais de 240 ex-guardas no Acre e outros 15 seguiam na chamada “fila da morte”. Em menos de sete meses em 2016, seis pessoas tinham morrido. Na época, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) informou que a extinta Sucam tinha 578 servidores.
Em 2015, o Ministério da Saúde alegou que a intoxicação pelo uso do produto não era comprovada. Porém, três mortes registradas nos primeiros cinco meses de 2016, apontaram porcentagem do veneno ainda no sangue das vítimas. Geralmente, os ex-servidores morrem quando os órgãos paralisam.
Também naquele ano, o toxicologista de São Paulo Anthony Wong, informou que não só o DDT era o responsável pela intoxicação dos antigos guardas, mas também os solventes à base de petróleo usados na mistura para obter o veneno.
Em junho de 2015, um estudo de cinco décadas comprovou que mulheres que tiveram contato direto com o pesticida tinham mais facilidade de serem acometidas pelo câncer de mama.