O governo da Rússia anunciou neste sábado, 5, um cessar-fogo de cinco horas para possibilitar retirada de civis e chegada de alimentos e medicamentos em duas cidades ucranianas. As tropas da Ucrânia trabalham na formação de um corredor humanitário na cidade portuária de Mariupol e em Volnovakha. As autoridades ucranianas, entretanto, afirmam que a trégua ainda não começou a ser respeitada.
“Hoje, 5 de março, a partir das 10h, horário de Moscou, o lado russo declara um regime de cessar-fogo e abre corredores humanitários para a saída de civis de Mariupol e Volnovakha”, disse o Ministério da Defesa em um comunicado. “Corredores humanitários e rotas de saída foram acordados com o lado ucraniano.”. Os militares russos reforçaram que a redução nos ataques abrangem todo o território da Ucrânia.
A prefeitura de Mariupol, que tem cerca de 450 mil habitantes, afirmou que o cessar-fogo vai permitir a reconstrução de estruturas destruídas pelos bombardeios. O conselho da cidade disse que os civis poderão seguir até a cidade de Zaporizhzhia de ônibus ou em seus próprios carros em rotas pré-estabelecidas.
“Em Mariupol e Volnovakha, corredores de evacuação humanitária estão sendo preparados para a abertura, rotas estão sendo formadas quem está sujeito a evacuação. As partes cessaram fogo temporariamente na área dos corredores”, disse Mykhailo Podoliak, chefe do gabinete do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.
“Caros moradores de Mariupol, a partir de hoje começa a evacuação da cidade. Não é uma decisão fácil, mas como sempre disse, Mariupol não é nem suas ruas nem seus prédios. Mariupol são seus habitantes, nós”, disse o prefeito, Vadim Boychenko, reforçando que as pessoas devem levar o maior número de pessoas possível em seus carros.
As autoridades da cidade, entretanto, disseram que a retirada de civis foi adiada porque militares russos não estariam respeitando a trégua. De acordo com agências de notícias, os moradores foram orientados a aguardar mais informações sobre a retirada em abrigos.
O governador da região de Donetsk, Pavlo Kyrylenko, afirmou que evacuação havia sido adiada. “Devido ao fato de que os russos não observam o regime de silêncio e continuam bombardeando Mariupol e seus arredores, por razões de segurança, a evacuação da população foi adiada”, disse ele.
Iryna Vereshchuk, a ministra ucraniana de Reintegração de Territórios Ocupados Temporariamente, disse que as forças russas estariam aproveitando para avançar com suas tropas. Nossos militares informam que na área da rota declarada [do corredor de evacuação] as tropas russas estão usando o cessar-fogo e avançando”, disse Vereshchuk.
As delegações ucranianas e russas realizaram uma segunda rodada de negociações na Bielorrússia na quinta-feira. Um negociador ucraniano disse que o encontro não deu resultados que a Ucrânia precisava, mas que os dois lados concordaram com corredores para os civis escaparem.
As autoridades ocidentais relatam que os russos passaram a mirar em alvos civis em vez de militares, com ataques concentrados em centros populacionais. A interpretação é que a mudança de estratégia ocorreu depois que o presidente russo, Vladimir Putin, não obteve a vitória rápida que planejava com a resistência ucraniana. Putin disse ao chanceler alemão Olaf Scholz na sexta-feira que uma terceira rodada de negociações foi agendada para este fim de semana.
Na sexta-feira, 4, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, havia criticado a decisão da Otan, aliança militar ocidental, de não estabelecer uma zona de exclusão aérea no seu país, sob invasão russa desde 24 de fevereiro.
“Hoje, a liderança da Aliança deu sinal verde para a continuação do bombardeio de cidades ucranianas, recusando-se a estabelecer uma zona de exclusão aérea”, afirmou Zelenski em vídeo divulgado pela presidência ucraniana.
“Durante nove dias assistimos a uma guerra brutal. Estão destruindo nossas cidades. Eles estão bombardeando nosso povo, nossas crianças, bairros residenciais, igrejas, escolas. E eles querem continuar. Sabendo que novos ataques e baixas são inevitáveis, a Otan decidiu deliberadamente não fechar os céus sobre a Ucrânia”, continuou.
Mais cedo, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, havia rejeitado o pedido da Ucrânia de estabelecer a zona de exclusão aérea. “Os aliados concordaram que não deveríamos ter aviões sobre o espaço aéreo da Ucrânia, ou tropas da Otan no território da Ucrânia”, afirmou ele, após uma reunião de emergência da organização.
A posição foi defendida também pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken. Segundo ele, os aliados têm a responsabilidade de garantir que a guerra iniciada pela Rússia “não se espalhe” para fora desse país.
“Embora façamos todo o possível para dar aos ucranianos meios de se defenderem, temos a responsabilidade de garantir que a guerra não se espalhe além da Ucrânia”, disse Blinken em entrevista coletiva após participar de uma reunião ministerial da Otan.
- Fonte: Veja Abril.

