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sábado, junho 25, 2022

Pastor anti-Bolsonaro e anti-Lula diz que presidente atraiu evangélicos com ‘urgência apocalíptica’

Por jornal Folha de São Paulo.

O pastor batista Yago Martins, 30, hoje padece de um “ateísmo político profundo” e pensa em nem sair de casa para votar nas eleições. Em 2018, foi de Jair Bolsonaro (PL) nos dois turnos, mesmo o achando “um maluco”, por acreditar que ele poderia ser um dique contra “certos exageros da esquerda”.

Bolsonaro, contudo, foi tão ruim quanto o PT de Luiz Inácio Lula da Silva, e qualquer evangélico que se diga pró-vida não pode repetir o voto nele depois de uma assassina condução da pandemia, afirma esse mestre em teologia com especializações em economia (foi colega de Eduardo Bolsonaro nesse curso) e neurociência.

Autor de “A Religião do Bolsonarismo”, Martins diz que o grande trunfo do presidente foi forjar uma “urgência apocalíptica” a seu favor. Convenceu o evangélico médio de que, com a volta do PT, no dia seguinte o aborto seria legalizado (mesmo que não o tivesse sido em 14 anos de governos petistas), e os filhos, “homossexualizados” nas escolas.

Medos razoavelmente legítimos do crente comum chegam ao nível da neurose.”

Dono do canal Dois Dedos de Teologia, com 720 mil inscritos no YouTube, ele entrevistou quatro pré-candidatos a presidente: Ciro Gomes (PDT), Pablo Marçal (Pros), Felipe D´Avila (Novo) e Sergio Moro (União Brasil), já carta fora do baralho eleitoral.

O sr. é um evangélico de direita anti-Bolsonaro. É difícil a posição de um cristão que não quer estar comprometido com algum político específico. Você vai encontrar muito apoio se você se comprometer com algum ideal do momento. No meio do povo é um pouco diferente, mas, majoritariamente, lideranças mais antigas sempre transitaram muito bem com o poder. E esse poder muda, né? A ideologia parece que muda junto.

Considerando a movimentação fisiológica no passado, se Lula ganhar agora, existe uma possível conciliação com esses líderes ou a ruptura em 2018 é incontornável? A aposta em Bolsonaro como representativo de uma força evangélica, mesmo ele sendo católico, o que é muito esquisito, é algo que fez com que as apostas dobrassem em 2018.

Criou-se um antagonismo extremo entre o que é a religião cristã e o que é uma posição mais à esquerda. Mas é muito fácil fazer com que o pessoal tenha memória curta. A partir do momento em que as forças mudam, é provável que as alianças se tornem um pouco mais ocultas.

Fala das alianças entre igrejas e um eventual governo Lula? Exato. E eu tô falando dos grandes grupos neopentecostais, que movem muito dinheiro e muita massa. Agora, a maioria das igrejas é pequena, com pastores que não são famosos. O cristão comum vai ter essa ruptura com mais facilidade.

Você vai ter uma liderança mais poderosa tentando criar algum tipo de conciliação com Lula, e em algum momento eles vão achar alguma pauta para tentar uma cobeligerância pacífica. Por outro lado, vai existir um senso de urgência apocalíptica na igreja evangélica comum.

O que é essa urgência? Bolsonaro usou como ferramenta de campanha política a iminência do fim. A ideia sempre era: se a gente tiver mais quatro anos de PT, não aguenta. É agora ou nunca. As igrejas vão ser fechadas, vamos virar a Venezuela, vão ensinar nossas crianças a serem gays, vão trocar o sexo dos nossos filhos na escola. Esse discurso pega algumas pautas às vezes mais radicais e as transforma numa iminência inescapável caso o outro lado seja eleito.

Pode dar exemplos? Existem grupos mais à esquerda promovendo que crianças deveriam receber bloqueadores hormonais para mudar de sexo ainda na menor idade, mesmo sem consenso dos pais. Outra: o PT ficou 14 anos no poder, e o aborto nunca foi legalizado no Brasil. Não é pauta do presidente, é do Congresso. Tem essa questão do que o STF [Supremo Tribunal Federal] pode decidir sobre o tema, e é o presidente quem indica [ministros para a corte].

Mas o discurso do Bolsonaro é: se não votarem em mim, o aborto é legalizado amanhã. Medos razoavelmente legítimos do crente comum chegam ao nível da neurose. E Bolsonaro conseguiu se vender como remédio para isso.

Até que ponto a agenda moral importa para o evangélico numa eleição, quando a situação econômica está um caco? Posso dizer que importa mais. A cabeça do evangélico médio é a da implantação do Reino de Deus por qualquer via. A retenção da imoralidade, de uma perspectiva cristã, parece função do governo. “Ah, tem homossexuais se beijando na rua.” Parece que o governo tinha que impedir algo que eu não gostasse.

Se você entrar na cabeça do evangélico médio, para qualquer pessoa que acredite que o feto já é um ser humano, liberar o aborto é legalizar o assassinato de crianças. Se você perguntar: você prefere uma economia melhor às custas de assassinato?

Agora, outras pautas morais entram por exagero retórico. Quando [pastores] falam em fechamento de igrejas… A gente não está com liberdade religiosa no Brasil em xeque. Não tenho nenhum medo que o governo feche uma igreja. Mas Bolsonaro conseguiu fazer com que o fechamento de templos na pandemia soasse como ameaça à liberdade religiosa.

Você votou no Bolsonaro em 2018? Nos dois turnos.

Votará de novo? Não. E não sou bolsominion arrependido. Nunca fui bolsominion. Sempre votei nele com muitas críticas. Fui colega do Eduardo Bolsonaro na pós-graduação. Eu o vi falando dos primeiros movimentos para o pai galgar à Presidência. A gente achava que era uma piada.

Como que o cara do Superpop [programa da RedeTV! do qual ele participou várias vezes] vai conseguir ser presidente do Brasil? Só que ele cumpriu um papel de contenção, talvez baseado num nível de imaturidade política nossa. Ele era uma das poucas pessoas que falava contra certos exageros da esquerda.

Que exageros? Você tem pautas que Bolsonaro soube usar muito bem. Que sempre rondam o Congresso. Liberação do aborto. Mesmo o juízo moral sobre a homossexualidade. O que cristão não pode é incentivar a violência. Se você não acha que é pecado, vai embora da igreja, tranquilo.

Mas eu entendia todas as limitações do Bolsonaro. Pra mim, ele sempre foi um maluco. Eu dizia: entendo quem vota nele apesar dos seus defeitos, nunca vou entender quem vota por causa dos seus defeitos.

Com Bolsonaro assumindo a Presidência, ele revelou o quanto ele conseguiu ser tão ruim quanto o governo anterior. A gestão da pandemia foi uma coisa que acabou com qualquer possibilidade de interpretar Bolsonaro como candidato viável na perspectiva cristã.

Veja, a má gestão dele mata uma quantidade imensa de pessoas. Se voto num candidato que acho que vai impedir assassinato de crianças [como vê o aborto], e a má gestão deixa crianças sem oxigênio no Amazonas, como posso julgá-lo viável no sentido moral?

Em 2018 foi voto de contenção moral. E 2022? Tenho predileção por candidatos à direita. Felipe D’Avila (Novo) seria a escolha fácil. Mas ando num nível de ateísmo político tão profundo que acho improvável que saia de casa nas eleições.

Alguns pastores dizem que é impossível ser cristão e ser de esquerda. Concorda? Aborto, liberdade religiosa, a própria antropologia sobre quem somos em relação à sexualidade. Aí existe uma incompatibilidade com uma visão mais tradicional do cristianismo.

Agora, se você entrar em pautas mais econômicas, existe algum grau de liberdade para cristãos acreditarem em algum nível de participação do Estado na esfera pública. Claro, pode existir pautas à direita também incompatíveis com o cristianismo. Se pensar em tipos radicais de nacionalismo, tem visões envolvendo tortura, ditadura.

Bolsonaro é autoritário? É um autoritário de direita, o que traz o único benefício de trocar a força autoritária da vez. Você tinha antes a do PT, agora tem a da direita. Sobra menos tempo para o autoritário ficar movendo o Estado a seu favor. Mas é muito triste que a gente tenha que escolher qual é o bandido de ocasião.

Por que o PT é autoritário? O PT conseguiu ser mais fisiologista, para poder se eleger, mas sempre teve uma sanha autoritária. Você percebe pelas pautas no Congresso. Sempre há esses esforços de controle moral, de autocracia social. O Ministério Público e o Estado assumem funções que poderiam ser da família.

O que Lula precisa fazer para reconquistar o voto evangélico? Espero que não consiga. Isso é uma coisa importante de deixar claro. Mas, para conseguir, precisa focar muito mais no econômico do que nos pontos de ruptura. Coisas que até hoje os evangélicos olham muito bem. “Ah, eu comprei meu carro, melhorei de vida, teve a Bolsa tal.”

O sr. foi acusado por colegas de ceder ao progressismo após divulgar um vídeo em que denuncia o acobertamento de abusos dentro das igrejas. Por que alguns temas que deveriam ser universais, como esse, ou da violência doméstica, são enquadrados como papo de esquerda? É um fenômeno psicológico complexo. Em parte, fruto de propaganda política mesmo. A esquerda tenta ganhar, por exemplo, o monopólio da virtude na defesa da mulher. Em vez de grupos à direita dizerem, “mas a gente também defende a mulher, pelo amor de Deus”, interpretam que essa pauta tem um viés. E rebatem: “Ah, mas tem falsa comunicação de estupro”.

Então fica meio que nisso, a esquerda tenta defender mulheres abusadas, e a direita, o homem falsamente acusado. Um tipo de loucura em que a esquerda parece nunca assumir que existe falsa comunicação, enquanto, por outro lado, você tem uma quantidade muito maior de subcomunicação de mulheres violentadas. Por que não se consegue chegar num consenso e dizer, “vamos resolver os dois casos, e este é mais grave do que esse”? A minha impressão é que a ideologia substitui a realidade.​

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