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sexta-feira, abril 12, 2024

Gilberto Gil: “Experimentei de tudo”

Por Veja Abril.

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Gilberto Gil

Nome instalado no panteão da MPB, capaz de passear como poucos por ritmos tão distintos como o samba, o baião, o funk e o reggae, além de pensar sobre as mazelas do país com rara inteligência, Gilberto Gil, que neste mês completa 81 anos, não para de alcançar marcas extraordinárias. Só no último ano, lançou um livro, gravou um reality show e subiu ao palco 48 vezes. Em 16 de junho ele estreia ao lado da família a turnê Nós a Gente, no Rio, e depois segue por mais três capitais. A partir de julho, a turma rodará oito países europeus. Dois meses depois, embala em novo tour internacional, uma incansável agenda que não abala em nada o estado zen de um dos fundadores da tropicália, o movimento que chacoalhou os pilares estéticos no fim dos 1960. À vontade na biblioteca da Academia Brasileira de Letras, onde desde 2022 figura no rol dos imortais, o cantor e compositor baiano deu a VEJA uma entrevista em que, com um vocabulário permeado de neologismos, percorre com franqueza e serenidade sua trajetória de mais de meio século sob os holofotes.

Engatar em tão frenética maratona de shows não o cansa depois de cruzar a fronteira dos 80 anos? A idade pesa, sim, especialmente no palco. A mobilidade e o fluxo energético são diferentes dos 20, 40 anos. Cantar ao lado da família ajuda, ela traz uma leveza. Já tinha experimentado trabalhar com um filho, depois outro, aí vieram os netos. Um dia, Preta, que não vai poder estar conosco agora, soltou a ideia: “Vamos embora, pai, vamos juntar todo mundo numa turnê”. Aquilo ecoou fundo. Além da dimensão afetiva, eles se unem naquilo que é extraordinariamente prazeroso para mim, o significado da minha vida, que é ser músico.

Em junho, começa nova temporada do reality com os Gil. Por que decidiu abrir a intimidade da família nesse grau? Quando um trabalho envolve tantos talentos — de filhos, netos, bisnetos, parentes e aderentes —, a intimidade já está aberta, está na rua. Somos uma família da época atual. Tratamos os vários aspectos da vida de forma aberta, não existem tabus nas conversas, reflexões e escolhas.

Como vem lidando com a doença de Preta Gil, que trata um câncer no intestino? É uma aflição ver uma menina, uma filha que nem tem 50 anos, sofrendo de uma doença apavorante. Falo com a Preta o tempo todo, com os médicos, e leio a respeito. Ela vive cercada pela família e estamos reunindo forças e propósitos para lhe dar o melhor tratamento, renovar sua disposição e sua positividade espiritual. Juntamente a isso, temos de lidar com a ameaça da morte. Tenho dito palavras de resignação em relação àquilo que é inevitável, ao mesmo tempo que buscamos condições para a cura.

Em 1990, o senhor perdeu um filho, Pedro, aos 19 anos, em um acidente de carro. Como convive com essa dor? Foi uma coisa que nos colheu de surpresa. Com o tempo, a ferida cicatriza, mas a memória, a saudade, isso aí não vai embora. A lembrança é presente, está nas fotos, nos momentos vividos com ele.

A fé costuma “faiá”, ao contrário do que diz uma de suas famosas canções? Não costuma “faiá”, não, embora às vezes eu sinta certo afastamento da cobertura protetora, que é a fé. Não tenho religião, mas fragmentos do catolicismo, das iogas, meditações e ideias de Deus que se sucederam ao longo da minha vida. São ingredientes a que recorro e que mitigam a dificuldade de aceitação da morte.

Em um talk show, o senhor indagou ao médico Drauzio Varella se “somos todos bissexuais”. Acredita pessoalmente nisso? Sim, porque somos todos filhos de um pai e de uma mãe, o resultado de uma junção de genes de um e de outro. Portanto, somos todos bissexuais. Agora, o quanto e como isso influencia na condição masculina ou feminina e no exercício da própria sexualidade, aí reside uma variação infinita de possibilidades.

Sua amizade com Caetano Veloso já despertou especulações sobre um possível caso entre vocês. Isso o incomodou? Não. Encarava essas especulações como consequência da nossa proximidade, dos nossos gostos e do encantamento mútuo. Talvez isso pudesse provocar fantasias a respeito do que seriam possíveis “desembocares” de sexualidade entre nós, o que sempre tratamos com naturalidade.

Já se sentiu atraído por algum homem? Atraído como tenho sido pelas mulheres, nunca. Nunca tive tesão num homem, como se diz. No entanto, por razões de delicadeza natural, educação, finura do trato, já tive proximidade com a sexualidade de outro, de outros.

Chegou então a se relacionar com pessoas do mesmo sexo? Sim, e isso não afeta meu modo de ver o assunto na minha vida. Essas questões de amor, amizade, respeito foram possíveis em momentos em que a sexualidade era uma coisa mais vibrante em mim. Como disse, houve épocas em que ela se aproximou de outros, mas nunca na mesma forma como de outras. Para mim, jamais foram coisas iguais.

Numa era de tantos arranjos conjugais, cogitou nestas quatro décadas de casamento com Flora ter um relacionamento aberto? Não. Flora e eu somos abertos ao mundo, mas nunca especulamos nada na direção do sexo livre. Nosso convívio tem uma enorme benignidade. Há uma delicadeza no trato e, para todo mal que surge, a Flora é o próprio remédio.

O senhor já foi alvo de ataques racistas, como ocorreu com o jogador Vini Jr., que deu visibilidade global a essa chaga entranhada na sociedade? Aqui e ali, sim, fui alvo. Vivi um episódio emblemático em São Paulo, quando ainda não era conhecido. Procurei uma imobiliária, visitei um apartamento e decidi fechar negócio. Aí inventaram que havia sido alugado. Era nítido preconceito. À medida que fui me tornando figura pública e me empoderando, essas coisas diminuíram. Apesar de pequenos casos relatados por meus filhos, vejo um recato em manifestarem racismo contra a família Gil. Mas sabemos que ele está aí.

Com o olhar de quem esteve à frente do Ministério da Cultura (2003-2008), na primeira gestão de Lula, como avalia a condução do setor na gestão Bolsonaro? Não dá para fazer uma avaliação porque não havia o mínimo apreço à vida cultural. O que existia era uma visão distorcida do que é o setor e as obrigações do poder público. Prevalecia um desprezo, a cultura era um nada.

O senhor, que experimentou o exílio na ditadura, teve receio de que os pilares democráticos fossem seriamente abalados? A destruição da democracia esteve no horizonte. Mesmo após o governo Bolsonaro, na invasão da Praça dos Três Poderes, em Brasília, esses fantasmas estavam aí.

Teve participação na escolha de Margareth Menezes como ministra? Não. Quando soube, estava indicada. Falei a ela que um ministro da Cultura deve ter um gabinete ambulante, como eu tive, indo ao encontro das pessoas e dialogando o tempo todo com a vida cultural.

Além de apoiar Lula, o senhor é seu amigo. Como avalia sua gestão? Nesses primeiros meses, o vejo lutando com as dificuldades de um governo que não tem o benefício da continuidade, não podia dar prosseguimento a nada daquilo, e ainda enfrenta essa polaridade, para usar a palavra da moda, que tem aspectos nefastos. Como se resolve essa fratura? É um trabalho imenso. As ofensas vindas de bolsonaristas que sofri na Copa do Catar são reflexo desse divisionismo. Enquanto ficarmos nessa história de inimigos, o país perde.

Lá atrás, em 1976, o senhor foi condenado a um ano de prisão, convertido em internação psiquiátrica, por porte de maconha. Ainda faz uso? Como hábito, não. Eventualmente posso dar um tapa. Usei de 1967 até 2010, mas deixei porque passou a me dar uma leve taquicardia. Antes, gostava de fumar para tocar, cantar, compor. Costumo dizer que dois tipos de música não teriam surgido sem a maconha, bossa nova e reggae. Eu tenho poucas canções feitas efetivamente após ter usado maconha. Uma delas é Abra o Olho (que cantarola): “Ele disse: abra o olho, caiu aquela gota de colírio”.

Teve muitas experiências com drogas ilícitas? Nunca gostei de cocaína. Durante o exílio em Londres, no pós-tropicalismo, tomei ácidos. Experimentei tudo que uma viagem lisérgica propicia — o surreal, o surrealismo e o cubismo. Esses experimentos me interessavam na época e se refletiam na atitude musical. Também era um elemento que ajudava na adaptação à vida fora e à atmosfera londrina. Caetano sempre foi “Caretano”, nunca se interessou por essas viagens. Já Rita Lee era parecida comigo, apreciava essas experiências.

Acredita em discos voadores, como dizia crer Rita Lee? Como se fala das bruxas, no creo em discos voadores, pero que los hay, los hay. Não posso dizer que vi coisas palpáveis, mas sombras, fantasmas de discos voadores, sim. Uma dessas visões foi na Bahia, para o lado de Itapoã, e a outra, perto de Brasília, na Estrada de Unaí.

A operação que fez nas cordas vocais, em 2007, lhe deixou sequelas? Deixou. Busquei fonoaudiólogos, terapeutas, mas já havia em mim o resultado do excesso e do mau uso da voz. Abusei dela numa dimensão lancinante de gritos, uivos, enfim, uma extensão animalesca. Hoje, tenho uma voz prejudicada na limpidez, na qualidade, e tive que aprender a adaptar seu uso.

O senhor chegou a afirmar que, ao longo do tratamento de uma insuficiência renal, em 2016, pensou em desistir. Por quê? Era muito pesado, sofrido. Os medicamentos provocavam náuseas permanentes, abundantes, que inviabilizam a vontade de viver. Perdi 15 quilos e aí disse aos médicos: “Desse jeito, não quero mais”. Acabaram mudando o tratamento, melhorei e segui em frente.

O país perdeu recentemente dois ícones da música e o senhor, duas amigas — Gal Costa e Rita Lee. A finitude da vida o assusta? Alguns momentos mais, outros menos, mas volta a assustar com perdas como agora, quando uma menina (Rita Lee), de 75 anos, se vai. A minha vida é um trançado, um crochê com as de Gal e Rita. Nascemos no mesmo tempo na Terra e juntamos os instrumentos que Deus nos deu. Elas se foram, eu fico até sei lá quando. Não me vejo para sempre em grandes espetáculos, mas vou estar no palco eventualmente. Tenho quatro ou cinco músicas inéditas, apenas tocadas, sem letra ainda. Quero estar em conformidade, uma expressão de que gosto — vivendo conforme a idade.

Publicado em VEJA de 7 de junho de 2023, edição nº 2844

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