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Artigo sobre Geoglifos do Acre é destaque em revista internacional

O site ac24agro volta a oferecer o debate sobre os geoglifos. O assunto compõe uma das polêmicas ainda muito mal conduzidas no Acre na relação e no impacto gerado para segmentos importantes da economia regional, com destaque para a Agricultura e para a Pecuária. Os agricultores e pecuaristas rejeitam os geoglifos. Eles os toleram por força de lei e das condicionantes do mercado, alimentadas com informações precisas e quase em tempo real por meio de recursos de monitoramento cada vez mais sofisticados e presentes.

Com essa referência, a sorte foi generosa com o leitor do site, que repercute o denso trabalho do pesquisador Alceu Ranzi, um cientista cujo trabalho é referência mundial, associado a um refinado grupo de estudiosos. O primeiro número da revista “Paleoamazonia”, onde o professor realizou a recente publicação, traz uma extensa análise sobre os geoglifos, assinada pelo professor Alceu. A ideia é apresentar ao leitor informações na expectativa de alimentar a lógica “conhecer para defender; conhecer para proteger”. Como o material é muito extenso, o editor dividiu em duas partes para dinamizar a leitura.

Geoglifos do Acre: paisagem cultural na Amazônia

por Alceu Ranzi

Durante mais de mil anos, a presença, desenvolvimento e trabalho do povo da civilização Aquiry transformaram a região da Amazônia Ocidental de um ambiente natural a uma paisagem antrópico cultural, capaz de sustentar a milhões de almas. (Parsinnen et tal, 2025).

Geografia

Localizado no Sudoeste da Amazônia brasileira, o Estado do Acre limite com o Departamento de Pando, na Bolívia e também com os Departamentos de Pando e Ucayali no Peru.

A área total da área do Acre é de 160.000 Km2 de área e está dividida em 22 municípios. Rio Branco com 350 mil habitantes é a principal cidade e também a capital do Estado. Outras cidades importantes são Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Feijó, Sena Madureira, Xapuri e Brasileia.

A maioria da população do Acre tem suas raízes no Nordeste do Brasil, especialmente o Estado do Ceará. Estas pessoas descendem dos “nordestinos”, atraídos ao Acre com o propósito de extrair o látex, durante o auge da borracha (Martinello, 1988).

Durante o período dos povos indígenas, mestres ancestrais da terra, foram expulsos, erradicados ou assassinados dos locais onde estavam as árvores da seringa (Hevea brasiliensis).

Mas apesar de terem sido quase completamente aniquilados pelas frentes dos primeiros seringueiros, a população original do Acre sobreviveu. Hoje, o Acre é o lar de milhares de pessoas descendentes da população original.

“Há 35 terras indígenas no Acre, que correspondem a 14,56% de todo território do estado. Estas terras indígenas são o lar de povos indígenas de 16 grupos étnicos distintos, a saber: 

jaminawa, manchineri, huni kui, madja, ashaninka, shanenawa, yauanawa, noke koi, kuntanawa, jaminawa-arara.

Com a crise da indústria do látex, no fim dos anos 70, a terra perdeu seu valor e os seringais foram postos à venda. Ao mesmo tempo, o Estado do Acre foi testemunha da chegada de compradores de terras baratas para estabelecer fazendas para criação de gado. Para fazer isto, era necessário derrubar e queimar a floresta e logo plantar os pastos de origem africana, capazes de resistir às condições das regiões equatoriais. Em poucos anos, grande parte da selva tropical se transformou em paisagem tipo savana que abarcava grandes fazendas com milhares de cabeças de gado branco da raça nelore.

Os investidores ricos estavam interessados na terra livre de pessoas. Isto originou um conflito sério entre os compradores de terras e os seringueiros que viviam na floresta. Chico Mendes, um dos principais líderes do movimento para salvar a floresta, foi assassinado em 1988, e isso teve repercussão internacional.

Este foi também o período em que o Museu Goeldi (Brasil) e o Instituto Smithsonian (EUA) começaram um projeto chamado Programa nacional de Investigação Arqueológica na Bacia Amazônica (Pronapaba). Ondemar Dias e Franklin Levy, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foram enviados para realizar investigações arqueológicas no Acre, que nesses tempos ainda tinha poucas áreas desmatadas. Mas, ainda assim, o primeiro ano do trabalho de campo do Pronapaba se notaram estruturas circulares de terra em baixo relevo com muros externos.

Os primeiros geoglifos foram observados em 1977 perto da cidade de Rio Branco e foram tão desconcertantes que a comunicação da comunidade arqueológica só foi feita mais de 10 anos depois da primeira vez que foram avistadas (Dias&Carvalho, 1988).

De todo modo, em 1986 (antes da comunicação oficial por Dias&Carvalho), o grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Acre obteve uma foto aérea de um geoglifo, que também passou despercebida, ainda que a foto tenha sido publicada, junto com uma história de capa, no jornal “O Rio Branco”, que tem o mesmo nome da capital do Estado do Acre (O Rio Branco, 15 de agosto de 1986).

“Alceu Ranzi declarou que atribui os restos pré-históricos que se descobriu a presença de povos indígenas de tempos remotos, equipados com alguma tecnologia. Creio que os indígenas do Acre tinham alguma conexão com a civilização Inca, a qual merece algum estudo, dada a proximidade entre as civilizações”.

Los Geoglifos do Acre só ganharam notoriedade midiática em abril de 2000, com a captura das primeiras imagens coloridas e em alta resolução. Essas fotos foram publicadas primeiro na imprensa do Acre, o que despertou interesse dos principais jornais brasileiros e, imediatamente, foram publicados em importantes revistas e periódicos internacionais. As notícias sobre os geoglifos do Acre rapidamente se difundiram pelo mundo.

Então, começaram a aparecer algumas publicações científicas preliminares (Ranzi &Aguiar, 2001); Ranzi, 2003; Ranzi y Aguiar 2004).

Charles Mann, o aclamado autor do livro “1491”, depois de voar sobre a área dos geoglifos, escreveu que as fotos e notícias sobre os geoglifos do Acre, puseram de cabeça pra baixo a História Antiga das Civilizações Amazônicas (Mann, 2008).

Investigação

No ano de 2005, um importante consórcio de pesquisadores começou um sério estudo cientificamente embasado dos Geoglifos do Acre. Este esforço foi liberado por Denise Schaan (1962- 2018) do Museu Goeldi e da Universidade Federal do Parä (Brasil) e Martti Parssinen da Universidade de Helsinki (Finlândia). O apoio financeiro inicial foi proporcionado pela Academia da Finlândia.

Dezenas de publicações vieram à luz como resultado do trabalho de campo do grupo de pesquisadores reunidos ao redor do Projeto Geoglifos. (Ranzi, Feres&Brown, 2007; Schaan, Ranzi&Parssinen, 2008; Parssinen, Schaan, Ranzi, 2009; Schaan, Ranzi & Barbosa, 2010; Saunaluoma, 2012; Balée, W et al, 2014; Virtanen & Saunaluoma, 2017; Watling, J. et al, 2017; De Souza, J. et al. 2018;  Saunaluoma, Parssinen & Schaan, 2018; Ranzi & Parssinen, 2021).

Ambos, alguns estudantes obtiveram graus de Mestre e Ph.D. tratando os geoglifos sob diferentes abordagens como os de Antropologia, Arqueologia, Geografia, Química de Solos, Botânica e Paleobotânica (e.g. Virtanen, 2007; Ranzi, 2011; Saunaluoma, 2013; Barbosa, 2014; Rampanelli, 2016; Watling, 2017; Pessoa, 2024; Coelho, 2024 e Ferreira, 2024. Desta maneira, o Projeto Geoglifos ajuda a produzir uma valiosa “intelligentsia” para continuar as pesquisas dos geoglifos da Amazônia.

Distribuição geográfica

Os primeiros estudos do Projeto Geoglifos tiveram por objeto entender a distribuição geográfica real destas complexas estruturas de terra, assim como a diversidade de tamanho e forma dos desenhos.

Estes fizeram com que os pesquisadores tivessem que viajar centenas de quilômetros, conduzindo por caminhos com buracos, sem pavimentação e voando dezenas de horas em aviões pequenos, sobre milhares de hectares de florestas tropicais transformadas em savanas, para observar os geoglifos anotando pontos GPS e tirando fotos.

No Estado do Acre, os geoglifos se distribuem principalmente pela chamada “terra firme”, que desde a margem direita do Rio Purus e os afluentes do Iquiri, Acre e Abunã, chegam à margem esquerda do Rio Madeira.

Uma das conclusões foi que as pessoas que construíram os geoglifos pertenciam a uma civilização complexa das terras altas, com vínculos mínimos ao ambiente aquático e com os grande rios. Estas observações romperam o paradigma de que todas as pessoas autóctones da Amazônia dependiam e estavam vinculadas aos grandes rios (Parssinen et al, 2009).

Os Geoglifos também mostram clara evidência da antiga presença dos povoadores amazônicos autóctonos, longe das origens dos grandes rios, estendidos sob uma área que se considerava periférica e sem presença humana.

Seguindo a distribuição do geoglifos no Estado do Acre, podemos extrapolar e dizer que a Amazônia esteve completamente povoada durante vários séculos, ao menos 2000 anos a.C em diante. Heckenberger et al. (1988), estudando o Parque Indigena do Xingu no Norte do Mato Grosso, também chamou a atenção sobre o fato de que na Amazônia só é possível viver ao longo dos rios.

Com todos os dados acumulados ao longo de mais de 20 anos de pesquisas, nos parece que a Civilização Aquiry (“Os Construtores de Geoglifos”) se distribuíram por uma área de quase 200.000 Km2 (Parssinen et al., 2025) com o núcleo principal ao redor da cidade de Rio Branco.

Cerâmica

A cerâmica e os líticos são raros de encontrar durante as escavações dos geoglifos, ou ocorrem em pequenas quantidades. “Alguns fragmentos cerâmicos foram encontrados em todos os sítios de geoglifos inspecionados, mas, em geral, os restos deste material seguem sendo escassos” (Parssinen, 2021).

Uma exceção é o caso do fantástico Tequinho, que produziu mais de 40.000 fragmentos cerâmicos polícromos e não polícromos.

Segundo Parssinen (2021), a cerâmica de Tequinho mostra associações com os estilos antigos tempranos/formativos da Amazônia Ocidental, incluindo as fases sem policromas Shakimu e Hupa-iya de Ucayali. Também se podem inferir algumas semelhanças com as fases Saladoid de Venezuela e Pocó-Açutuba do  Brasil.

Essas conclusões concordam com as análises de Pessoa (2024), que também incluem essas fases da cerâmica encontrada nos assentamentos de terra negra do Alto Rio Madeira, em Rondônia.

Até agora, a cerâmica mais antiga do Acre é a coletada no Ramal Capatará que data do ano 1500 a.C (Saunaluoma & Schaan, 2012).

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