O Jornal Gazeta do Povo, em sua edição do dia 22/12/2025, destaca que a utilização de resíduos da mandioca — como folhas, caules e subprodutos do processamento — pode diminuir significativamente o custo da alimentação de bovinos no Brasil, apresentando uma alternativa economicamente vantajosa em comparação com insumos tradicionais como milho e soja (Gazeta do Povo: https://www.gazetadopovo.com.br/busca/?q=Sobras+da+mandioca+derrubam+custo+da+alimenta%C3%A7%C3%A3o+bovina)
A matéria destaca que o aproveitamento desses resíduos, são ricos em proteínas (até 28%), fibras e carboidratos, oferecendo valor nutricional relevante para ruminantes. Além do mais, esses subprodutos podem substituir parte de alimentos energéticos e protéicos usualmente usados em dietas de bovinos confinados, como o milho, que hoje é a base da alimentação em mais de 98% das propriedades brasileiras.
A matéria destaca ainda que ao aproveitar essas sobras, produtores podem reduzir gastos com alimentação animal — um dos principais componentes do custo de produção no confinamento — e ao mesmo tempo gerar renda com um recurso até então pouco explorado. Especialistas destacam que, com cortes sucessivos das partes aéreas da mandioca e manejo adequado, é possível obter múltiplas colheitas de massa verde nutritiva ao longo de um ciclo (podendo até oito cortes em dois anos), aumentando a eficiência da produção de alimento animal.
Apesar do potencial, a prática ainda é pouco difundida por falta de conhecimento técnico na cadeia produtiva. A iniciativa foi destaque na Feira Internacional da Mandioca (Fiman), onde pesquisadores e produtores discutiram seu uso. A Fiman 2025, foi realizada de 25 a 27 de novembro de 2025 na cidade de Paranavaí, no estado do Paraná (PR). O evento aconteceu no Parque Internacional de Exposições Costa e Silva, reunindo produtores, pesquisadores, indústrias e investidores da cadeia produtiva da mandioca para debates, inovação, negócios e troca de tecnologias.
Mandioca em queda relativa pode ajudar a reduzir custos da pecuária no Acre
Apesar de seguir como um dos pilares da produção rural do Acre, a mandioca vem perdendo participação no Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) nos últimos anos. Dados do Ministério da Agricultura (MAPA) mostram que, em 2025, a cultura gerou R$ 452,1 milhões, o equivalente a 11,5% do VBP estadual, abaixo dos 15,9% registrados em 2023, quando a produção alcançou R$ 481,5 milhões.
Ainda assim, a mandioca permanece como o segundo produto mais importante da agropecuária acreana, atrás apenas da pecuária bovina, que respondeu por 69,9% do VBP em 2025, com R$ 2,75 bilhões. A queda relativa da mandioca, portanto, não decorre de perda de relevância estrutural, mas de problemas históricos de aproveitamento econômico, fata de inovações tecnológicas, sobretudo no processamento e no destino das sobras da produção.
Grande parte da mandioca produzida no estado é destinada à fabricação de farinha e derivados artesanais. Nesse processo, volumes significativos de ramas, folhas, cascas e resíduos industriais acabam sendo descartados ou pouco utilizados. É justamente nesse ponto que surge uma oportunidade estratégica para o Acre: o uso desses subprodutos como insumo na alimentação bovina.
Como vimos, experiências debatidas recentemente da Fiman, apontam que resíduos da mandioca possuem alto valor nutricional, podendo substituir parcialmente insumos tradicionais como milho e soja, reduzindo o custo da ração animal. Para um estado em que a pecuária domina a economia rural, mas enfrenta custos elevados com alimentação suplementar e logística de insumos externos, essa alternativa ganha relevância.
A integração entre a produção de mandioca e a pecuária permitiria transformar perdas recorrentes em ganho de eficiência, fortalecendo sistemas produtivos locais, especialmente na agricultura familiar. Além de reduzir desperdícios, a estratégia pode ampliar a renda no campo sem necessidade de expansão de áreas, contribuindo para um modelo mais sustentável.
Em um cenário de forte concentração do VBP na pecuária, dar novo destino econômico às sobras da mandioca pode ser um passo decisivo para reduzir custos, aumentar a competitividade do setor e fortalecer a economia rural do Acre de forma integrada.
A mandioca é a base econômica, social e cultural da pequena produção familiar no Acre.
Ela sustenta milhares de agricultores por meio da produção de farinha e derivados artesanais, especialmente no Vale do Juruá. Mesmo diante de uma queda superior a 50% na produção em seis anos, a cultura mantém elevada relevância por sua forte inserção na agricultura familiar e por garantir segurança alimentar, renda e permanência no campo.
Os dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA/IBGE) mostram que, apesar da retração produtiva, o Acre apresenta desempenho técnico superior à média nacional: o rendimento médio por hectare foi 46,6% maior que o do Brasil em 2024 e cerca de 40% superior em 2025, nesse quesito, no ranking dos estados brasileiro o Acre perde somente para o Paraná e São Paulo. Esse diferencial evidencia que o problema central não está na capacidade produtiva do agricultor familiar, mas na falta de assistência técnica, políticas de apoio e valorização da cadeia da mandioca, eixo estruturante que chamo de “agronegócio do pobre” no Acre.
A experiência apresentada pela Gazeta do Povo e debatida na FIMAN 2025 reforça que a inovação no agro brasileiro passa, cada vez mais, pelo uso inteligente de recursos já disponíveis. No caso do Acre, essa agenda dialoga diretamente com a sua realidade produtiva. A mandioca, apesar da perda recente de participação no Valor Bruto da Produção, permanece como pilar econômico, social e cultural da agricultura familiar, com elevada produtividade por hectare — superior à média nacional — e ampla capilaridade territorial, especialmente no Vale do Juruá.
O desafio central não está na capacidade produtiva dos agricultores, mas na ausência de políticas de integração, assistência técnica e inovação no aproveitamento das sobras da cadeia da mandioca. Transformar ramas, folhas e resíduos do processamento em insumo para a alimentação bovina representa uma oportunidade concreta de redução de custos da pecuária, fortalecimento da renda rural e diminuição de desperdícios. Trata-se de uma estratégia capaz de conectar o principal produto da agricultura familiar ao principal vetor econômico do campo acreano: a pecuária bovina.
Ao integrar mandioca e pecuária, o Acre pode avançar em um modelo mais eficiente, inclusivo e sustentável, valorizando o que historicamente sustenta sua economia rural. Dar novo destino econômico às sobras da mandioca não é apenas uma alternativa técnica, mas um caminho estratégico para fortalecer a pequena produção rural do Acre, reduzir desigualdades produtivas e ampliar a competitividade da agropecuária acreana de forma integrada.
Aos leitores, desejamos um Feliz 2026, com saúde, paz e novas oportunidades. Que o novo ano traga esperança renovada, diálogo qualificado e avanços concretos para o desenvolvimento do Acre e da Amazônia. Em 2026, seguiremos firmes no compromisso de manter nossa coluna semanal, analisando e debatendo a economia acreana com base em dados, reflexão crítica e foco nos desafios e potencialidades do nosso estado. Agradecemos a companhia ao longo do ano passado e contamos com vocês em 2026, para continuar construindo juntos um espaço de informação, análise e debate público.
Orlando Sabino escreve às quitas-feiras no ac24horas

