Após mais de vinte anos de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia inaugura uma nova etapa nas relações comerciais entre os dois blocos e reposiciona o Brasil no tabuleiro geoeconômico internacional. Mais do que um tratado tarifário, trata-se de um marco estratégico que amplia mercados, atrai investimentos e cria novas exigências competitivas, com potenciais desdobramentos também para economias regionais como a do Acre.
Representa uma das mais importantes transformações na geoeconomia do início da década de 2020, demarcando um novo patamar nas relações comerciais entre duas grandes regiões econômicas do mundo. Após mais de duas décadas de negociações, a assinatura deste tratado — descrita como um verdadeiro “divisor de águas” — abre um espaço ampliado para o Brasil.
Conforme análise da Embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, efetuado para o Jornal Folha de São Paulo do dia 17/01/2026, o Brasil pode ampliar tanto a oferta de seus produtos no mercado europeu quanto para atrair investimentos, tecnologia e cooperação em setores estratégicos como biocombustíveis, economia circular, digitalização e inovação industrial. Ao estabelecer normas claras, redução gradual de tarifas e previsibilidade jurídica, o acordo cria um ambiente mais competitivo para empresas brasileiras, sobretudo em setores onde o país possui vantagem comparativa, reforçando o Brasil como parceiro global relevante e integrando sua indústria e agroindústria às cadeias internacionais de valor. Essa relação renovada com um bloco de mais de 700 milhões de consumidores e com elevado poder aquisitivo é uma oportunidade para diversificar mercados, ampliar exportações de produtos com maior valor agregado e intensificar fluxos de investimento estrangeiro direto.
Para o Acre, embora as oportunidades sejam mais indiretas, o acordo também pode gerar impactos positivos relevantes. A integração com o mercado europeu tende a impulsionar a demanda por commodities brasileiras tradicionais no bloco — como soja e produtos florestais, que já são exportados pelo estado e que podem encontrar condições tarifárias mais favoráveis com o novo acordo — fortalecendo a participação acreana nas exportações para a UE. Além disso, cadeias produtivas com potencial de agregação de valor (como madeira beneficiada, derivados de castanha e produtos agrícolas certificados por rastreabilidade ambiental) podem se beneficiar da maior visibilidade e exigências de padrões de sustentabilidade que o mercado europeu valoriza. O Acre, inserido em uma economia que busca crescimento sustentável, pode ganhar espaço em nichos de mercado ligados à bioeconomia, manejo florestal sustentável e certificações verdes, aproveitando a abertura construída pelo tratado para ampliar seu desempenho exportador e diversificar seus produtos com maior valor agregado no comércio internacional.
O comércio exterior do Acre com a União Europeia
A tabela a seguir, evidencia que o comércio exterior do Acre com a União Europeia manteve-se estruturalmente superavitário entre 2020 e 2025, consolidando o bloco como parceiro relevante na geração de divisas para o estado. As exportações oscilaram de US$ 8,4 milhões, em 2020, para um pico de US$ 16,4 milhões, em 2022, recuando para US$ 12,6 milhões em 2025, mas permanecendo em patamar superior ao início da série. As importações, por sua vez, apresentaram valores bem menores e mais voláteis, com destaque para 2023, quando atingiram US$ 2,3 milhões, após níveis inferiores a US$ 1 milhão nos anos anteriores.

Como resultado, o saldo comercial foi amplamente favorável ao Acre em todo o período, variando de US$ 7,9 milhões em 2020 para US$ 15,6 milhões em 2022, mantendo-se elevado em 2024 (US$ 15,1 milhões) e alcançando US$ 11 milhões em 2025. Os dados do MINDIC/Secex indicam, portanto, que a União Europeia tem funcionado como importante mercado gerador de superávits comerciais para o estado, reforçando sua relevância estratégica no comércio exterior acreano.
Quanto à composição da pauta das exportações, a soja consolidou-se como o principal produto exportado para a União Europeia, sobretudo a partir de 2023. Em 2025, apenas Espanha, Itália e Países Baixos somaram mais de US$ 9,5 milhões em compras de soja acreana, com destaque para a Espanha (US$ 5,15 milhões) e Itália (US$ 2,93 milhões). Em 2024, Alemanha e Grécia também apareceram como destinos relevantes do grão. Ao lado da soja, a madeira — tanto serrada quanto perfilada — mantém presença estrutural ao longo de todo o período, especialmente entre 2020 e 2022, quando França, Bélgica, Países Baixos e Portugal registraram volumes expressivos. A castanha-do-Brasil reaparece com força em 2025, com destaque para a Alemanha (US$ 792 mil), além de registros anteriores nos Países Baixos e Itália. Produtos como milho, couros, miudezas e carnes tiveram participações pontuais e de menor peso relativo.
No recorte por países, a Espanha se destaca como principal parceiro europeu recente, concentrando grandes volumes de soja e mantendo compras de madeira. A Itália também ganha relevância com soja em 2025, além de registros históricos de castanha e couros. Os Países Baixos figuram como hub comercial importante, alternando compras de soja, madeira, castanha e milho ao longo dos anos. A Bélgica aparece com regularidade na madeira serrada e perfilada, especialmente entre 2020 e 2022. A França teve forte participação no ciclo da madeira, com picos superiores a US$ 1,8 milhão em 2022 no segmento de madeira perfilada. A Alemanha surge como destino estratégico para castanha em 2025 e, anteriormente, para soja e madeira.
Em síntese, a União Europeia permanece como mercado estratégico para o Acre, combinando dois eixos centrais da economia estadual: o agronegócio de grãos, liderado pela soja, e a base florestal, com madeira e castanha. A oscilação recente na participação percentual do bloco reflete menos perda de mercado e mais a reconfiguração geográfica das exportações acreanas, que vêm ampliando destinos e produtos, mas continuam encontrando na UE um comprador relevante de commodities agrícolas e florestais.
Os dados do comércio exterior mostram que a União Europeia já ocupa posição estratégica para o Acre, com superávits consistentes e pauta concentrada em soja e produtos florestais. O novo acordo tende a aprofundar essa inserção, mas seu impacto dependerá da capacidade de agregar valor, cumprir padrões ambientais e diversificar a produção. Em outras palavras, o tratado abre portas — caberá ao Brasil e ao Acre transformarem essa oportunidade geoeconômica em desenvolvimento sustentável e competitivo.