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A perda da Supercopa fala pouco sobre o que será o 2026 do Flamengo

O futebol brasileiro conseguiu algo notável: dar um ar nobre a torneios que em outros países são secundários. É o caso da Copa do Brasil e também da Supercopa, o que revela o mérito de promover espetáculos, mas também a imaturidade nacional para, diante do peso das rivalidades e dos nossos comportamentos histriônicos após finais ganhas ou perdidas, saber lidar com os resultados. É justamente este ruído que vai cercar o Flamengo.

É possível debater se o planejamento para a retomada das competições foi o melhor, se as escolhas para o jogo de Brasília foram ideais, ou mesmo se a reação ao cartão vermelho de Carrascal poderia ter tido a imediata entrada de jogadores com maior capacidade de cobrir grandes porções de campo. Tudo isso são discussões que um jogo de futebol comporta.

Ocorre que a derrota para o Corinthians já desencadeou decretos que ignoram o contexto alucinante deste início de ano no Brasil. A temporada tem 20 dias, tempo suficiente para que clubes tenham jogado clássicos seguidos, lidem com ameaças absurdas de rebaixamento em Estaduais, sejam cobrados sem que os atletas estejam prontos. No caso do Flamengo, o elenco principal iniciou os treinos há três semanas e começou a jogar há 10 dias, período em que fez quatro jogos com seus principais jogadores. E já há especulações sobre acomodação pelos títulos de 2025 e até sobre a capacidade de Filipe Luís de fazer crescer o time multicampeão do ano passado.

Tal alucinação é tipicamente brasileira. O Flamengo pode sofrer de qualquer um destes males, porque eles fazem parte do esporte e da vida. Mas, até aqui, não há elementos suficientes para qualquer decreto. Tudo é incipiente, nada do que ocorreu significa algo além de times de futebol reiniciando as disputas, sujeitos às aleatoriedades de um calendário que não comporta uma pré-temporada com prazos razoáveis. O Flamengo perdeu um Fla-Flu marcado por times mesclados, foi melhor do que o São Paulo em um dos tempos no Morumbi e, na Supercopa, não jogava mal até sofrer o gol de Gabriel Paulista ou ter Carrascal expulso. Mas o tom da abordagem a Filipe Luís na coletiva era o de um time em crise. Talvez seja um sinal de algo com que será confrontado o Flamengo de 2026: uma expectativa dura de realizar.

Em Brasília, o Corinthians apostou numa marcação individual, na busca por vencer duelos e ligar rapidamente jogadas com Yuri Alberto e Memphis, apostando no excelente Breno Bidon para levar o time adiante. O Flamengo buscava manipular esta marcação e encontrar passes diretos para Pedro receber de costas para o gol. Faltava algo de ataque à profundidade, jogadores se colocando em zonas de finalização, esta sim uma questão da formação deste elenco, que talvez possa ser atacada até o fim da janela.

As melhores chances haviam sido rubro-negras, num jogo equilibrado até uma perda de bola revelar qual era a grande ameaça ao Flamengo: o espaço para Breno Bidon conduzir contragolpes. Foi dele a arrancada que terminou no escanteio do primeiro gol corintiano. E foi dele a construção da chance de Memphis, em lance salvo por Rossi.

Depois, o jogo foi condicionado pela tola expulsão de Carrascal, um cartão justo, mas cuja demora puniu o Flamengo com a perda do intervalo para se reordenar com dez homens. Ainda assim, o time teve a bola na segunda etapa, mas novamente faltou algo de profundidade. Paquetá perdeu grande chance, até o Corinthians aproveitar os espaços dados por um rival já exposto.

A perda da Supercopa talvez dê pistas sobre o momento competitivo do Flamengo após 20 dias de temporada. Mas fala pouco sobre o que será o 2026 do clube. Já a histeria em torno do placar, esta retrata o ambiente de um futebol intolerante a frustrações e avesso aos processos.

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