O desastre do episódio da escola de samba Acadêmicos de Niterói e a consolidação de Flávio Bolsonaro junto ao eleitorado de centro-direita, mais consistente e rápida do que o entorno de Lula esperava, acenderam a famosa luz vermelha no Planalto e no PT. A volta de Lula vai ditar uma aceleração das definições de campanha e uma mudança de rumos na estratégia que vinha sendo traçada.
É consenso que o desgaste causado pelo enredo do Carnaval junto a evangélicos e conservadores foi grande. Na exumação dos erros, aliados de Lula veem com certo alívio o fato de ter-se evitado que ele, Janja ou ministros desfilassem, o que evidenciaria crime eleitoral, mas o erro político é admitido e creditado ao próprio presidente, que tomou a decisão de ir ao Rio.
A ordem é, com a volta de Lula da Coreia, acelerar as definições da chapa presidencial e dos palanques nos Estados, sobretudo São Paulo e Minas, os mais intrincados e estratégicos. A possibilidade de Geraldo Alckmin perder seu lugar como vice é bem menos ventilada em Brasília que nas elucubrações que dirigentes partidários fazem em conversas com jornalistas. A parceria entre os dois é vista como sólida por quem acompanha o dia a dia do governo, e a aposta é que Lula não fará nada que o vice não queira.
Também a hesitação de Fernando Haddad de aceitar a missão de ser candidato a governador de São Paulo é minimizada no núcleo que pilota mais de perto a estratégia da campanha. O ministro da Fazenda terá de aceitar que vem sendo preparado para ser o sucessor de Lula, e que existe um caminho até lá que inclui ajudar na disputa do presidente no Estado mais decisivo da eleição, a base eleitoral de ambos.
Por fim, há uma avaliação de que foi um erro a ideia de deixar Flávio Bolsonaro correr solto, sem confrontação, enquanto ainda persistia alguma dúvida sobre se Tarcísio de Freitas seria candidato. O raciocínio segundo o qual o filho de Bolsonaro seria mais fácil de derrubar lá na frente, com munição estocada até meados do ano, não levou em conta que ele seria rapidamente aceito pelo eleitorado de direita, o que deve facilitar também sua metabolização pela classe política, facilitando alianças.
“Não existe vácuo, espaço vazio na política, e qualquer candidato que viesse com a chancela de Bolsonaro chegaria logo a 40% num segundo turno”, avaliou, em caráter reservado, um auxiliar do presidente nesta segunda-feira.
A decisão, portanto, é começar a “depositar atributos” negativos no pote de Flávio, que até aqui tem jogado sem marcação, desde já, e não só quando a campanha começar para valer.
Por fim, o repique de rejeição de Lula é visto como reversível. O eixo da campanha será mostrar que o presidente estaria “do lado do povo brasileiro”, em contraposição ao chamado “andar de cima”, no qual estaria o crime organizado instalado em escritórios poderosos do mundo financeiro e também da política.
Nessa linha, a ordem é deixar a Polícia Federal estourar o que houver para aparecer no Caso Master, que não afetaria Lula e seu núcleo mais próximo. Eis uma aposta arriscada: pode implicar no divórcio definitivo com o Centrão e na implosão de pontes com o STF, um ator que foi relevante para enfraquecer o bolsonarismo nos últimos três anos.

