A Justiça argentina acusou o ex-funcionário do presidente Javier Milei que chefiava a agência responsável pelo atendimento a pessoas com deficiência, além de outras 18 pessoas, de terem recebido propinas e desviado recursos do órgão, segundo documentos judiciais publicados nesta segunda-feira. A Agência Nacional de Deficiência (Andis) foi extinta em dezembro após denúncias de corrupção que atingiram a irmã do presidente, Karina Milei.
De acordo com uma decisão à qual a AFP teve acesso, um juiz federal acusou o ex-diretor da Andis, Diego Spagnuolo, por suposto recebimento de propina, fraude contra o Estado e associação criminosa entre 2023 e 2025. O magistrado também determinou o indiciamento de outras 18 pessoas, entre servidores da Andis e particulares, e ordenou o bloqueio de bens de todos os envolvidos.
“Ficou comprovada a existência de uma organização criminosa integrada por agentes públicos dentro da Andis e atores privados do setor de saúde”, afirmou a decisão, acrescentando que “essa organização se dedicou a desviar recursos públicos por meio de compras direcionadas e superfaturamento”.
O caso veio à tona em agosto, após a divulgação de áudios atribuídos a Spagnuolo nos quais ele afirmava que Karina Milei, secretária-geral da Presidência, recebia 3% do valor pago pela agência na compra de medicamentos.
Spagnuolo renunciou ao cargo dias depois. Inicialmente, o presidente afirmou que o ex-diretor mentia nos áudios, embora depois Spagnuolo tenha alegado à Justiça que os arquivos foram manipulados. Ainda assim, a Promotoria manteve a acusação com base em outras provas.
Os áudios não foram utilizados como prova pelo Ministério Público nem pelo juiz e não são mencionados na decisão, que se fundamenta em documentos obtidos em buscas e apreensões e em depoimentos colhidos durante as investigações.
Karina Milei não figura entre os acusados. No entanto, segundo o juiz, as provas indicam que o esquema de corrupção na Andis “não se tratou de algo isolado” e “pode envolver outros níveis de cumplicidade”, que ainda devem ser investigados.
— A investigação da Andis confirma ponto por ponto o que denunciamos — afirmou à AFP o advogado Gregorio Dalbón, responsável pela denúncia criminal apresentada em agosto.
— O governo nacional, e em especial aqueles que têm responsabilidade política sobre a área, precisam dar explicações urgentes — acrescentou Dalbón, que também atua como advogado da líder opositora e ex-presidente Cristina Kirchner (2007–2015) em outros processos.
O governo dissolveu a Andis em dezembro e transferiu as funções de assistência do órgão para o Ministério da Saúde.
Desde que Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, a Andis vinha passando por uma auditoria que permitiu identificar dezenas de milhares de beneficiários irregulares.
O processo provocou interrupções nos serviços e gerou reclamações de beneficiários, que realizaram diversas manifestações de rua exigindo mais recursos para a entidade, em meio a um severo ajuste orçamentário.

