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Por que um vídeo com IA em que Tom Cruise luta contra Brad Pitt assustou Hollywood?

Por Redação Juruá em Tempo.18 de fevereiro de 20265 Minutos de Leitura
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Bastaram 15 segundos de um vídeo mostrando Tom Cruise e Brad Pitt trocando socos no topo de um prédio em ruínas, ao entardecer, para provocar indignação imediata — e um temor considerável — em Hollywood nos últimos dias.

O vídeo amplamente compartilhado foi criado pelo diretor irlandês Ruairi Robinson usando o Seedance 2.0, uma poderosa ferramenta de geração de vídeos por inteligência artificial pertencente à empresa chinesa de tecnologia ByteDance. A produção tinha diversos elementos típicos de um filme de grande orçamento: movimentos de câmera elaborados, coreografia de dublês, efeitos sonoros nítidos e trilha sonora atmosférica.

Com um comando de apenas duas frases e o clique de um botão, o Seedance entregou um resultado impressionantemente realista — um salto significativo em relação a vídeos anteriores gerados por IA, muitas vezes criticados pela baixa qualidade. A verossimilhança foi tamanha que gerou condenação quase imediata de algumas das principais organizações e empresas de Hollywood.

Rhett Reese, roteirista conhecido pelos filmes “Deadpool”, afirmou em entrevista que o vídeo com Cruise e Pitt lhe causou um “arrepio na espinha”.

— Para todos nós que trabalhamos na indústria e dedicamos nossas carreiras e vidas a ela, acho que isso é simplesmente aterrorizante — disse. — Consigo imaginar isso eliminando empregos por toda parte.

A ByteDance lançou o Seedance 2.0 na semana passada, quase dois meses após uma versão anterior não ter provocado grande reação negativa. Em comunicado, a empresa elogiou a “precisão física, realismo e capacidade de controle” da ferramenta atualizada, afirmando que ela atende às demandas de “cenários criativos de nível profissional”.

“O processo de criação é mais natural e eficiente, permitindo que os usuários controlem suas produções como um verdadeiro ‘diretor’”, acrescentou o texto.

Usuários rapidamente passaram a testar a plataforma. Um final alternativo de “Game of Thrones” viralizou, assim como um vídeo dos rappers Kendrick Lamar e Drake — conhecidos por rivalizarem — fazendo as pazes no “The Tonight Show”, além de outro em que Samara Morgan, a garota vingativa da franquia de terror “O Chamado”, sai de uma televisão antiga para acariciar um gato.

O próprio Robinson publicou novos vídeos, incluindo cenas de Pitt e Cruise enfrentando um robô e outra em que Pitt duela com uma “ninja zumbi” armada com espada.

Enquanto isso, Hollywood reagiu prontamente. Charles Rivkin, presidente e CEO da Motion Picture Association, pediu que a ByteDance “cesse imediatamente suas atividades infratoras”, afirmando em nota que o Seedance 2.0 utilizou obras protegidas por direitos autorais sem autorização “em escala massiva”. A Human Artistry Campaign, coalizão global que defende o uso da IA “com respeito aos artistas, intérpretes e criativos insubstituíveis”, declarou nas redes sociais que as criações não autorizadas violam “os aspectos mais básicos da autonomia pessoal”.

A Disney, que no ano passado fechou um acordo de US$ 1 bilhão permitindo que usuários do Sora, da OpenAI, gerem vídeos com seus personagens, enviou uma notificação extrajudicial à ByteDance. A empresa acusou a plataforma de alimentar o Seedance com uma “biblioteca pirateada” de personagens da Disney — “como se a valiosa propriedade intelectual da Disney fosse clip art de domínio público”.

A ByteDance, que também é proprietária do TikTok e foi avaliada em US$ 480 bilhões no mercado privado, afirmou em comunicado que respeita os direitos de propriedade intelectual e está ciente das preocupações em torno do Seedance.

“Estamos tomando medidas para reforçar as salvaguardas atuais enquanto trabalhamos para impedir o uso não autorizado de propriedade intelectual e da imagem de indivíduos por parte dos usuários”, informou a empresa.

Como demonstra o acordo firmado no ano passado entre Disney e OpenAI, Hollywood vem há anos tentando lidar com o avanço acelerado da inteligência artificial generativa. As preocupações expressas por Reese ecoam a greve do Sindicato dos Roteiristas em 2023, quando milhares de profissionais exigiram que os estúdios estabelecessem garantias contra a substituição de seus empregos ou o uso indevido de suas criações por IA. Ao final, o sindicato conquistou garantias de que a tecnologia não afetaria créditos e remuneração dos roteiristas.

Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo nacional e principal negociador do sindicato dos atores (SAG-AFTRA), afirmou que os contratos da entidade incluem regras específicas e aplicáveis sobre replicação digital. Segundo ele, um conteúdo como a luta entre Cruise e Pitt “não poderia ser produzido por nenhum dos signatários de nossos contratos — estúdios ou plataformas de streaming — sem o consentimento específico e informado dessas pessoas”.

Para Crabtree-Ireland, a principal preocupação é que, mesmo que vídeos gerados por plataformas como o Seedance “não tenham intenção maliciosa”, eles podem “violar o direito de alguém de controlar como sua imagem, sua aparência e sua voz são utilizadas”.

Nem todos, porém, se mostram impressionados com a nova tecnologia. Heather Anne Campbell, produtora executiva e roteirista da série animada “Rick and Morty”, disse que suas redes sociais foram inundadas com vídeos criados pelo Seedance, mostrando animes, ficção científica e batalhas improváveis de super-heróis. Ainda assim, afirmou que não teme perder o emprego para a ferramenta.

— Todo mundo está, acho, empolgado com o circo que chegou à cidade e está fazendo demonstrações — afirmou. — Ainda não vi nada realmente bom. Nada que tenha me tirado o fôlego, nada tocante, nada provocativo. É tudo lixo.

Campbell acrescentou que serviços de IA como o Seedance são, no máximo, “máquinas de fazer média”, e argumentou que as maiores obras de arte nunca foram produzidas de forma rápida ou impessoal.

Mesmo assim, há quem em Hollywood tenha dificuldade de imaginar que os estúdios não enxergarão a IA como uma forma de reduzir custos.

— Seria mais barato ter a IA escrevendo um roteiro do que eu escrever um roteiro — disse Reese. — Eu sei que, no fundo, é daí que vem o terror.

Para ele, uma solução de longo prazo para o desconforto provocado pela IA não pode demorar.

— Se eu pudesse balançar uma varinha mágica e fazer a IA desaparecer, pelo menos no campo criativo eu balançaria essa varinha sem hesitar”, afirmou.

Por: The New York Times.
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