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Tânia Maria fala sobre novos projetos, vontade de ir ao Oscar e sucesso após os 70

“Nem sei o que é Oscar”. Foi o que disse Tânia Maria em entrevista ao GLOBO em setembro do ano passado, dois meses antes de ter sua vida virada de ponta-cabeça com o lançamento de “O agente secreto” nos cinemas brasileiros. Desde então, muita coisa coisa mudou na vida da artesã potiguar de 79 anos. A agenda está lotada de compromissos, tanto de campanhas publicitárias como de novos projetos como atriz, e ela já sabe muito bem o que é o Oscar, premiação em que o longa de Kleber Mendonça Filho concorre em quatro categorias: melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco, com Gabriel Domingues, e melhor ator, com Wagner Moura.

— Quero ir para o Oscar. Não sabia o que era, mas agora já sei e quero ir — conta dona Tânia, que recebeu a notícia das indicações ao filme em meio a uma consulta médica. — Eu estava em Natal, na consulta de retorno após a cirurgia de catarata. E me emocionei. Eu chorava, eu ria, foi bom demais receber uma notícia boa dessas.

No momento, a atriz, que já está com a documentação necessária para a viagem em dia, passa por um tratamento de saúde para realizar o sonho de comparecer ao Oscar, que acontece no dia 15 de março em Los Angeles, na Califórnia. Com histórico de fumante até 2025, Tânia lida com uma doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), que exige uma bateria de exames, além de acompanhamento regular, para garantir que ela tem condições de suportar a viagem aos Estados Unidos.

“Tive a honra de receber no consultório, Dona Tânia Maria. E essa estrela do cinema é exatamente como parece: generosa, espirituosa e extremamente gentil. Ex-tabagista, com muitos anos de exposição ao cigarro, ela me procurou para investigar e tratar a DPOC com a atenção e o cuidado que a condição exige. (…) O Brasil inteiro torce para ver Dona Tânia no Oscar. Como a viagem de avião é longa, seguiremos avaliando com responsabilidade se ela poderá realizá-la com segurança. Estarei ao lado dela nesse processo”, explicou a pneumologista Zaida Cavalcanti em publicação nas redes sociais.

Pelo trabalho como dona Sebastiana em “O agente secreto”, Tânia Maria conquistou, no início do mês, o troféu de melhor atriz coadjuvante em premiação da International Cinephile Society, organização formada por críticos de cinema, jornalistas, acadêmicos e historiadores. O assédio por parte de fãs, agências de publicidade e novos realizadores só fez crescer desde o lançamento do filme, mas ela grande que sua vida continua do mesmo jeitinho.’

— Recebo muito carinho das pessoas. É bom demais ser reconhecida pelo trabalho que a gente fez. Não esperava tudo o que está acontecendo, mas sigo vivendo minha vida normal. Continuo na minha casa, na minha rede (em Cobra, povoado de Parelhas, no Rio Grande do Norte) — conta Tânia, que segue trabalhando como artesã e produzindo tapetes e kits de banheiro para complementar a renda.

Sem se deixar deslumbrar, a atriz descreve como “normal” experiências como a CCXP, onde foi aplaudida em um painel com milhares de fãs. Na ocasião, só não fingiu costume ao conhecer Fernanda Montenegro nos bastidores do evento paulista realizado em dezembro.

— Foi uma grande emoção quando nos encontramos. Ela chorava, eu chorava. Eu nem conseguia falar, como se tivesse uma trava dentro do peito. Mas me trouxeram um copinho de água e foi quando consegui falar — lembra Tânia. — Ela me aconselhou e disse: “Idade não quer dizer nada, não desista, o que vier para você, abrace”.

‘Não sou velha’

E dona Tânia concorda com dona Fernanda:

— Quem faz a idade é a pessoa. Completei 79 anos e não sou velha. Não quero ser velha, quero ficar me renovando.

A vida de atriz chegou tarde para Tânia. Ela tinha 72 anos quando fez sua estreia nas telas, como uma figurante de destaque em “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A experiência lhe deu uma segunda família e vários novos projetos. Além do reencontro com Kleber em “O agente secreto”, ela voltou a trabalhar com Leonardo Lacca no documentário “Seu Cavalcanti” (2024) e com Tiago Melo em “Yellow cake” (2026), drama rodado em Picuí, no sertão da Paraíba, e que foi exibido recentemente no Festival de Roterdã. Lacca e Melo atuaram como diretor de elenco e produtor associado de “Bacurau”, respectivamente.

Além de “Yellow cake”, Tânia tem vários projetos inéditos, como a série “Delegado”, dirigida por Lacca e produzida por Kleber e Emilie Lescaux, que estreia este ano no Canal Brasil. Ela também estrela o curta “O dilema das rosas”, de Miguel Victor, e os longas “Almeidinhia”, de Gustavo Guedes e Julio Castro, e “A adoção”, de Allan Deberton, ainda inéditos.

— Tinha uma personagem do meu novo projeto e precisava de uma atriz com a capacidade de imprimir empatia em uma curva com variáveis dramáticas não tão simples de conquistar. Dona Tânia foi incrível. Concentrada, preocupada em acertar, ela foi inteira do início ao fim. Depois de filmar, se mostrou totalmente grata e feliz: “Eu quero fazer mais cinema”. Adorei trabalhar com ela — conta Deberton, diretor cearense conhecido pelo trabalho em “Pacarrete” (2019) e que acaba de apresentar seu novo longa, “Feito pipa”, na programaçaõ do Festival de Berlim

‘Instagram estourado’

Estrela de campanhas de marcas importantes, Tânia Maria conta que fazer publicidade “é a mesma coisa que fazer cinema, você precisa decorar, estudar, só é mais rápido”. Com mais de 130 mil seguidores nas redes sociais, a atriz se diverte com a presença on-line e revela se dedicar a acompanhar todas as mensagens que recebe.

— Meu Instagram está estourado — ri a atriz. — Tenho mais de cem mil seguidores. Eu acompanho tudinho, todo dia dou uma olhadinha. As pessoas só dizem coisas boas, não tem nenhum comentário ruim.

E o sucesso não está restrito às redes. Quem curtiu o carnaval nos últimos dias muito provavelmente se deparou um alguma versão de Tânia Maria em blocos e festas pelo Brasil. A atriz inspirou blocos, fantasias e ganhou sua versão como Boneco de Olinda, mas preferiu ficar mais resguardada durante a folia, se poupando de olho no Oscar.

Técnica ao decorar falas

A atriz fala com gratidão sobre o momento especial de sua vida.

— “O agente secreto” significa tudo para mim. Dona Sebastiana foi inspirada na minha vida. Kleber fez pensando em mim e na minha vida. Eu sou a dona Sebastiana — fala. — Quem vem na minha casa sabe que eu sou daquele jeito. Eu gosto de acolher, de soltar piada, sou respondona.

Tânia Maria em cena de "O agente secreto" — Foto: Divulgação / Victor Jucá
Tânia Maria em cena de “O agente secreto” — Foto: Divulgação / Victor Jucá

Apesar do início tardio na profissão, Tânia conta que não tem qualquer dificuldade em decorar seus textos. Ela adota a técnica que aprendeu com o preparador de elenco Leonardo Lacca, a quem trata como um neto. Recebe o texto e se coloca a transcrevê-lo várias vezes até decorá-lo. O único problema é quando o diretor altera o texto depois de decorado, como aconteceu em “O agente secreto”. Ainda assim, a atriz é só elogios ao diretor e roteirista.

— O Kleber é um diretor que a gente nem tem o que falar. Ele é um homem mil. Todo mundo queria um diretor como ele — diz a atriz, que também aprendeu muito com Wagner Moura, seu colega de elenco. — É muito fácil trabalhar com o Wagner. Ele é um grande professor, me ensinou que, quando a gente fazia uma cena, se eu me adiantasse, era para continuar que a gente fazia dar certo. Construímos uma amizade grande, foi excelente.

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