Em mais um capítulo da apuração que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre possíveis irregularidades na conduta do ex-juiz Sergio Moro durante sua passagem pela 13ª Vara Federal de Curitiba, surgem novas declarações impactantes do ex-deputado estadual Tony Garcia.

Vídeos gravados pela própria Justiça Federal, obtidos e revelados pela colunista Daniela Lima em sua coluna no UOL, mostram Garcia em conversa com a juíza Gabriela Hardt — que sucedeu Moro na vara — afirmando que não atuava meramente como delator premiado, mas como “informante” direto do então magistrado, hoje senador pelo União Brasil.
De acordo com as gravações, Garcia alega ter tido autonomia para solicitar interceptações telefônicas de alvos de interesse das investigações. Ele descreve ter trabalhado “diuturnamente, por 24 horas”, durante dois anos e meio, com um agente da inteligência da Polícia Federal à disposição para pedir segurança e grampos que “colaborassem com a Justiça”.
Garcia relata ainda que Moro o convocava com frequência para discutir os rumos das apurações e orientava a busca por novos delatores. Em um trecho destacado, ele menciona ter usado inclusive o telefone da 13ª Vara para contatar alvos e ter levado uma “pessoa-chave” a firmar acordo de colaboração, evitando sua prisão em troca de informações — incluindo supostas contas no exterior.
Essas afirmações reforçam as suspeitas que motivam o inquérito no STF: a de que Moro teria utilizado delatores para alcançar alvos que, por prerrogativa de foro, estariam fora da competência da Justiça Federal comum do Paraná, incluindo autoridades com foro privilegiado. A investigação apura possíveis abusos de autoridade, coação e uso indevido da estrutura judicial.
A coluna de Daniela Lima, que vem acompanhando o caso de perto, já havia revelado anteriormente que Moro solicitou e recebeu diretamente das mãos de Tony Garcia o grampo do então presidente do Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR), Heinz Herwig, em contexto que a PF considera irregular.
Procurado pela reportagem original do UOL, Sergio Moro classificou as acusações como baseadas em “relatos fantasiosos” de Tony Garcia, um “criminoso condenado”. Ele destacou que a colaboração de Garcia com o MPF e a Justiça remonta a 2004-2005 e já se encerrou há anos, e que não teve acesso aos autos do inquérito para se manifestar sobre o material específico.
A defesa de Moro tem reiterado em outras ocasiões que não houve irregularidades e que as alegações carecem de provas concretas. O caso, que ganhou força com buscas e apreensões autorizadas pelo STF na antiga vara da Lava Jato em Curitiba, continua a levantar questionamentos sobre os limites da atuação judicial na operação que marcou a história recente do Brasil — e sobre o papel de delações premiadas em investigações sensíveis.

