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Tráfico internacional no Acre tem empresários atuando como “investidores anjo”, diz Polícia Civil

Por Redação Juruá em Tempo.2 de fevereiro de 20265 Minutos de Leitura
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As investigações da Polícia Civil do Acre indicam que o tráfico internacional de drogas que atravessa as fronteiras do estado com o Peru e a Bolívia conta, cada vez mais, com o financiamento de empresários locais que atuam como verdadeiros “investidores anjo” do crime organizado. A constatação foi feita pelo coordenador da Divisão Especializada de Investigações Criminais (DEIC), Pedro Paulo Buzolin, em entrevista ao ac24horas.

Segundo o delegado, a participação de pessoas com elevado poder aquisitivo no tráfico não é um fenômeno novo, mas passou a ser mais visível à medida que as investigações avançaram para além dos chamados “transportadores” ou “mulas”, geralmente indivíduos em situação de vulnerabilidade social. “Sempre foi assim. A diferença é que antes a polícia chegava só em quem estava com a droga na mão. Você apreende alguém que não tem nem casa própria transportando um carregamento avaliado em milhões. Aquela droga não é dela. Alguém pagou. Hoje optamos pelo foco não no interrompimento do fornecimento de um carregamento só, mas conseguimos alcançar quem financia”, afirmou.

De acordo com o coordenador da DEIC, os financiadores geralmente são pessoas que já possuem patrimônio consolidado, como fazendas ou empresas legalmente constituídas, e enxergam o tráfico como uma forma de multiplicar rapidamente o capital, considerando que sairão impunes porque não mantêm contato direto com a droga. “É alguém que não precisa daquilo para sobreviver, mas quer um retorno alto e rápido. Investe, por exemplo, R$ 800 mil e, se der certo, volta com alguns milhões. Na cabeça deles, acreditam que não vão cair porque não pegaram no entorpecente, só colocaram o dinheiro”, explicou.

As investigações também revelam que, mesmo após operações policiais e prejuízos financeiros, esses grupos costumam se reorganizar. Conversas interceptadas mostram reclamações sobre perdas, prisões e apreensões, seguidas por tentativas de rearticulação das rotas e esquemas. “Eles comentam entre si quando uma carga cai, quando um grupo é desarticulado. Falam: ‘porra, vou sair porque tá ruim’. Às vezes dão um tempo, mas depois voltam”, relatou.

Foto: delegado Pedro Paulo Buzolin I Whidy Melo/ac24horas

Um exemplo do investimento de capital limpo para lucro sujo através de tráfico de drogas é o desmontado pela operação Héstia, em 2021, numa ação integrada do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) e da Polícia Civil. Entre os 15 alvos de mandado, estava o empresário Érico Batista de Souza, proprietário de uma empresa de extintores de incêndio, e um traficante do Rio de Janeiro. Após a prisão de Érico, a defesa dele tentou impetrar habeas corpus por sua liberdade, e argumentou que havia “o mesmo é primário, humilde, honesto e trabalhador”. Apesar dos argumentos da defesa, segundo as investigações, o grupo criminoso ao qual ele pertencia movimentou mais de R$ 43 milhões em suas contas bancárias durante o período investigado.

Pedro Buzolin ressaltou que o perfil dos “investidores” é difícil de identificar, pois os criminosos são homens e mulheres que transitam em todas as camadas da sociedade. “Bandido não tem cara. Pode ser alguém que ninguém desconfia, uma casa comum, uma empresa regular. Às vezes tem ligações políticas ou institucionais, às vezes não, mas em geral são pessoas que não precisariam recorrer à prática criminosa. Tem muita mulher envolvida também”, afirmou.

Mudança na dinâmica do tráfico e nas rotas

Buzolin destacou ainda que o tráfico de drogas no Acre mudou significativamente na última década, acompanhando transformações tecnológicas e sociais. Antes, o estado era majoritariamente rota de entrada; hoje, também funciona como corredor de passagem para outros estados. “Maconha que antes ficava aqui, hoje desce e segue viagem. A droga passa pelo Acre, mas o dinheiro faz o caminho inverso. Considerando as possibilidades, no entanto, para transporte de grandes volumes, as organizações optam por inserir duas drogas percorrendo outras rotas, por fora do país, já que a estrutura policial da Bolívia e do Paraguai é menor”, explicou.

Apreensão deixou de ser fim e virou começo da investigação

Segundo o coordenador da DEIC, a redução no volume total de drogas apreendidas, apontada em dados nacionais, não significa necessariamente menor atuação do tráfico. Para ele, os números de 2024 e 2025 tendem a se manter dentro da média histórica. O diferencial está na forma de atuação das forças de segurança. “A apreensão de drogas não é o final da investigação, é o começo”, afirmou.

A estratégia atual é explorar toda a cadeia logística: quem financiou, de onde veio, para onde ia e quem realmente lucrava. Grande parte do entorpecente que passa pelo Acre tem como destino outros estados brasileiros. Com isso, a repressão passou a mirar o patrimônio dos envolvidos. “Às vezes você apreende uma carga de R$ 1 milhão, mas o sujeito tem um patrimônio de R$ 10 milhões construído com o tráfico. Antes ficava só na droga. Hoje buscamos casas, fazendas, bens”, explicou.

Para Buzolin, essa mudança de filosofia é essencial para atingir o núcleo financeiro do crime organizado. “Se ficássemos só no flagrante, nunca chegaríamos ao financiador, ao operador financeiro. É explorando cada apreensão até a última gota de informação que conseguimos chegar onde antes parecia impossível”, concluiu.

Por: AC24horas.
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