A troca de afagos entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Pablo Marçal no ato de filiação deste segundo ao União Brasil sinalizou que os embates entre o influenciador digital e o bolsonarismo, explicitados nas eleições de 2024, são página virada.
Neste texto, a IstoÉ ouve especialistas para explicar o potencial dessa reconcilicação para os dois personagens e explica a mudança de comportamento do grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que historicamente descartou desafetos na direita.
Brigas do passado
Pré-candidato à Presidência da República, Flávio faltou ao evento do União Brasil por razões médicas, mas enviou um vídeo em que chamou o novo aliado de “guerreiro” e disse contar com ele para a “guerra espiritual” que travará na campanha contra o presidente Lula (PT), utilizando termos conhecidos do vocabulário do ex-coach.
Marçal, por sua vez, disse estar “à disposição” para contribuir com a campanha de Flávio, sendo ou não candidato em outubro — para isso, precisará reverter sua inelegibilidade com recursos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O influenciador ainda mencionou a presença do presidenciável em uma de suas mentorias, no final de 2025, quando a reaproximação foi selada.
O gesto restabelece uma relação rompida nas eleições de 2024, quando o grupo de Bolsonaro, em especial o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o pastor evangélico Silas Malafaia, atacaram Marçal na medida em que o ex-coach, então candidato à prefeitura de São Paulo, avançou sobre o eleitorado da direita e ameaçou a ida do prefeito Ricardo Nunes (MDB), apoiado pela família — e que acabou reeleito –, ao segundo turno.
O líder religioso chamou Marçal de “psicopata” e o ex-presidente chegou a ironizar o ex-coach em comentário nas redes sociais. “Nós? Um abraço“, respondeu Bolsonaro a um comentário em que Marçal sinalizava relação entre os dois. O então candidato à prefeitura disse que o ex-presidente deveria “tocar a vida” e, mesmo sem adesão formal do grupo, saiu das urnas com mais de 1,7 milhão de votos, na terceira posição.
Marçal amplia alcance da direita nas redes
Mais do que a quantidade, Marçal demonstrou alcance em setores do eleitorado paulistano que o bolsonarismo não conseguiu atrair. No primeiro turno, o ex-coach foi o mais votado nas regiões de São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo, Ponte Rasa, Parque do Carmo e Teotônio Vilela, onde Lula teve maioria dos votos contra Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial de 2022.
Na esfera digital, território que o bolsonarismo alavancou a partir de 2018, quando o ex-presidente se elegeu com 16 segundos de propaganda eleitoral, Marçal também mostrou força. Entre 2022 e o pleito de 2024, ganhou 10 milhões de seguidores e, na campanha municipal, pautou a estratégia digital dos oponentes com a publicação de cortes e conteúdos acusatórios, muitas vezes quebrando as regras — como na promoção de um “concurso de cortes” entre seus seguidores, razão pela qual o Tribunal Regional Eleitoral tornou-o inelegível até 2032.
“Marçal tirou a centralidade do que o candidato faz e deslocou para o que o apoiador faz. É a lógica de uma campanha distribuída, em que o conteúdo nasce na base e se espalha de forma orgânica. Nesse modelo, o candidato funciona mais como gatilho do que como emissor único da mensagem“, avaliou Marcello Natale, estrategista digital de campanhas políticas e sócio da Bn3 — Marketing Baseado em Números.

Senador Flávio Bolsonaro visita o pai na Superintendência da PF, em Brasília
Para o estrategista, a campanha do filho mais velho de Bolsonaro poderá usufruir da lógica de explorar os atos do presidenciável para mobilizar a audiência nas redes. “A campanha mais eficiente é aquela que consegue transformar seus apoiadores em produtores permanentes de conteúdo. Considerando o potencial de mobilização de sua base, Bolsonaro foi mal nas redes na última eleição”, afirmou à IstoÉ.
O ‘bolsonarismo 2.0’
Mesmo com o potencial de ganho político, Marçal é um ex-desafeto que volta a habitar o terreno do bolsonarismo, o que é novidade no grupo. Anteriormente, políticos como o ex-governador de São Paulo João Doria e a ex-deputada federal Joice Hasselmann foram alvo da artilharia digital bolsonarista após protagonizarem desafetos com o ex-presidente ou seus filhos e não voltaram a disputar ou ganhar eleições.
Para a cientista política e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) Thaís Pavez, a mudança é gerada por um novo momento político. “O bolsonarismo enfrentou uma derrota eleitoral e tem seu principal líder preso e inelegível. Então, há necessidade de integrar essa espécie de ‘bolsonarismo 2.0’, que surgiu com Marçal“, afirmou à IstoÉ.
“A entrada grande do Marçal entre os jovens, que são atraídos por esse discurso antissistema, de empreendedorismo e prosperidade financeira, é um ativo eleitoral a ser usado por Flávio“, acrescentou a cientista política. Uma pesquisa Atlas Intel publicada em fevereiro mostrou que 29,4% dos eleitores de 16 a 24 anos têm intenção de votar no senador para presidente, mas 15,9% pretendem votar em branco ou anular o voto, o que indica o campo a ser explorado no grupo.