Cuba vive um momento crítico que, mais uma vez, coloca a relação diplomática com os Estados Unidos em terreno instável. Um apagão generalizado na segunda-feira, 16, deixou praticamente toda a ilha sem energia elétrica, afetando cerca de 10 milhões de pessoas em meio a uma crise agravada pelo bloqueio de petróleo imposto por Donald Trump.
A operadora estatal de rede elétrica anunciou que a energia estava sendo retomada em alguma regiões do país na terça-feira, 17, pouco mais de 24 horas após o colapso. Nesse tempo, Trump elevou o tom e afirmou que poderia “fazer o que quiser” com Cuba e que seria uma “honra” assumir controle sobre a ilha.
As sinalizações do americano ocorrem em meio a uma fase conturbada da política externa dos EUA. Além de capturar e destituir o presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, a gestão de Trump iniciou uma empreitada contra o Irã durante as últimas semanas — chegando a assassinar o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
A crise que causou o apagão
O apagão que deixou Cuba às escuras é resultado de um estrangulamento energético em curso. A rede elétrica nacional entrou em colapso deixando cerca de 10 milhões de pessoas sem luz, em um sistema considerado dependente de combustível importado. Na raiz da crise está a interrupção quase total do fornecimento de petróleo — Cuba está há meses sem receber carregamentos regulares de combustível, após os Estados Unidos intensificarem o bloqueio energético e ameaçarem sanções contra qualquer país ou empresa que tente abastecer a ilha.
Historicamente dependente do petróleo venezuelano, Cuba perdeu sua principal fonte de energia após a ofensiva americana sobre Caracas e o bloqueio de navios petroleiros destinados à ilha. Sem alternativa viável de fornecimento, o sistema elétrico — baseado majoritariamente em usinas termelétricas — entrou em colapso progressivo
A crise energética rapidamente transborda para outros setores. Sem diesel e gasolina, o transporte público e a logística de alimentos são afetados. A produção agrícola diminui, o abastecimento de água se torna irregular e hospitais passam a operar com limitações. Em muitos casos, cortes de energia ultrapassam 16 horas diárias, aprofundando o desgaste social.
Trump exige renúncia de presidente cubano

Combinação de imagens dos presidentes de Cuba, Miguel Díaz-Canel (à esquerda), dos Estados Unidos, Donald Trump — AFP/Arquivos
A crise econômica vem acompanhada de exigências políticas. Segundo a Associated Press, o governo dos EUA pressiona por mudanças estruturais em Cuba, incluindo a saída do presidente Miguel Díaz-Canel — herdeiro da gestão de Fidel e Raul Castro — e reformas no sistema político. Autoridades cubanas rejeitam qualquer interferência e insistem que negociações só ocorrerão com respeito à soberania nacional.
De acordo com informações do jornal The New York Times, autoridades americanas deixaram claro a negociadores cubanos que não haverá progresso nas tratativas enquanto Díaz-Canel permanecer no cargo. O governo de Havana chegou a anunciar que cubanos emigrados poderão investir e abrir seus próprios negócios na ilha em diversos setores, incluindo o bancário. Porém, segundo o secretário de Estado americano, Marco Rubio, os recados “não são drásticos o suficiente”.
A ofensiva não ocorre isoladamente e faz parte de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos, com destaque para as ações semelhantes na Venezuela e tensões em outras regiões. Analistas ouvidos por agências internacionais apontam que Washington tenta reafirmar controle geopolítico no hemisfério ocidental, especialmente diante da aproximação de Cuba com países como Rússia e China.
Briga antiga e legado castrista
(4 fev) O presidente de Cuba participa de entrevista coletiva em Havana (reprodução de vídeo) – CUBA TV/AFP
A crise atual é mais um capítulo de uma relação historicamente conflituosa. Desde a Revolução Cubana, em 1959, os Estados Unidos mantêm embargo econômico e tentativas recorrentes de isolar o regime socialista do resto do mundo. Mesmo com mudanças formais no governo, o poder em Cuba segue ligado à estrutura construída pela família Castro. Raúl se sustenta como figura de referência dentro do Partido Comunista e das Forças Armadas, instituição decisiva no controle político e econômico do país.
A continuidade também se expressa pelo neto do ex-presidente: Raúl Guillermo Rodríguez Castro — conhecido como “El Cangrejo” (O Caranguejo). Ele não ocupa cargo formal no governo de Díaz-Canel, mas é apontado como peça relevante dos bastidores e do Ministério do Interior. Relatos de órgãos de imprensa internacionais indicam ainda que “Raulito” teria atuado como interlocutor de Cuba em reuniões confidenciais com assessores de Marco Rubio.