O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar denúncias de invasão à Terra Indígena Huni Kuin (Kaxinawá) Seringal Independência, localizada no município de Jordão, no interior do Acre. A investigação busca verificar a atuação de grileiros e madeireiros acusados de desmatar áreas da floresta, retirar madeira nobre e instalar estruturas para criação de gado dentro do território indígena.
As denúncias foram apresentadas por organizações indígenas da região e indicam que a área já pode ter cerca de 200 hectares de floresta derrubada, o equivalente a mais de 250 campos de futebol. Segundo relatos das lideranças, além do desmatamento, os invasores teriam construído instalações no local, incluindo moradia, acesso à internet e estruturas para manter mais de 600 cabeças de gado.
De acordo com informações encaminhadas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) ao MPF, análises de imagens geoespaciais já apontavam, desde agosto de 2025, a expansão de áreas desmatadas dentro da terra indígena. O órgão afirma que a situação representa dano significativo aos direitos territoriais do povo Huni Kuin e ao equilíbrio ambiental da região. A fundação informou ainda que disponibilizou agentes para planejar uma ação conjunta em resposta às denúncias feitas pelas comunidades.
A liderança indígena Siã Huni Kuin, responsável por cerca de 37 aldeias na região, afirma que os invasores têm explorado principalmente madeiras consideradas “de lei”, como aguano e cedro, valorizadas no mercado por sua resistência e durabilidade. Segundo ele, as atividades ilegais incluem ainda a caça de animais silvestres com o uso de cães, prática identificada durante vistoria realizada por representantes indígenas na área.
A denúncia mais recente foi formalizada pela Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (Askarj), responsável juridicamente pela Terra Indígena Seringal Independência e por outras áreas indígenas da região. De acordo com o relatório da entidade, parte da madeira retirada ilegalmente foi transportada pelo Rio Jordão no início de janeiro de 2026.
O caso também é acompanhado pela Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj). O coordenador da entidade, Francisco Pyãko, alerta para a pressão crescente de atividades ilegais na região de fronteira com o Peru, incluindo exploração madeireira, garimpo e até presença do crime organizado.
Além da investigação sobre a invasão, o MPF também acompanha o cumprimento de uma decisão judicial que determinou à Funai a instalação de placas para sinalizar os limites da terra indígena. A medida foi determinada após ação movida pelo órgão em 2023 e tem como objetivo reforçar a proteção territorial e prevenir novas invasões.
*Com informações O Globo

