Apenas quatro dias após o início do conflito, a guerra com o Irã tornou-se desgastante. Ondas de ataques com drones lançados pela República Islâmica vêm pressionando as defesas dos Estados Unidos e de seus parceiros, do Bahrein aos Emirados Árabes Unidos, esgotando estoques de armamentos. O desfecho do confronto pode depender de qual lado ficará sem munição primeiro.
Drones de ataque unidirecional Shahed-136, pequenos e rudimentares mísseis de cruzeiro, continuaram a atingir alvos no Oriente Médio na segunda-feira. Nos últimos dias, os equipamentos atingiram bases americanas, infraestrutura petrolífera e prédios civis, após o início, no sábado, dos ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã, uma ofensiva que incluiu mísseis de cruzeiro, drones e bombas guiadas de precisão.
Segundo os Emirados Árabes Unidos, os mísseis de defesa aérea Patriot, fabricados nos EUA, têm sido amplamente bem-sucedidos na interceptação dos Shahed iranianos e de outros mísseis balísticos, com taxas superiores a 90%. Mas o uso de mísseis de US$ 4 milhões para derrubar drones de US$ 20 mil expõe um problema que preocupa estrategistas ocidentais desde o início da guerra na Ucrânia: armas baratas podem consumir recursos destinados a ameaças muito mais complexas.
O resultado é que tanto o Irã quanto os Estados Unidos podem ficar com estoques reduzidos em questão de dias ou semanas. Quem conseguir sustentar a campanha por mais tempo terá vantagem significativa.
Os aliados regionais do Irã foram severamente enfraquecidos pela guerra em Gaza, e suas capacidades de mísseis já haviam sido atingidas em confrontos anteriores com Israel e os EUA em um conflito de 12 dias em junho. Desde então, Teerã passou a enfatizar alertas sobre as consequências e os custos de um eventual ataque ordenado pelo presidente americano, Donald Trump, ciente de que parte de sua base política é contrária a guerras prolongadas. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, morto nos ataques aéreos de sábado, havia advertido que uma ofensiva americana poderia desencadear uma conflagração regional.
— A estratégia de desgaste faz sentido operacional do ponto de vista do Irã — diz Kelly Grieco, pesquisadora sênior do centro de estudos Stimson Center. — Eles calculam que os defensores vão esgotar seus interceptadores e que a vontade política dos países do Golfo diminua, pressionando EUA e Israel a encerrar operações antes que o Irã fique sem mísseis e drones.
Segundo uma análise interna consultada pela Bloomberg News, os estoques de mísseis interceptadores Patriot do Catar durariam quatro dias no ritmo atual de uso. Doha tem pressionado discretamente por um fim rápido do conflito.
Em nota, o Escritório Internacional de Comunicação do Catar afirmou que o “estoque de mísseis interceptadores Patriot das Forças Armadas do Catar não foi esgotado e permanece bem abastecido”.
O Irã era estimado em possuir cerca de 2.000 mísseis balísticos após o conflito do ano passado com Israel. É provável que tenha um número bem maior de drones Shahed. A Rússia, outro importante fabricante, tem capacidade de produzir centenas desses equipamentos por dia, segundo análise da especialista em defesa Becca Wasser.
Teerã lançou mais de 1.200 projéteis desde o início do conflito deste ano, muitos — possivelmente a maioria — do tipo Shahed. Isso pode indicar que o país esteja preservando seus mísseis balísticos mais destrutivos para ataques prolongados, acrescentou Wasser.
Eli Cohen, integrante do gabinete de segurança do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, afirmou que a campanha conjunta de EUA e Israel impediu o Irã de lançar centenas de mísseis e drones. Israel disse que, até segunda-feira, havia destruído cerca de 150 lançadores de mísseis.
— Nos últimos dias, estamos vendo operações contra os lançadores e ataques para bloquear os túneis de onde esses equipamentos deveriam emergir — declarou à rádio do Exército. — O objetivo é criar supremacia aérea e reduzir os disparos contra o Estado de Israel.
Segundo o chanceler iraniano Abbas Araghchi, as Forças Armadas do país estariam atuando sem coordenação próxima ou frequente com a liderança civil, incluindo o Ministério das Relações Exteriores.
— Nossas unidades militares estão agora, de fato, independentes e de certa forma isoladas, atuando com base em instruções gerais previamente dadas — disse Araghchi em entrevista à Al Jazeera no domingo.
Do lado americano, Wasser afirmou que é improvável que os planejadores militares tenham deslocado munição suficiente para sustentar quatro semanas de operações na região, como estimou o presidente Donald Trump.
— Isto não é o Iraque, isto não é algo interminável — afirmou o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em entrevista coletiva na segunda-feira.
Defensivamente, o Irã tem poucas opções de combate. Os ataques aéreos nas primeiras horas da guerra atingiram baterias de defesa antiaérea do país, incluindo sistemas russos S-300. Desde então, aviões americanos e israelenses operam no espaço aéreo iraniano sem relatos de dificuldades.
Os EUA e seus parceiros regionais utilizam principalmente sistemas de defesa aérea Patriot da Lockheed Martin Corp., que disparam mísseis PAC-3. Embora o Pentágono tenha pressionado para aumentar a produção, apenas cerca de 600 mísseis PAC-3 foram construídos em 2025, segundo a Lockheed.
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também operam o sistema de Defesa Terminal de Área de Alta Altitude (THAAD, na sigla em inglês), da Lockheed, projetado para interceptar mísseis mais avançados e velozes na borda da atmosfera. Cada míssil custa cerca de US$ 12 milhões.
Os EUA também usaram patrulhas de caças equipados com mísseis do Sistema Avançado de Armas de Precisão (APKWS), que custam de US$ 20 mil a US$ 30 mil cada, além dos custos operacionais dos jatos.
Sistemas dedicados especificamente à defesa contra drones são menos comuns na região. O uso de lasers, canhões automáticos ou até outros drones pode ser uma alternativa mais barata para proteger cidades e instalações, preservando sistemas mais caros para ameaças maiores.
O sistema a laser Iron Beam, desenvolvido pela empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems, foi projetado para enfrentar esse tipo de ameaça, mas as Forças de Defesa de Israel afirmaram na segunda-feira que ele ainda não foi utilizado no conflito.
Se a intensidade atual dos ataques iranianos continuar, os estoques de mísseis PAC-3 na região podem atingir níveis perigosamente baixos em poucos dias, segundo uma fonte com conhecimento do assunto. Se as armas ofensivas também se esgotarem, o conflito pode entrar em impasse.
— Enquanto isso, o estoque de mísseis e drones do Irã pode diminuir, e o regime pode permanecer intacto, ainda que em meio ao caos — afirma Ankit Panda, pesquisador sênior da Carnegie Endowment for International Peace. — Esse parece ser um desfecho provável com base nas primeiras 60 horas desta guerra.

