Com a desistência de Ratinho Junior e o encaminhamento para Ronaldo Caiado ser o presidenciável do PSD, que ainda tem Eduardo Leite como opção, o partido dará início à pré-campanha com patamar inferior de intenções de voto, já que o paranaense performava melhor que os correligionários. Defensores da candidatura do governador de Goiás, contudo, afirmam que ele tem atributos com mais apelo junto ao eleitorado, sobretudo o discurso focado na segurança pública. Também tenderia a atrair apoios no universo do agronegócio, setor no qual Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta resistências. Um dos desafios, porém, é justamente conseguir tirar votos que iriam para o filho do ex-presidente.
Embora a decisão por Caiado não tenha sido anunciada oficialmente, o ex-governador de Santa Catarina Jorge Bornhausen disse que o PSD já o definiu como candidato a presidente. Bornhausen faz parte da comissão política do partido para a escolha. O presidente da sigla, Gilberto Kassab, se reúne hoje com Leite.
— A comissão por unanimidade escolheu Caiado — disse Bornhausen ao GLOBO.
Prós e contras
Ratinho aparecia próximo aos dois dígitos nas pesquisas. Caiado e Leite não passam de 4%. O Paraná também é o estado com maior colégio eleitoral entre os três, o que dava a Ratinho base maior que a dos demais — com diferença pequena em relação ao Rio Grande do Sul, mas bem acima de Goiás.
O goiano é considerado o mais à direita dos que tentavam se viabilizar no partido. Tanto que já representava o campo político em 1989, na primeira eleição presidencial pós-ditadura, quando terminou em nono lugar na disputa. Bem antes do boom do agro nas últimas décadas, era desde então um porta-voz do setor.
Quando intensificou publicações e pronunciamentos nacionais, na esteira da candidatura que parecia encaminhada, Ratinho adotou motes genéricos, como a ideia de “destravar o Brasil”. Não é um político de embate, e mesmo as críticas ao presidente Lula e os acenos ao bolsonarismo soam mais polidos.
Já Caiado, histórico opositor do petista, é lido como alguém indubitavelmente da raia da direita. O goiano, segundo interlocutores, apostará muito no discurso da segurança pública, por exemplo, alegando que acabou com a criminalidade em Goiás e que é possível replicar o feito na esfera nacional.
Durante o processo de definição do candidato do PSD, Leite e Ratinho sempre foram considerados as opções mais “neutras” do partido. Já o governador de Goiás, segundo pessoas envolvidas no projeto, poderá soar mais atraente para o eleitorado da direita. Ao mesmo tempo, enfrenta a dificuldade de convencer esse eleitor de que é melhor votar nele do que em um candidato de sobrenome Bolsonaro.
Ratinho, por causa da popularidade do pai na TV, o apresentador Ratinho, era considerado um nome capaz de acessar nichos lulistas, além de atrair o eleitor “nem-nem”.
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— Do ponto de vista narrativo, o Caiado tem um discurso mais ideológico. Bom lembrar que foi um dos primeiros candidatos à presidência depois da ditadura, em 1989, e travou embate com Lula sobre reforma agrária. Tende a se apresentar com narrativa até mais radical do que Flávio Bolsonaro, que está tentando se apresentar como moderado — avalia o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV EAESP, para quem a alteração pouco muda o tamanho do PSD no jogo nacional.
O partido de Kassab nunca teve candidato próprio à Presidência. Uma das principais características da sigla são as divisões regionais. Há um PSD com inclinação para o bolsonarismo, outro simpático a Lula e alas mais neutras, como o próprio Leite. Mesmo que siga adiante com a candidatura de Caiado ou do gaúcho, a tendência é que os diretórios estaduais sejam liberados para apoiar o presidenciável que acharem mais conveniente.
Palanque regional
Um dos maiores medos de Ratinho era ter um resultado ruim no próprio estado na eleição presidencial. Um fator que agravava esse risco era a candidatura do senador Sergio Moro ao governo do Paraná pelo PL, com apoio de Flávio Bolsonaro.
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Moro, segundo aliados do governador, não só atrapalha Ratinho para emplacar o sucessor, como tem potencial de impulsionar o bolsonarismo no estado. Assim, havia o temor de que, apesar de aprovado por mais de 80% da população, o chefe do Palácio Iguaçu acabasse esquecido no voto para o Planalto.
— Ele entendeu que deveria declinar por motivos familiares, questões locais de política. Não é que pegou de surpresa: é natural isso, as pessoas vão se definindo e às vezes mudam (de posição) — disse ontem Kassab.
No entorno de Flávio, a avaliação é de que Ratinho teve um erro de cálculo ao rechaçar com veemência a possibilidade de ser vice do herdeiro de Jair Bolsonaro na eleição. A recusa, no meio de março, levou a uma intensificação do movimento do PL rumo a Moro.
Caiado tem uma conjuntura local mais controlada para emplacar o sucessor. O atual vice-governador e candidato apoiado por ele, Daniel Vilela (MDB), lidera as pesquisas.
Esse controle maior do jogo local, associado à alta aprovação — 88% em agosto do ano passado, segundo a Quaest —, também permite que Caiado vislumbre um bom desempenho no próprio estado na eleição presidencial. Leite é menos consensual no Rio Grande do Sul, com 58% de aprovação em agosto, e o cenário local está mais indefinido.
Ratinho tinha o melhor desempenho, entre os pessedistas, nas últimas pesquisas nas simulações de segundo turno contra Lula, além do patamar maior no primeiro. No Datafolha, chegava a aparecer em empate técnico com o petista no confronto direto. Caiado, na mesma sondagem, registrou dez pontos a menos que o petista, e Leite, 12 pontos.
Ontem, um dia após a desistência do filho, o apresentador Ratinho publicou foto de apoio com ele: “Estou com você, meu filho, em todos os momentos”, escreveu.

