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‘Muito além das flores’: 8 de março exige mais do que homenagens vazias

O Dia Internacional da Mulher, oficializado pela ONU em 1975, é muito mais do que uma data no calendário ou um convite a homenagens vazias. É um marco que nasce do sangue, das cinzas e de uma resistência que parece não ter fim. Embora o mundo celebre os avanços, o 8 de março convoca para um desabafo necessário: até quando a sobrevivência de mulheres será a maior luta?

A gênese desta data está cravada em tragédias operárias. Seja o incêndio de 1857 em Nova York, onde 129 mulheres teriam morrido carbonizadas, ou a catástrofe da Triangle Shirtwaist Company em 1911 — onde as portas trancadas pelos patrões impediram a fuga de 146 vítimas —, a mensagem era clara: o sistema tentava conter o grito feminino pelo básico, como justiça salarial e dignidade.

Das greves russas de 1917, que ajudaram a derrubar a monarquia czarista, às propostas de Clara Zetkin em Copenhague, as mulheres moldaram a história moderna. No Brasil, o direito ao voto só veio em 1932. Conquistamos o direito de sermos eleitas em 1933, mas a realidade política ainda é um espelho da desigualdade: embora sejamos 53% do eleitorado, ocupamos uma fatia ínfima do poder. Em quase um século na Câmara dos Deputados, as mulheres ocuparam apenas 266 cadeiras entre mais de 7 mil parlamentares.

Apesar de ocuparem as universidades e serem chefes de família, o Brasil ainda ostenta números de guerra quando o assunto é feminicídio. Não basta comemorar a autonomia financeira se as mulheres continuam sendo assassinadas pelo simples fato de serem mulheres, muitas vezes dentro de suas próprias casas, por aqueles que juravam afeto.

Um ato no dia 1 de março em memória de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que morreu após ser atropelada e arrastada pelo ex-companheiro em São Paulo, marcou o início das mobilizações pelo Dia Internacional das Mulheres. Organizado pelo Ministério das Mulheres, o local escolhido para o ato é a Marginal Tietê, na zona norte da cidade de São Paulo, onde Tainara foi agredida, atropelada pelo ex-companheiro Douglas Alves da Silva e arrastada por mais de 1 quilômetro ao ficar presa ao carro dele, em 29 de novembro do ano passado.

A luta que começou nas fábricas têxteis do século XIX hoje se desdobra em delegacias, tribunais e no dia a dia das ruas. É exaustivo notar que, após quase dois séculos de movimentos organizados, a segurança física da mulher ainda seja uma pauta urgente e não resolvida.

O Dia da Mulher é um momento de reflexão profunda. É preciso olhar para o passado de lutas de 1910, 1917 e 1932, mas é obrigatório encarar o presente. Enquanto houver desigualdade de representação no poder e enquanto o índice de violência doméstica não retroceder, o 8 de março continuará sendo, antes de tudo, um dia de protesto.

Confira guia prático com os principais canais de denúncia, acolhimento e assistência jurídica gratuita para mulheres em Manaus

Central de Atendimento à Mulher –  180: Canal nacional gratuito e anônimo. Oferece orientações sobre direitos e serviços públicos.
Polícia Militar – 190: Para situações de emergência e flagrante. Se a agressão está acontecendo agora, ligue imediatamente.
App “Alerta Mulher”: Aplicativo do Governo do Amazonas que funciona como um botão de pânico para mulheres que já possuem Medidas Protetivas de Urgência.
Delegacias Especializadas (DECCM): Manaus possui unidades da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher que funcionam 24 horas:

DECCM – Plantão Central zona centro-sul): * Endereço: Avenida Mário Ypiranga Monteiro, s/nº, Parque Dez de Novembro.

DECCM – zona sul/oeste: * Endereço: Rua Santa Ana, s/nº, bairro Colônia Oliveira Machado.

DECCM – zona norte/leste: * Endereço: Rua Nossa Senhora da Conceição, s/nº, bairro Cidade de Deus.

Assistência Jurídica Gratuita
Se você precisa entrar com um processo de divórcio, pensão alimentícia ou solicitar Medida Protetiva e não tem condições de pagar um advogado:

Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM): Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) – Atendimento especializado para vítimas de violência doméstica. Rua 02, Casa 07, Conjunto Celetramazon, Adrianópolis. WhatsApp de Atendimento: (92) 98559-1599 (verificar horários de agendamento).

Serviço de Assistência Jurídica (SAJ) de Faculdades: Muitas universidades em Manaus (como UFAM, UEA e Nilton Lins) oferecem atendimento gratuito por meio de seus núcleos de prática jurídica.

Acolhimento e Apoio Psicossocial: Centro de Referência de Apoio à Mulher (CRAM).  O local oferece atendimento psicológico e social para ajudar a mulher a romper o ciclo da violência. Endereço: Av. Presidente Kennedy, 399, Educandos.

Serviço de Apoio Emergencial à Mulher (SAPEM): Unidades que oferecem abrigo temporário e proteção para mulheres em risco de morte.

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