Horas depois do início dos ataques contra o Irã, no sábado passado, a Chancelaria russa condenou o conflito, e o classificou de “ato de agressão armada pré-planejado e não provocado” contra um Estado soberano. Um dia depois, chamou a morte do aiatolá Ali Khamenei de “assassinato cínico”. Apesar de ver mais um aliado cair no cenário internacional, a Rússia pode ser a grande beneficiada com a crise: o preço do petróleo disparou nos mercados, a Ucrânia corre o risco de ficar sem sistemas de defesa aérea, e o presidente Vladimir Putin viu alguns de seus pontos de vista corroborados pela decisão americana e israelense de lançar uma nova guerra.
Com o virtual fechamento do Estreito de Ormuz, que levou à queda de 90% do tráfego de petroleiros e navios de transporte de Gás Natural Liquefeito (GNL), os preços das commodities de energia dispararam. O petróleo superou a barreira dos US$ 80 no início da semana, e um fechamento mais longo do estreito, por onde passam cerca de 20% da produção mundial, poderia levar a cotação até a casa dos US$ 100. Na Europa, os preços do gás dobraram desde segunda-feira.
Embora o petróleo russo esteja sob embargo internacional, Moscou ainda tem compradores, oferecendo a preços reduzidos e uma pronta entrega através de sua frota fantasma, algo crucial no momento em que centenas de petroleiros estão ancorados no Golfo Pérsico.
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Analistas estimam que dois dos maiores importadores do mundo, Índia e China, estão prontos para abrir os cofres e aumentar os pedidos dos campos russos, mesmo que precisem mudar políticas internas ou frustrar aliados. No ano passado, os EUA impuseram uma tarifa de 50% sobre as importações indianas por causa das compras de petróleo russo, e um acordo interino, firmado no ano passado, teria entre as cláusulas um compromisso para adquirir o produto de outras fontes.
— Quanto mais tempo durar a crise no Golfo Pérsico, mais benéfico será para a Rússia e mais fundos seu orçamento receberá para financiar sua agressão contra a Ucrânia”, disse Vyacheslav Likhachev, membro do Conselho de Especialistas do Centro para as Liberdades Civis, uma organização ucraniana sem fins lucrativos, à TV France 24.
O potencial aumento das exportações ajudará os russos a resolverem outro problema: com os envios ao exterior em queda, o volume de petróleo estocado no país pode, em breve, suplantar a capacidade de armazenamento. Segundo estimativas independentes, esse gargalo, somado a ataques contra terminais de exportação e questões sazonais, como o congelamento de portos, poderiam levar a uma redução brusca na produção.
Caso as previsões se confirmem, os cofres federais teriam direito a um respiro após um ano de queda nas receitas e gastos elevados com a guerra. Segundo a agência Bloomberg, hoje há 4 trilhões de rublos (R$ 270 bilhões) em reservas acessíveis prontamente pelo governo — em 2022, ano do início da invasão, o volume era de quase 10 trilhões (R$ 670 bilhões) de rublos.
— Para o nosso orçamento, o ataque ao Irã é um grande ponto positivo — disse o propagandista e apresentador de TV Vladimir Solovyov na segunda-feira. — Se Trump atacar os campos de petróleo iranianos, então, por mais lamentável que pareça, nos tornaríamos um dos poucos países produtores de petróleo restantes.
Sem mísseis
A caótica expansão da guerra criou outra situação positiva para os russos. Sob ataque de mísseis, foguetes e drones, americanos, israelenses e as monarquias do Oriente Médio estão usando à exaustão seus sistemas de defesa aérea. No Chipre, onde um drone iraniano caiu em uma base britânica, aliados europeus deslocaram forças e sistemas de defesa aérea. Caso o conflito se estenda por mais tempo, os EUA devem mover recursos de outras regiões, como o Leste da Ásia, para o Golfo.
Com isso, os ucranianos se viram em uma situação perigosa. O país depende do sistema Patriot para defender instalações estratégicas, como centrais elétricas, contra os ataques russos. Segundo cálculos de Kiev, são necessários 60 mísseis por mês, mas os parceiros europeus se comprometeram com apenas cinco, isso antes da guerra no Irã. Ao mesmo tempo, a Rússia produz novos mísseis e centenas de drones graças à adequação de seu parque industrial à economia de guerra.
— A Ucrânia nunca teve tantos mísseis para repelir ataques. Mais de 800 foram usados somente nos últimos três dias — lamentou Zelensky durante entrevista coletiva nesta quinta-feira, em Kiev.
Mas o líder ucraniano tem um novo plano. Desde o fim de semana, ele conversa com líderes do Golfo para oferecer o conhecimento ucraniano para interceptar drones de tecnologia iraniana, os mesmos usados pela Rússia desde 2022, em troca de mísseis do sistema Patriot do modelo PAC-3. Ele afirmou que os EUA já pediram ajuda a Kiev.
— A questão principal é como proteger o espaço aéreo deles (países do Golfo). Nós mesmos convivemos com essa questão. Então vamos falar sobre as armas que nos faltam: mísseis do sistema PAC-3, se eles nos fornecerem, nós forneceremos interceptores — disse na terça. — Essa é uma troca justa. Certamente faremos isso. E se as equipes começarem a trabalhar agora, veremos qual será o resultado.
Conversas congeladas
A guerra no Golfo também paralisou as conversas sobre um cessar-fogo. A Rússia parecia querer ganhar tempo para avançar no campo de batalha, mesmo que a passos curtos e a um elevado custo humano. A principal demanda de Moscou é a cessão dos territórios conquistados, além de seu reconhecimento internacional, mas Kiev reluta. Hoje, 20% da Ucrânia são controlados pelos russos.
Nesta quinta, Zelensky afirmou que uma rodada de negociações prevista para os próximos dias foi adiada por causa dos ataques ao Irã, sem anunciar uma nova data. Longe de um acordo, ele ainda ouviu palavras duras de Trump sobre sua postura nas conversas.
— É impensável que ele seja o obstáculo. Ele não tinha as cartas na manga. Agora ele tem ainda menos cartas na manga — disse o líder americano ao portal Politico, acrescentando uma declaração que ecoou bem nos meios russos. — Acho que Putin está pronto para fazer um acordo.
Para o presidente russo, o ataque no Irã corrobora algumas de suas visões de mundo. EUA e Israel afirmam que a guerra foi lançada para conter “ameaças imediatas”. No discurso em que anunciou a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Putin disse que suas “ações são de autodefesa contra as ameaças que nos são impostas e contra um desastre ainda maior do que o que está acontecendo hoje”.
A pressão externa pela mudança de regime, o incentivo a um levante popular e a exigência de limites ao desenvolvimento militar iraniano o torna menos apto a liberalizar a Rússia ou discutir mudanças em seus arsenais convencionais e nucleares. E a disposição de EUA e Europa em se envolverem em novas crises sem solução dá força a um argumento antigo seu: o de que o Ocidente está desmoronando, e que o futuro está na Ásia.

