A furada de Vini Jr. nos acréscimos da derrota do Brasil para a França, nesta quinta-feira (26), resume um pouco do que foi o jogo dele, mais uma atuação muito abaixo do que se espera da estrela do Real Madrid e agora camisa 10 da seleção brasileira.
Foi uma grande surpresa ver Vini com a 10. A 7 sempre foi a camisa dele, dos sonhos, a 7 de Cristiano Ronaldo, jogador que Vini sempre se espelhou, o número que escolheu usar no Real Madrid. Mas entendo que, com a lesão de Rodrygo e a ausência de Neymar, alguém tem que levá-la e ninguém mais indicado do que quem hoje é, indiscutivelmente, ‘o cara’ da seleção de Carlo Ancelotti.
Ancelotti que foi o treinador por trás da explosão de Vini no Real, o tutor e mentor do jovem brasileiro que, todos sabemos, chegou cedo demais ao maior clube do mundo, com muitas carências de base e com a necessidade de desenvolvê-las em um clube que não é e nunca foi de formação. O Real Madrid é uma moedora de talentos. Medalhões como Kaká, Hazard ou Bale foram triturados pela exigente rotina de um clube que não dá espaço para erros.
E no contexto mais adverso, Vini conseguiu triunfar, mesmo quando até os próprios companheiros duvidavam dele. O vídeo de Benzema e Mendy dizendo entre si que não deveriam passar a bola para um jovem Vini sempre será símbolo de tudo que teve que superar para se transformar em referência na Europa, primeiro brasileiro a marcar em duas finais de Champions e jogador que mais participou de gols no mata-mata da competição na última década.
O começo da temporada de Vini foi péssimo, com sua luta para provar seu valor ao já ex-treinador Xabi Alonso, deixando-o exposto ao coliseu do Bernabéu, que vaiou o brasileiro há três meses como eu nunca havia visto acontecer em 20 anos frequentando o emblemático estádio
Vini superou esse momento com a mesma diligência que em crises anteriores, com a resiliência que faz dele provavelmente o jogador mais casca grossa que já conheci. Não apenas por sua capacidade de superação, mas por crescer em jogos grandes, se transformando em uma espécie de amuleto do Real na reta final da temporada, quando o clube vai encarar seus maiores rivais em jogos eliminatórios da maior competição de clubes do mundo. Quando todos tremem, Vinicius brilha.
Por isso, jogos como o desta quinta são um verdadeiro mistério. Fica até difícil aceitar de forma racional que aquele jogador tímido e inibido que jogou na ponta esquerda é o mesmo que vi em carne e osso calar torcedores em Manchester, Paris, Londres, Munique e Barcelona.
Todo vimos como Vini esteve acanhado em campo nos Estados Unidos e não acho que seja uma questão de sistema. A França entrou em campo com um sistema muito similar, quase idêntico ao do Brasil. Com apenas Tchouaméni e Rabiot de meias, jogou com quatro atacantes, mas a grande diferença ficou na atuação de ambas as defesas e ambos os ataques. Enquanto o ataque da Franca parecia jogar como uma orquestra contra uma zaga brasileira capenga e toda remendada, com Wesley e Léo Pereira muito expostos, o ataque do Brasil não dava liga, não tinha química.
Um Martinelli também muito decepcionante dava a impressão de estar perdido entre Vini, Cunha e Raphinha, que claramente sentiram a falta de uma referência na ponta direita. Estêvão tinha feito esse time funcionar contra o Senegal em Londres e a entrada de Luiz Henrique deu nova vida ao time no 2º tempo, uma atuação que inclusive deveria valer o carimbo para os EUA.
Ancelotti terá um trabalho hercúleo na preparação para a Copa. Terá que encontrar um time titular para a estreia e que duvido será o mesmo do último jogo que dispute na Copa. Ele terá que improvisar e usar seu feeling para saber não só quem estiver melhor, mas quem dá mais química em seu sistema. E, claro, terá que usar sua liderança tranquila para descobrir ‘qué pasa’ com Vini na seleção.Esse negócio de dinastia é papo de esporte estadunidense. No futebol, principalmente no futebol moderno, um time conseguir dominar uma competição de mata-mata no mais alto nível como a Champions é algo único.

