O prazo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o início de um bloqueio naval contra o Irã termina nesta segunda-feira, às 11h (no horário de Brasília), aumentando a tensão em torno do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de petróleo e gás. A medida foi anunciada após o fracasso das negociações entre representantes dos dois países, realizadas no Paquistão, e mesmo diante de um cessar-fogo ainda em vigor.
Trump afirmou nas redes sociais que os EUA começariam a “bloquear toda e qualquer embarcação” que tentasse entrar ou sair do estreito, além de interceptar navios que tenham pago taxas ao Irã para garantir passagem. Há dias tem sido noticiado que uma taxa na faixa dos US$ 2 milhões está sendo cobrada por Teerã para garantir uma passagem segura, tornando a iniciativa uma importante fonte de receita para o país.
“Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura em alto-mar”, escreveu Trump, acrescentando que os EUA começariam a destruir as minas que, segundo ele, o Irã colocou no estreito. “Qualquer iraniano que atire contra nós, ou contra embarcações pacíficas, será MANDADO PARA O INFERNO!”. Trump afirmou que “em algum momento” será alcançado um acordo sobre passagem livre, mas que “o Irã não permitiu que isso acontecesse”. Em outra publicação, escreveu que “o Irã prometeu abrir o Estreito, e conscientemente deixou de fazê-lo”:
“Como prometeram, é melhor que comecem o processo para tornar esta HIDROVIA INTERNACIONAL ABERTA E RAPIDAMENTE!”, disse.
Mesmo com o anúncio do presidente americano, porém, o valor ainda poderia ser pago em criptomoeda não rastreável, mantendo a dúvida sobre como separar aqueles que compraram a passagem segura daqueles cujos governos a negociaram. Posteriormente, o Comando Central dos EUA indicou que a operação deve se concentrar em navios que deixem ou tentem atracar em portos iranianos, permitindo a circulação de embarcações com destino a outros países.
Como um bloqueio funcionaria na prática?
Segundo a definição adotada pela Marinha americana, um bloqueio naval é uma “operação beligerante” destinada a impedir que embarcações e aeronaves entrem ou saiam de portos controlados por um Estado inimigo. Na prática, isso significa que forças militares podem interceptar navios em alto-mar e impedir sua continuidade.
Especialistas avaliam que os navios de guerra dos EUA não devem se posicionar diretamente diante de portos iranianos, como Bandar Abbas ou Jask, o que os tornaria vulneráveis a ataques com mísseis, drones ou lanchas rápidas, mesmo com seus sistemas de identificação desligados. Em vez disso, o monitoramento seria feito por satélites e outros meios de inteligência para identificar embarcações que deixem portos do Irã. Uma vez em águas abertas, esses navios poderiam ser interceptados.
A operação, no entanto, envolve riscos significativos. Abordar uma embarcação em alto-mar é considerado um ato hostil e pode ser interpretado como um ato de guerra. Juristas consultados pela BBC afirmaram que um bloqueio desse tipo pode violar o direito marítimo internacional e até mesmo o acordo de cessar-fogo em vigor.
Outro ponto sensível é a nacionalidade dos navios. Interceptar embarcações com bandeira iraniana é uma coisa; outra, mais complexa, seria abordar petroleiros registrados em países terceiros. Navios chineses, por exemplo, têm representado parte relevante do tráfego que ainda consegue atravessar a região, o que levanta o risco de tensões diplomáticas com potências como China e Rússia.
O Irã classificou a ameaça como “ato de pirataria” e afirmou que atingirá todos os portos dentro e próximos ao Golfo Pérsico caso seus próprios centros de navegação sejam ameaçados. A segurança dos portos da região é “ou para todos ou para ninguém”, disseram as forças armadas iranianas em comunicado nesta segunda, segundo a emissora estatal IRIB News. Os comentários sinalizam que o Irã está pronto para retomar ataques — movimento que também aumentaria as tensões entre os EUA e a China, que compra quase todo o petróleo iraniano.
Já aliados dos EUA demonstraram cautela. O Reino Unido indicou que não participará do bloqueio, enquanto a ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, disse que o bloqueio naval planejado “não faz sentido” e é “mais um episódio nesta espiral descendente para a qual fomos arrastados”. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que França e Reino Unido sediarão uma conferência com países dispostos a participar de uma “missão multinacional pacífica” para garantir a segurança do estreito, mas que ela será “estritamente defensiva”.
A geografia do estreito permitiu que o Irã utilizasse o Estreito como instrumento de pressão ao longo da guerra, impedindo seletivamente a passagem de embarcações pela estreita via marítima e elevando os preços do petróleo no processo. Ao fechar o estreito, Trump poderia cortar uma importante fonte de receita para o governo iraniano, embora isso também possa elevar ainda mais os preços do petróleo e do gás.
Isso porque um bloqueio de navios iranianos cortaria uma linha vital financeira para Teerã, que manteve as exportações de petróleo em níveis pré-guerra e arrecadou milhões de dólares extras com a alta dos preços do petróleo provocada pelo conflito. O bloqueio de Trump também poderia ter grande impacto sobre a China, parceiro comercial-chave da República Islâmica. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, disse nesta segunda que a medida ameaça o comércio global e pediu que ambos os lados “permaneçam calmos”.
Enquanto EUA e Israel interromperam os bombardeios ao Irã — e Teerã, por sua vez, parou de disparar mísseis contra Estados do Golfo — Israel manteve sua invasão do Líbano para atingir o Hezbollah, grupo militante apoiado por Teerã. Nesta segunda-feira, o Exército israelense disse ter cercado Bint Jbeil, uma cidade em colina a cerca de 4 km da fronteira israelense, e que iniciará um ataque. O Hezbollah considera Bint Jbeil um de seus principais redutos e a chama de “capital da resistência”.
A ofensiva de Israel no Líbano — que, segundo o governo libanês, já matou mais de 2 mil pessoas — foi um ponto de discórdia durante a negociação dos termos do cessar-fogo entre EUA e Irã. Conversas entre Israel e o governo libanês, que há anos promete desarmar o Hezbollah sem sucesso, devem ocorrer nesta semana.
Os desdobramentos em Ormuz e no Líbano ameaçam prolongar e ampliar a guerra, enquanto a escassez emergente de energia alimenta temores de uma crise inflacionária global. O acordo de cessar-fogo de duas semanas deve expirar em 22 de abril, caso o bloqueio americano não leve ao seu colapso antes disso. A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que qualquer embarcação militar que tente se aproximar do Estreito “sob qualquer pretexto” será considerada uma violação do cessar-fogo, segundo a TV estatal iraniana.
Embora nenhum dos lados tenha se comprometido com uma segunda rodada de negociações, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que os países chegaram a um entendimento sobre várias questões, mas persistem divergências “em dois ou três pontos-chave”. Um funcionário americano, que pediu anonimato, disse no domingo que estava claro para a equipe dos EUA que a delegação iraniana não compreendia o principal objetivo do governo Trump, que era garantir que a República Islâmica nunca tenha uma arma nuclear.
(Com Bloomberg e AFP)

