IA americana consegue detectar câncer de pâncreas anos antes de a doença aparecer
Um sistema de inteligência artificial desenvolvido nos Estados Unidos conseguiu identificar o câncer de pâncreas muito antes de ele aparecer em exames de imagem. Os resultados apontam para a possibilidade de detectar um dos tumores mais letais de forma precoce o suficiente para tratá-lo com sucesso, afirmam cientistas.
O modelo, desenvolvido por pesquisadores da Mayo Clinic junto a outros colaboradores, identificou mudanças sutis em tomografias computadorizadas de rotina em média 475 dias antes de os pacientes serem diagnosticados. O estudo que detalha o feito foi publicado nesta terça-feira na revista científica Gut.
O câncer de pâncreas raramente é detectado precocemente porque os tumores normalmente não causam sintomas e muitas vezes não são visíveis em exames de imagem até que a doença esteja avançada. Mais de 85% dos casos são encontrados em um estágio em que o tratamento se limita em grande parte a aliviar os sintomas, o que ajuda a explicar por que a sobrevida dos pacientes em cinco anos é de cerca de 10% globalmente.
As novas descobertas, porém, apontam para uma possível mudança na forma como o câncer de pâncreas é diagnosticado: em vez de reagir aos sintomas tardiamente no curso da doença, identificar pacientes em risco até mesmo anos antes.
“Essa janela temporal tem profunda importância, pois alcançar uma detecção tão precoce aumentaria substancialmente a probabilidade de cura e de melhora da sobrevida”, escreveram os pesquisadores no artigo.
Se confirmadas em estudos de rastreamento no mundo real, essas ferramentas poderão ajudar a diagnosticar mais casos numa etapa em que a cirurgia ou outros tratamentos ainda são possíveis, o que estudos de modelagem sugerem que poderia melhorar significativamente a sobrevida.
“Estudos de modelagem indicam que aumentar a proporção de (carcinomas ductais pancreáticos) localizados de 10% para 50% mais do que dobraria as taxas de sobrevida, ressaltando assim que o momento do diagnóstico é o determinante mais crítico dos desfechos de sobrevida”, disseram.
O sistema de IA, chamado Redmod, analisa padrões em imagens de tomografia computadorizada que não são visíveis ao olho humano. Ele foi treinado e testado em exames de mais de 1,4 mil pessoas, incluindo 219 pacientes cujos exames anteriores haviam sido interpretados como normais, mas que posteriormente desenvolveram câncer de pâncreas.
Em uma comparação direta, a IA foi significativamente melhor do que radiologistas em identificar esses sinais precoces. Ela identificou corretamente 73% dos casos, em comparação com cerca de 39% dos médicos revisando as mesmas imagens. A vantagem aumentou para exames feitos mais de dois anos antes do diagnóstico, nos quais o sistema detectou 68% dos casos, contra 23% para radiologistas.
O modelo também teve desempenho consistente em diferentes hospitais e equipamentos, e classificou corretamente mais de 80% dos exames de pessoas que não desenvolveram câncer.
A ferramenta pode eventualmente ser usada para sinalizar pacientes de alto risco — como adultos mais velhos com perda de peso inexplicada e diabetes de início recente — para acompanhamento mais próximo, disseram os pesquisadores, mas precisa de testes maiores para confirmar que melhora os desfechos antes do uso na prática clínica.