Mulheres e meninas dos povos Manchineri e Jaminawa são vítimas de exploração sexual e tráfico de pessoas na fronteira do Acre com o Peru e a Bolívia, conforme reportagem da Revista AZMina (azmina.com.br) publicada na quarta-feira (8).
Um cruzamento de dados do Disque 100 com as definições do Protocolo de Palermo identificou 3.443 casos com indícios de tráfico de pessoas registrados entre 2020 e 2025, nenhum deles classificado oficialmente dessa forma. A exploração foi registrada em 19 dos 22 municípios acreanos.
Um relatório técnico do Observatório de Gênero do Ministério Público do Acre (MPAC), elaborado a partir de 95 boletins de ocorrência da Polícia Civil entre 2015 e 2026, identificou 115 vítimas de exploração sexual na região. Dessas, 87% tinham menos de 18 anos, 51% estavam na faixa de 10 a 14 anos, e há registros envolvendo crianças de até quatro anos. Todos os casos ocorreram em contexto intrafamiliar.
A invisibilidade das vítimas indígenas nos dados oficiais é um problema estrutural. Em 54% dos registros do Acre não há informação sobre raça, cor ou etnia, e nenhum boletim registra oficialmente vítimas indígenas, ainda que esse grupo represente 3,5% da população acreana.
A ex-ouvidora da Defensoria Pública do Acre, Soleane Manchineri, explica que mulheres indígenas tendem a se identificar como “pardas” por conta do racismo histórico, o que apaga sua presença nas estatísticas. Marina Bernardes de Almeida, coordenadora-geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Ministério da Justiça, admitiu que “um dos principais desafios é justamente a invisibilidade de populações indígenas, população trans e outros grupos vulneráveis.”
O tráfico raramente começa com violência explícita. O aliciamento ocorre por meio de promessas de emprego, casamento ou melhoria de vida, e as vítimas são recrutadas sobretudo quando migram para áreas urbanas, em situação de vulnerabilidade social. Soleane Manchineri relata o caso de uma ex-aluna que, aos 26 anos, foi convencida por um homem peruano a deixar os filhos e a terra indígena.
Ao chegar ao Peru, a jovem passou a trabalhar em um bordel e era impedida de sair sob ameaças de morte. Os familiares foram os responsáveis pelo resgate, sem envolvimento das autoridades. No destino, traficantes costumam criar nova documentação para as vítimas com nome de “branco”, apagando a identidade indígena e dificultando ainda mais o processo de busca.
O posto da PRF mais próximo de Assis Brasil fica em Xapuri, a 181 km de distância, o que faz com que o resgate de vítimas ocorra por iniciativa das próprias comunidades, sem apoio do Estado. Stella Scampini, procuradora regional da República que coordena a Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas (UNTC), afirma que o Acre reúne condições que favorecem organizações criminosas.
O cenário já havia sido mapeado pelo governo federal na pesquisa do ENAFRON (2012–2013), que identificou Serra do Divisor, Epitaciolândia e Brasiléia como pontos críticos, e registrou a vitimização de adolescentes indígenas dos povos Manchineri, Jaminawa, Kaxinawá, Yawanawá e Shanenawa.
A Secretaria de Estado da Mulher do Acre informou à Revista AZMina que não possui ações específicas voltadas ao tráfico de mulheres, e a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos não respondeu até o fechamento da matéria de Hellen Lirtêz.
Rayssa Castelo Branco, do Observatório de Violência de Gênero do MPAC, defende melhorias nos registros com recorte étnico-racial e capacitação dos profissionais. “O desafio não é provar que o problema existe, mas garantir que ele seja visível e enfrentado”, afirma.

