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Jogo Político: Caiado, Kassab e a conta que não fecha sobre quanto vai custar a candidatura presidencial do PSD 

Na última terça-feira, a frase de Gilberto Kassab indicando que a candidatura de Ronaldo Caiado ao Planalto serve para o PSD negociar apoios no segundo turno acendeu o alerta no entorno do ex-governador de Goiás. Na próxima semana, uma reunião marcada para São Paulo entre os dois será mais um teste para aferir o quanto o projeto presidencial do partido é para valer. Desde que foi criada há 12 anos, a legenda de Kassab ensaia um projeto independente nas urnas, mas nunca o colocou em prática — apoiou Dilma Rousseff, em 2014, e, sem candidato em 2018 e 2022, liberou os diretórios regionais para agir como preferissem.

No encontro, estará em pauta o tamanho do investimento que Caiado quer fazer na campanha deste ano. O entorno do presidenciável sabe que não tem como alcançar os patamares de Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022 (acima de R$ 100 milhões), mas acha insuficiente o candidato gastar na mesma faixa de Simone Tebet, Soraya Thronicke e Ciro Gomes há quatro anos (entre R$ 30 e 35 milhões). Sua equipe considera que é necessário um aporte de cerca de R$ 70 milhões para uma campanha competitiva ser colocada na rua.

Nos últimos dias, muito se especulou no mundo político que Caiado foi escolhido por Kassab ao invés do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, por estar disposto a investir do próprio patrimônio na campanha — algo que o governador do Paraná, Ratinho Junior, faria caso fosse candidato ao Planalto graças ao faturamento milionário dos negócios do pai, o empresário Carlos Massa. O goiano, contudo, nunca teve esse costume. Embora tenha declarado bens de R$ 24,8 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última eleição, Caiado usou apenas R$ 20 mil do próprio bolso para se reeleger ao Palácio das Esmeraldas. É remota, portanto, a possibilidade de repetir Henrique Meirelles, que em 2018 gastou R$ 54 milhões ele próprio para ser o presidenciável do MDB.

Outra aposta sem conexão com o histórico de Caiado está em suposta capacidade de angariar apoio financeiro — desde 2015, o financiamento empresarial está proibido no Brasil, mas as doações de pessoas físicas seguem valendo. Em 2022, Caiado recebeu R$ 1,15 milhão diretamente de doadores individuais, sendo o agronegócio responsável por 80% das contribuições. O valor, contudo, equivale a menos de 5% de quanto custou a campanha para o governo de Goiás naquele ano (R$ 20,3 milhões). É muito improvável a repetição do fenômeno Bolsonaro em 2022, quando a campanha do ex-presidente declarou ter recebido R$ 88,2 milhões de doações individuais.

Outro desafio para a candidatura presidencial não se esvaziar sem recursos, como temem aliados do ex-governador, está nos projetos de poder do PSD dos estados. Não vai ser simples fechar a matemática de Kassab com um fundo eleitoral previsto de cerca de R$ 500 milhões e ambições majoritárias em pelo menos cinco estados: Rio (Eduardo Paes), Minas Gerais (Mateus Simões), Distrito Federal (José Roberto Arruda), Raquel Lyra (Pernambuco) e Guto Silva, o sucessor que Ratinho Junior tentará emplacar no Paraná. Além disso, haverá investimento maciço nas candidaturas para o Congresso Nacional. Encerrada a janela partidária na semana passada, o PSD segue como a quarta força da Câmara com 47 deputados, atrás de PL, PT e da federação do União Brasil e PP.

Caiado está se mudando para o apartamento das suas filhas em São Paulo e fará da cidade o quartel-general da campanha presidencial. Além de encher a agenda de encontros com a Faria Lima, também começou a fazer gestos para o público da capital. Essa semana, atacou a Enel que vive em pé de guerra com os governos de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes (“é hora de botar essa empresa para correr”, disse em vídeo na internet).

O tema é importante para Caiado nacionalizar a imagem. Embora tenha crescido no Instagram em 2025 chegando a 2,1 milhões de seguidores, as suas redes ainda falam demais para o público do Centro-Oeste. Seu perfil é recheado de postagens celebrando dados de segurança e educação de Goiás e apresentando o vice Daniel Vilela (MDB), pré-candidato à sua sucessão. Portanto, falar sobre como a Enel deixou a concessão da energia do estado em 2022 após pressão política de Caiado é uma tentativa de tirar o goiano da bolha do Cerrado.

Desde a confirmação como pré-candidato, mais conteúdos que dialogam com o Brasil foram publicados nas redes do ex-governador. Embora tenha ficado marcado por dizer, no fim de março, que daria anistia a Jair Bolsonaro caso eleito, Caiado tentará se diferenciar Flávio Bolsonaro a partir do discurso da “experiência e preparo para governar”. Dois cortes de vídeo seus recentes trazem mensagens com essa pegada: “Não trabalho com polarização” e “Sou político de entregas e resultados, e não de likes e gritarias”.

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