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Juliano Cazarré defende curso para homens e nega paralelos com machosfera

Por Redação Juruá em Tempo.29 de abril de 20267 Minutos de Leitura
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Após anunciar o evento “O farol e a forja”, que ele criou com o intuito de formar homens “mais conscientes, mais centrados, mais responsáveis”, Juliano Cazarré enfrentou uma enxurrada de críticas.

O artista, de 45 anos, reforçou que só pretende orientar homens a se reconectarem com a própria masculinidade. Segundo ele, as famílias precisam da “figura masculina”. Definida como “maior encontro de homens do Brasil”, a iniciativa terá palestrantes como o lutador Rodrigo Minotauro, a jornalista Monica Salgado e o pastor Anderson Silva. As palestras passarão por temas como armamento, queda da testosterona, vício em pornografia e as dimensões do ser humano como animal e ser racional.

Artistas como Marjorie Estiano, Elisa Lucinda, Claudia Abreu e Paulo Betti soltaram o verbo contra o projeto. Outros, como Juliana Knust, Claudia Leitte e Luiza Possi, saíram em sua defesa nas redes sociais.

“Juliano, você não criou. Você apenas está reproduzindo, em maior ou menor grau, um discurso que já foi profundamente difundido, enraizado e que mata mulheres todos os dias”, opinou Marjorie.

Em entrevista ao GLOBO, Cazarré negou associações com movimentos misóginos da chamada machosfera, como o masculinista e o redpill. Ele também critica o que chama de “identitarismo da cultura woke” e prega por mais valores fixos e menos relativismo. Abaixo, um resumo da conversa:

Como se sentiu vendo seu evento ser associado à machosfera?

Eu sou um homem casado, sou um homem esposo. Acredito na instituição do casamento, acredito na família e jamais faria um curso nesse sentido de machoesfera, masculinista, red pill. Esse é um evento que conta com especialistas de áreas variadas, não é um curso do tipo “entra, passa um final de semana e sai daqui trocando pneu, assando churrasco e cuspindo no chão”. Na programação temos médico, urologista, psiquiatra, psicólogo, especialista em segurança pública, doutor em política… São temas variados. A ideia é fortalecer os participantes e ajudá-los a voltar para casa como homens melhores, cidadãos melhores.

Mas haverá atividades além das palestras? Algo coletivo, dinâmicas em grupo?

Na prática, haverá apenas momentos de confraternização ao fim do dia. Na sexta-feira, um happy hour com uísque e charuto para quem gostar. No sábado, pizza e vinho. No domingo, churrasco. São ocasiões para conversar, trocar contatos e fazer networking. Quem quiser, poderá se apresentar a mim e ter um momento de conversa. Mas não haverá dinâmicas. Meu evento não tem esse aspecto prático de outros retiros masculinos, como os Legendários, em que as pessoas sobem montanhas e fazem atividades físicas. O meu é muito mais intelectual. Vamos sentar e ouvir palestrantes.

Juliano Cazarré é casado com a coach Letícia — Foto: Reprodução/Instagram
Juliano Cazarré é casado com a coach Letícia — Foto: Reprodução/Instagram

E qual seria a utilidade do evento? O que ele pretende desenvolver nos homens que procuram isso?

Vou dar exemplos. Teremos um urologista, o Dr. Diogo Vinck, falando sobre a queda da testosterona masculina nas últimas décadas e sobre meios naturais de melhorar isso e também a fertilidade. O Alexandre Loiola também abordará esse tema. Sabemos que níveis muito baixos de testosterona podem refletir em problemas psicológicos e psiquiátricos. Também haverá médicos falando sobre vício em pornografia, masturbação, alcoolismo, depressão. Teremos ainda um padre e um pastor debatendo a visão cristã do casamento, em um diálogo entre católico e evangélico.

E na parte política?

O comentarista político Bruno Garschagen falará sobre a guerra cultural atual e sobre a chamada crise do masculino. Até que ponto isso é algo natural da sociedade e até que ponto existe algo por trás disso, um incentivo para homens ficarem perdidos, viciados em internet ou em outros comportamentos destrutivos. Ítalo Marsili falará sobre o humano como animal e ser racional ao mesmo tempo, e sobre como integrar essas duas dimensões.

E qual é o objetivo?

A ideia é oferecer ferramentas para que os homens caminhem melhor no mundo, enxerguem a realidade como ela é e voltem para casa com mais vontade de estar presentes na vida dos filhos, da esposa e dentro de casa.

Juliano Cazarré lança curso para 'homens enfraquecidos' — Foto: Reprodução/Instagram
Juliano Cazarré lança curso para ‘homens enfraquecidos’ — Foto: Reprodução/Instagram

O homem contemporâneo está em busca de orientação?

Acho que isso acontece porque caminhamos muito para o relativismo, a ideia de que não existe certo ou errado, só opinião individual. E as pessoas não ficaram mais felizes com isso. Temos mais conforto material, comida abundante, transporte, roupas, remédios baratos, e ao mesmo tempo nunca estivemos tão deprimidos, ansiosos, medicados e perdidos. Muita gente busca algo sólido. A Igreja Católica, com dois mil anos de história, representa isso. Mais gente está descobrindo que existe um valor na família tradicional, no matrimônio, na fidelidade, na castidade.

O que você considera família tradicional?

Pai, mãe e filhos.

Homem e mulher vivendo em igualdade?

Ah, cada família dá seu jeito. Aqui em casa é tudo igual, todo mundo trabalha muito o tempo todo, a gente divide tudo, sabe? Eu e minha esposa trabalhamos fora, ela é uma mulher independente, se veste como ela quer. Não é uma família careta, é uma família normal, sabe?

Parte da classe artística reagiu negativamente ao lançamento do evento. Você acha que houve um mal-entendido sobre a natureza do projeto?

Acho que houve, em primeiro lugar, uma reação automática de setores mais progressistas a qualquer coisa que pareça conservadora. Como sou católico, casado e pai de família numerosa, isso já me coloca nesse campo aos olhos deles. Então, eles já tiveram essa reação forte e rápida. Porque eles sentem que estão perdendo muito espaço, né? Eles veem as pessoas abandonando o campo deles e buscando um pouco mais de solidez, um pouco mais de tradição, um pouco mais de bom senso. Eu acho que o identitarismo e o woke cansaram. A maioria das pessoas cansou. Eu acho isso, a gente vê refletido no apoio que eu recebi, que é esmagadoramente maior do que o número de críticas.

Uma das críticas era o timing de um evento para homens em uma época com muitas notícias de feminicídio…

Meu evento quer formar homens mais responsáveis. Associar ele à misoginia e ao feminicídio é absurdo. Sou um homem atento às questões que tocam as mulheres, sabe? Sou ultra cavalheiro com elas no meu trabalho, sou ultra atencioso com a minha esposa em casa. Dizer que meu evento aumentaria feminicídios é uma acusação grave e injusta. Além disso, ao fazerem isso, colocam um alvo nas minhas costas. Dizem que sou alguém perigoso, que precisa ser eliminado do debate público. Isso, para mim, é covardia.

Juliano Cazarré em cena da peça 'Compliance' — Foto: Pamela Miranda/Divulgação
Juliano Cazarré em cena da peça ‘Compliance’ — Foto: Pamela Miranda/Divulgação

Mas movimentos como o redpill e a machosfera, que seu evento não defende, podem ser responsabilizados pelo aumento de feminicídios?

Esse número de feminicídios que o Brasil chegou foi depois de cinco governos progressistas, praticamente seguidos. Esse número de assassinatos que a gente tem é por culpa do progressismo dentro da justiça, uma justiça que solta bandido. O cara é preso várias vezes, a justiça solta ele. Esse homem desconstruído, o homem frágil, o homem sensível, não defende as mulheres. Se esse homem vê uma mulher na rua apanhando, ele pega o celular e filma. Ele não vai lá se meter para ajudar. Então não sou eu que tenho que responder pelo número de feminicídios no Brasil. É o PT, é o Lula, não eu.

Existe hoje um mal-estar masculino que precisa ser tratado? Como o conservadorismo e os valores que você defende podem evitar que homens recorram ao ódio às mulheres?

O que eu quero propor é: vale a pena casar, vale a pena ser pai, vale a pena cuidar da família, trabalhar, ser responsável, cuidar da saúde. A resposta redpill é o contrário: use as mulheres, não se relacione com elas, veja-as como inimigas. Eu não enxergo o mundo assim. Da mesma forma, também não concordo com a visão de que todo homem é um estuprador ou opressor em potencial. Esses dois extremos, o identitarismo woke e o red pill, estão errados. O que precisamos é de bom senso.

Por: O Globo.
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