Após o vereador Glaucio Pedrosa (União Brasil) usar a tribuna da Câmara Municipal para criticar o avanço de processos de demarcação de terras indígenas em Marechal Thaumaturgo, interior do Acre, classificando-os como um “atraso”, a liderança do povo Kuntanawa, Haru Kuntanawa, rebateu as declarações e defendeu a regularização das terras como uma medida de proteção ambiental e inclusão social.
Em um posicionamento enviado ao portal A GAZETA, Haru Kuntanawa enfatizou que a luta pela demarcação da Terra Indígena Kuntanawa não é recente, somando quase três décadas de reivindicações institucionais fundamentadas em uma história milenar na região. Ao contrário da “segregação” mencionada pelo parlamentar, a liderança indígena sustenta que o objetivo é a unificação de esforços para o bem-estar de todas as populações.
O vereador Pedrosa havia argumentado que o “ambientalismo” está impedindo a produção agropecuária e gerando insegurança jurídica para produtores rurais. Em resposta, Haru convidou o parlamentar a conhecer os detalhes técnicos e humanitários da luta indígena.
“Convido o vereador a conhecer melhor o detalhe da nossa luta, para ele poder considerar e talvez entender com mais respeito a nossa luta, porque a nossa luta não é uma coisa de qualquer jeito. A gente está respeitando os critérios, trabalhando em paz, promovendo um diálogo”, afirmou Haru Kuntanawa.
Diferença entre extrativistas e indígenas
Um dos pontos centrais da resposta de Haru foi a distinção entre a Reserva Extrativista (Resex) e a Terra Indígena. Ele pontuou que, embora ambas visem à conservação, o modo de vida indígena possui especificidades culturais e rituais que justificam a demarcação própria.
“Um povo indígena é totalmente diferente no conceito de viver. Você não vê o extrativista usar o que nós utilizamos, andar da forma que nós andamos. Você não vê o extrativista pintado de urucum e de jenipapo, tomando ayahuasca e tendo suas cerimônias sagradas que nem nós temos”, explicou a liderança.
Proteção das cabeceiras e ausência de desapropriação
Haru também esclareceu que a nova demarcação não visa desapropriar moradores ou produtores consolidados na região. Segundo ele, o estudo foca na proteção das cabeceiras dos rios São João, Acurauá e Caipora, áreas essenciais para a manutenção hídrica que beneficia a todos.
“Nós não estamos desapropriando ninguém. A gente está, de fato, tirando um problema que está aí hoje, que é o controle da reserva, que não está tendo pelos órgãos ambientalistas. A gente está chamando essa responsabilidade para nós, para que possamos cuidar. Com certeza esses moradores que estão no entorno vão agradecer a gente depois, porque vamos estar protegendo [as cabeceiras]”, concluiu.
A liderança finalizou reforçando que a conduta do povo Kuntanawa sempre foi de inclusão, pensando tanto nas famílias indígenas quanto nas não indígenas, e que a busca é por uma gestão pública que una os órgãos em torno de políticas que protejam a existência dos povos originários e a integridade da Amazônia.

